Vontade popular? Para quê?
Posted on July 23, 2010
O blogueiro Leonardo Sakamoto nos brinda com a verdadeira pérola num longo diatribe reclamando que os candidatos à presidência não defenderem assuntos como casamento gay, acesso ao aborto, eutanásia, entre outras coisas :
”Parece que, para ser candidato nesta eleição, é necessário se despir de
qualquer opinião própria e desistir de ser si mesmo para seguir um
gabarito a fim de que a maioria dos eleitores se reconheça nele e dê seu
voto. Mas é isso o que se espera de um bom candidato, que seja alguém à
minha imagem e semelhança e não uma liderança política que possa
governar o país? Devo dar meu voto a alguém que pense exatamente como eu
ou que possa levar o país a um novo patamar de civilidade e de
qualidade de vida para todos? O que é democracia? Um governo totalitário
da maioria ou um governo da maioria em que as minorias são respeitadas? “
Hmmm. Na verdade, isso é mais complicado que parece. Um candidato que mude de opinião sobre um assunto como as pesquisas de opinião dizem vai ser tachado de inconstante ou sem princípios(Ou ainda flip flopper, como os americanos dizem), o que efetivamente custou a Casa Branca para muitos candidatos. Por outro lado, o princípio básico de uma eleição é justamente que os eleitores querem, tchadã, candidatos que sigam plataformas que lhe agradem. A não ser que o Sakamoto esteja falando nas eleições egípcias ou do Iraque de Saddam Hussein. Por todo mundo é justamente isso que os candidatos que vencem as eleições fazem(Imagem e semelhança é bobagem, uma vez que a biografia dos dois principais candidatos são distantes demais da média da população).
Sim, há um regime que coloca a “liderança” acima da vontade popular. Ele se chama fascismo. Pode-se defender o casamento gay dentro dos princípios de igualdade, por outro lado alegar que dentro de um sistema eleitoral a vontade da população deva ser rejeitada é um tanto quanto absurdo. E sim, alegar que dentro do sistema legal brasileiro os homosexuais sejam “oprimidos pela maioria” é pegar pesado(Uma das razões pela quala bandeira do casamento gay é bem menos popular no Brasil que nos EUA é que muitos dos direitos do casamento são estendidos aos gays de uma forma ou outra).
E de uma certa forma é irrelevante se o presidente defende direitos como o do aborto(não que ninguém que defendesse abertamente o aborto tivesse grandes chances de ser eleito) ou do casamento gay porque isso teria que passar pelo Congresso, e ao contrário da Argentina, não é possível se valer da máquina partidária e de pura pressão para forçar o Congresso a aprovar medidas fortemente impopulares.
Comments
2 Responses to “Vontade popular? Para quê?”

Ainda bem que há pessoas dentro da esquerda, como o Sakamoto, que consideram que direitos de minorias não devem estar sob decisão da maioria.
Na Venezuela, opositores são intimidados, rede de TV é fechada, tudo isso em um país com um presidente eleito pela maioria, e tem gente na esquerda que acha isso lindo.
Se a opinião da maioria fosse considerada em tudo, haveria pena de morte no Brasil. Mas há cláusula pétrea na constituição que veta isso porque a minoria contra, mais bem organizada, teve maior poder de pressão. Isso é uma virtude, e não um defeito do processo democrático.
O mesmo que aconteceu com o veto à pena de morte pode muito bem acontecer com a legalização do aborto e o reconhecimento do casamento de homossexuais.
Um político a favor do casamento gay pode muito bem se declarar favorável a isso, ser eleito por outros motivos, e contar com maior poder de lobby dos defensores da mudança para que ela seja aprovada no Congresso.
Com relação ao aborto, a oposição é tamanha que acho impossível. Isso é o beijo da morta para qualquer político. Com relação aos gays, acredito que a progressão nos direitos à coabitação vai ser tão grande, seja pelo Congresso ou judicialmente, que ninguém vai notar.
Tirando talvez o Sakomoto.