Brasil

Lula e Ahmadinejad

Posted on November 23, 2009

Quem assistiu a CNN e a BBC neste final de semana deve ter sentido um tiquinho de vergonha pelo Brasil. Mostraram as imagens das tais manifestações contra Ahmadinejad, com um monte de mulheres vestidas de baianas e gente em Ipanema como se estivesse no carnaval. Tosco. O problema da visita de Ahmadinejad é que a maioria das críticas são feitas pelo lado errado. O principal ponto que Ahmadinejad deveria ser criticado é por causa dele ser a faceta pública, mesmo que não dominante, de um regime que oprime e tortura dissidentes e jornalistas, não por ele negar o Holocausto ou por causa de declarações obviamente distorcidas sobre Israel na imprensa internacional. Quem reclama da visita tende a mostrar uma certa caipirice de copiar manias que ocorrem em outras países e de não conhecer os reais problemas do regime iraniano.

Por outro lado, a visita reforça minha posição: o Brasil não deve ter uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. O discurso de Lula de não intervir em assuntos de outras nações pode ser bonito, mas isso não significaria ignorar questões diplomáticas em outros países. De nada adianta ficar amiguinho de Ahmadinejad se isso não significa fazer pressões reais em termos de direitos humanos. Em parte a política externa de Lula é fazer relações de amizades quase que pessoais com líderes diversos como Nicolas Sarkozy, Bush e Chávez. Por outro lado, uma política externa pujante vai bem mais que isso, inclusive considerando os incontáveis problemas que acontecem nos nossos vizinhos mais diretos.

E claro, ser membro do Conselho de Segurança da ONU significa ter que tomar posições, o que anda estranhamente ausente na diplomacia nacional. O Brasil teria a cadeira para votar “ausente” em todas as questões importantes, como cutuca o mexicano Jorge Castañeda?

Comments

17 Responses to “Lula e Ahmadinejad”

  1. Tiago Ferreira da Silva on November 24th, 2009 12:31 am

    André, ao contrário de você, acho que o Brasil deve sim ter uma cadeira na ONU justamente por ter um papel conciliador.

    Mas você disse uma verdade: as relações exteriores de Lula são baseadas em amizades pessoais. Aqui, vale citar um carinha que definiu bem esse conceito, o Sérgio Buarque: a cordialidade do brasileiro, por mais que tenha boas intenções, interfere no andamento de políticas sérias.

    E tudo acaba virando putaria.

  2. André Kenji de Sousa on November 24th, 2009 1:24 am

    O Brasil não é conciliador. Ele não consegue conciliar nem vizinhos e aliados importantes. Na verdade, Lula ignora todos os principais conflitos da região, da questão das bases na Colômbia a questão de Ingrid Betancourt. Na única vez que ele tentou se envolver mais ou menos diretamente, em Honduras, a coisa quase se transformou num desastre completo.

  3. Lady Metal on November 24th, 2009 9:50 am

    Nossa André, você conseguiu expressar exatamente o que eu sinto sobre as passeatas contra Ahmadinejad.

  4. Marola on November 24th, 2009 11:56 am

    “De nada adianta ficar amiguinho de Ahmadinejad se isso não significa fazer pressões reais em termos direitos humanos”.

    Troque Ahmadinejad por Netanyahu, e perceba a falácia do que vc está dizendo.

    Será que os conceitos de auto-determinação dos povos e não interferência em assuntos internos de outros países são difíceis de vc apreender?

    Eu pergunto que autoridade os EUA ou qualquer uma das potências ocidentais têm para ficar dando lição de moral a respeito de direitos humanos em qualquer país do globo? Eu respondo, nenhuma. Se a coisa fosse séria, Bush & Blair deveriam a essa hora estar sentados no banco dos réus em Haia sendo julgados como criminosos de guerra, o que êles efetivamente são, pois conduziram uma guerra ilegal segundo as leis internacionais que regem a convivência entre os povos.

  5. André Kenji de Sousa on November 24th, 2009 9:00 pm

    Marola

    1-) Não quero meu presidente puxando o saco pessoalmente do presidente de Israel sem citar nada sobre direitos humanos - ele não é presidente do Clube Hebraica. E sim, ele deveria desafiar sim acusações semelhantes contra os EUA, a França ou mesmo Itália.

    2-) Que direito de autoafirmação dos povos? Você bebeu? Estamos falando de uma teocracia de cunho autoritário. E ninguém fala em interferência em assuntos de outros países: ninguém está defendendo embargos ou intervenções armadas.

    E claro, Lula não é Bush.

  6. Marola on November 25th, 2009 6:38 am

    Bem, quem está puxando o saco de Israel não é exatamente o Lula, né?

    Se o governo teocrático do Irã é autoritário ou não, é problema dos iranianios, êles é que escolheram essa forma de serem governados. Não vejo o menor sentido em todo esse lecturing sobre o que deva ser bom ou não para o Irã vindo de países que óbviamente têm interesses econômicos e geopolíticos envolvidos quando se dispõem a ditar regras aos outros quanto a melhor forma de se governar.

  7. André Kenji de Sousa on November 25th, 2009 11:18 am

    Os iranianos ESCOLHERAM aquele regime? 0_0

  8. Marola on November 25th, 2009 5:37 pm

    Sim porque, tem alguma dúvida quanto a isso? Ao que me consta rolou uma revolução lá em 79.

  9. André Kenji de Sousa on November 25th, 2009 8:24 pm

    0_0

    E o que uma revolução feita TRINTA anos atrás, quando a maior parte dos iranianos não era nascida, dá legitimidade aos aiatolás?

  10. Marola on November 25th, 2009 11:39 pm

    A maior parte capaz de votar?

    A mesma que se dá aos founding fathers americanos. E já se vão mais de 200 anos.

    Kenji, eu não estou advogando a causa da teocracia iraniana, só reitero que cabe aos iranianos decidir o que é melhor para êles e rechaçar interferências externas.

  11. Euler on November 26th, 2009 2:27 pm

    Marola,

    Vc está cometendo um erro compreensível, mas superado. É o mesmo erro que a humanidade cometeu com o nazismo - e infelizmente muitos brasileiros não têm tido consciência desse problema.

    A democracia não é apenas vontade da maioria. A minoria tem que ter seus direitos preservados. O nazismo foi eleito por maioria. Foi legítimo? Não. Na época, alguns chegaram a perder a crença na democracia. Mas chegaram à conclusão de que democracia não é apenas a vontade da maioria. É preciso respeitar os direitos da minoria e ter uma sociedade civil organizada, que promova o respeito aos direitos humanos, a liberdade, o humanismo.

    O erro que vc comete é semelhante ao do governo: dialogar com um ditador estúpido para garantir a paz e buscar apoio internacional. Foi o que fizeram com Hitler, sob as mesmas justificativas (paz e autodeterminação dos povos). O resultado foi o pior que poderia ter havido.

  12. Euler on November 26th, 2009 3:15 pm

    Só pra complementar, outros argumentos usados na época:

    “Hitler é demagogo? Outros políticos são demagogos também.”

    “Hitler tem intenções imperialistas? Outros países também têm.”

    “Os aliados estão é com medo e inveja do desenvolvimento do Terceiro Reich.”

    Repare que o mesmo tipo de discussão pode ser facilmente aplicado pro Ahmadinejad, pro Edir Macedo etc.

  13. Marola on November 27th, 2009 1:27 am

    Euler, esse papo seu tá mais parecendo chororô de derrotado, sugiro que vc vá se queixar ao bispo mais próximo.

    Btw, manera no tom condescendente, só torna mais ridícula a sua peroração.

  14. Euler on November 27th, 2009 2:59 pm

    “Como vencer um debate sem precisar ter razão (Dialética Erística)”, de Schopenhauer, Estratagema 38, modo ad hominen: atacar o adversário, ao invés de usar argumentos.

    Eu pensei que vc estava levando a sério este debate… Serve pra eu aprender que quando alguém defende uma ideia muito absurda, algo está errado.

  15. Marola on November 27th, 2009 5:06 pm

    Não dá para levar a sério quando vc não faz outra coisa a não ser regurgitar, de forma canhestra diga-se de passagem, os talking points do príncipe dos sociólogos em seu último artigo. É falacioso igualar Ahmadinejad a Hitler, pois a primeira coisa que o alemão fez foi acabar com a oposição fechando o parlamento, o que me parece não ser o caso do iraniano. Vc poderia argumentar que o veto imposto pelos mullahs a determinadas candidaturas é anti-democrático e eu até concordaria, o processo democrático no Irã não é perfeito, mas o que vc me diz com relação ao que acontece em Israel e a sua nunca por demais exaltada democracia, na qual toda composição política necessária para se estabelecer um governo é refém de meia dúzia de partidecos compostos por ultra religiosos tão radicais quanto determinadas facções do clero iraniano? Também vejo imperfeição aí.

    Por outro lado, estou ainda tentando entender o porque da sua acusação de que eu estaria lhe fazendo ataques de cunho pessoal, o que, a meu ver, de maneira nenhuma é verdade. Quando qualifico a sua argumentação como chororô de derrotado estou contra argumentando, talvez de forma mais próxima a Neném Prancha do que, digamos, Schopenhauer, mas todos nós temos nossas limitações, não é mesmo? O que eu não poderia deixar passar em branco é sim, o tom condescendente usado que não acrescentou nada ao que vc tinha a dizer, a não ser presunção.

    Outra coisa que me incomoda sobremaneira, é esse execrável cacoete de poster brasileiro de. por dá lá aquela palha sacar uma citação de algum luminar do pensamento filosófico, sociológico ou o que seja, de forma a reforçar com a chancela de uma “otoridade” qualquer o argumento apresentado. Participo há pelo menos 6 anos (desde o finado Independent Argument do jornal britânico de mesmo nome), de foruns de debates internacionais e nunca vi semelhante comportamento adotado por quaisquer dos debatedores aos quais tive a oportunidade de conhecer. Esse tipo de atitude é que nem jabuticaba, só tem no Brasil.

  16. Euler on November 27th, 2009 6:55 pm

    Com toda sinceridade, acho que não entendi direito o que vc quis dizer. A maneira como eu escrevo é um misto de várias influências, desde a liguagem jurídica até, talvez, a linguagem punk. Pode ser que eu tenha que melhorar meu estilo, mas tentei ser o mais objetivo possível e expor meus argumentos, mostrando porque comparo Ahmadinejad com Hitler. Também procurei evitar chegar com xingamentos. O que vc chama de “condescendente”? Como vc esperava que eu escrevesse? O que eu não acho válido é (des)qualificar o que a pessoa diz como sendo “chororô de derrotado”. Seria como se eu é que tivesse chegado com ataques pessoais.

    Quanto a mencionar fontes, acho não só normal como recomendável. Pelo menos na área jurídica costuma ser assim. Não é suficiente para dar razão à pessoa, mas é um reforço. Cito, por exemplo, uma discussão que tive com o André Kenji. Ele já chegou a achar algumas minhas ideias parecidas com as de Pat Buchanan. Eu citei Joaquim Nabuco, que defendia as ideias que mencionei, acho que ficou mais claro o que eu quis dizer.

    Não li o último artigo do FHC. Me referi somente à política de apaziguamento dos anos 30 com Hitler. Enfim, o meu ponto é o seguinte. Os seres humanos são diferentes entre si e há diversos graus e maneiras de se violar a ética/moral. Para se casar, para ser amigo, para votar, para admitir como governante, para ser preso… O rigor na avaliação de uma pessoa depende do que se vai fazer com ela. David Lloyd George era corrupto, mas Churchill se aliou a ele pra derrotar Hitler. Como disse Lula, não tem como governar sem ter Judas como aliado. O problema é que há “Judas” em vários graus. Hitler, Ahmadinejad, Edir Macedo, Opus Dei, Pym Fortein… Todos esses passam dos limites como políticos/clero, por violarem o humanismo e os direitos humanos. Bush está incluído? Sim, claro! Os fanáticos do judaísmo? Também! Mas EUA, Israel, Brasil, Bélgica, são todos democracias e há como impedir essas pessoas de chegarem ou permanecerem no poder. No Irã não dá. Mas nem mencionei o Irã como país. Chávez jogou pesado com Bush. Por que não jogar pesado com o Ahmadinejad? Por outro lado, claro que vc pode mencionar alguns “Judas” dos quais não temos ainda como nos livrar. Bem, não há o que fazer em curto prazo com eles. Mas ninguém precisa apoiar o Ahmadinejad. É mais fácil se distanciar dele (ou da Opus Dei, ou do Edir Macedo) do que de Bush. Ainda assim, houve inúmeros protestos contra Bush.

    O grande erro que o Brasil tem cometido é dizer: “ah, ele é um pilantra, mas há outros pilantras por aí”. Ainda que o governo tenha que aceitar alguns pilantras, há pessoas com as quais não se pode ser tolerante. E isto vale pra qualquer país, credo, raça, ideologia…

  17. André Kenji de Sousa on November 27th, 2009 9:31 pm

    “É falacioso igualar Ahmadinejad a Hitler, pois a primeira coisa que o alemão fez foi acabar com a oposição fechando o parlamento, o que me parece não ser o caso do iraniano.”

    1-) O Irã não tem um parlamento eleito, e bem, mesmo a União Soviética sob Stálin tinha seu politburo.

    2-) Boa parte da oposição foi presa e trucidada desde de 1980, aliás(O que ocorreu com Shirin Ebadi esta semana é um exemplo).

    Claro, Ahmadinejad não é Hitler(ele é *patético* demais para isso), mas a conversa vai por rumos um tanto quanto estranhos.

  • "Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral. Ademais, a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente, já fala de per si, porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem, como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias."

    Ortega y Gasset

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