Crianças
Posted on November 9, 2009
Nas últimas semanas, o novelão mexicano surgido em torno de Geisy Arruda, a aluna de turismo de uma universidade particular de São Bernardo que foi atacada e quase estuprada por seus colegas porque estaria com um vestido curto demais(O que gerou as piadas fáceis na internet - de Unibambi para baixo). O caso é como sempre, bastante alegórico sobre o sistema universitário brasileiro e a própria sociedade que o abriga.
O caso está sendo narrado, numa interpretação fácil, como de uma mulher que foi atacada por uma turba por ser, bem, mulher. Balela. O pai da moça é metalúrgico, tudo indica raízes humildes. O tal vestido que causou o problema é um vestido dos mais simples, que se compra num mercado popular, não no Iguatemi ou na Oscar Freire. As cores fortes e berrantes denunciam um tipo de roupa comum no trem da CPTM, mas não num shopping. Além do mais, aposto uma caixa de bananinha que tirando esta moça as únicas Geisies que estes moleques conhecem são empregadas domésticas. Uma moça de classe média alta com um microvestido de shopping não teria sido alvo deste papelão.
O que é interessante, aliás, no caso é que os colegas da moça agem como crianças mimadas. Tentam justificar um ato injustificável - não gostavam da roupa que a moça se vestiu, e acham que ações claramente ilegais são absolutamente normais para impedir isso. Não há uma noção de regras ou instituição. Não gosto, vamos correr, ameaçando estuprar e gritando palavrões. Como a criança que bate a cabeça na parede quando contrariada. Normal, porque, bem, é a mesma lógica por trás da mais sagrada instituição universitária brasileira, o trote. É lógica da humilhação. E a pergunta óbvia: “Mas este povo não deveria estar estudando?” tem a resposta mais óbvia que nenhuma das obssessões do universitário brasileiro(Trote, choppadas, festas, etc) é relacionada com estudos.
E sim, por fim, o episódio todo reforça a grande falha do sistema particular de ensino superior. A sabedoria convencional prega a imagem de empresários inescrupulosos que enganariam seus clientes, quando na prática o problema é contrário: como toda instituição capitalista, as universidades fazem exatamente o que seus clientes desejam. O que é temeroso quando os clientes demonstram falta de maturidade. Quando o reitor da Uniban expulsou a vítima da brincadeira ele estava reforçando seu papel: atender aos desejos dos seus alunos mimados, não de liderar uma instituição de ensino(Quando ele fala em ambiente escolar parece que está falando de uma escola do primário).
Eu sempre brinquei que no ritmo que o país vivia teríamos reuniões de pais na faculdade. O reitor da Uniban resolveu dar um passo adiante, instituindo uniformes.
Comments
15 Responses to “Crianças”

Boa crítica. Apesar de, pessoalmente, eu ainda achar que tem mais alguma coisa por trás dessa história que ninguém quer contar. Embora eu ache que nada justifica o ocorrido, afinal, um erro não justifica o outro.
(Ah, só corrige o “falta de imaturidade” ali que tá doendo na vista.)
Ops. Corrigido.
“E a pergunta óbvia: ‘Mas este povo não deveria estar estudando?’ tem a resposta mais óbvia que nenhuma das obssessões do universitário brasileiro(Trote, choppadas, festas, etc) é relacionada com estudos.”
Eu não sei exatamente se atividades limitadas a períodos específicos e curtos, como os trotes e as choppadas, podem ser qualificadas de “obsessão”. Ainda que pudessem, o tempo gasto nessas atividades poderia ser duplicado e os estudantes ainda teriam tempo para cumprir jornada de estudos de estudante coreano. Assim sendo, se eles não estudam, não deve ser por causa dessas “obsessões”. Seria melhor se o texto contivesse uma lista dos países em que os estudantes são-além de dedicados- obcecados por seus estudos. Seria uma lista curtinha! Será que você ousaria chamar de “obsessões” vários aspectos da vida universitária americana- políticas partidária e estudantil, fraternidades, não menos festas que as de suas contrapartes brasileiras, “grade inflation” e alto índice de abandono sem diploma? É triste ver que um incidente-lamentável, claro!- em uma única universidade particular possa fornecer munição contra todo sistema universitário braileiro, em especial a universidade pública, gratuita e de qualidade em um momento em que ela já está sob pesado ataque do governo, tendo sua meritocracia destruída por populismos vários-das cotas ao uso do ENEM- e sendo sucateada pela ortodoxia econômica vigente.
Embora não cacorde com todo o dito, não tem como discordar do argumento central. E já ouvi vários casos de estudantes de particulares (não só de fábricas de diplomas como a Uniban, mas até das PUCs) dizerem “eu que tô pagando, como você tem coragem de me mandar estudar” ou similares.
Sua posição sobre as universidades privadas brasileiras é perfeita. Não sei se elas um dia desejaram ser instituições respeitavéis, mas hoje estão num toada impressionante,conduzidas pela fé capitalista. Os alunos não são vítimas, são co-autores do crime de lesa-educação!!!!!
Selma
Basta andar pelos arredores de qualquer cidade brasileira em fevereiro para ver universitários fazendo medicância em semaforos(O que já seria ofensivo em Paris ou em Londres, é muito mais no Brasil). Já ouvi de casos aonde medidas da universidade para coibir o consumo de maconha foram alvo de protesto por alunos, e bem, não só as faculdades formentam um bom número de barzinhos como isso pode ser checado em pleno horário de aulas.
É fato que a vida universitária nos EUA tem exageros. O Beer Pong é um exemplo, há universidades como Chico State famosas pela devassidão e há filmes pornos filmados em campus. Mas há uma vida acadêmica, com discussões e grupos políticos de todos os tipos, palestrantes de todos os tipos, jornais produzidos por alunos, etc. Aqui, isso é bem mais ralo, tirando o pessoal bastante caricato de alguns diretórios acadêmicos. E eu não citaria grade inflation aqui.
Porque o fato de que há um termo nos EUA para isso significa que se enxerga o problema. Aqui no Brasil tem muito curso de muita universidade(Inclusive pública) em que uns 80% das aulas(E da composição das notas) são gastos com seminários e outros trabalhos e ninguém está nem aí. Em termos de grade inflation já passamos da inflação galopante faz tempo, mas isso é irrelvante no Brasil.
Já a universidade pública e de qualidade é um mito: de pública, só o dinheiro, a qualidade geralmente é superestimada e claro, não é gratuita, em especial porque passar no vestibular exige boa quantidade de tempo e dinheiro.
E na boa, não fale em meritocracia na universidade brasileira. Você corre o risco de motivar risadas.
“Mas há uma vida acadêmica, com discussões e grupos políticos de todos os tipos, palestrantes de todos os tipos, jornais produzidos por alunos, etc.”
Só que essa “vida acadêmica” tem pouca ou nenhuma relação com os estudos. É o equivalente dos nossos diretórios, e o fato de ser um fenômeno mais amplo que o nosso conta contra o sistema deles, não a favor. Para efeitos práticos, eles poderiam estar perseguindo colegas assanhadinhas em vez de fazer jornalzinhos e dabates políticos: nada se perderia no que se refere a aprendizado.
No que se refere ao acesso à universidade, o modelo antigo-antes da universidade pública virar uma filial do Bolsa Família- era marcadamente meritocrático: os alunos eram distribuídos pelas universidades e cursos de acordo com o seu aprendizado das matérias do Ensino Médio. Teria sido muito melhor aumentar o grau de maritocracia da universidade brasileira em vez de arrancar seus últimos, mesmo que insatisfatórios, res-quícios.
Selma
1-) Não seja tacanha. Como que caucuses políticos não tem relação com estudos? Em especial considerando a popularidade de cursos de Ciências Pòlíticas em campi de Humanas.
2-) A meritocracia é tão forte no Brasil que é muito comum ver professores que fizeram a graduação, mestrado e doutorado na mesma universidade que trabalham(E muitos só trabalharam em outras universidades como professores convidados). E o vestibular não é meritocrático.
Ela é uma prova elitista - quem trabalha e estuda em escolas públicas tem chances reduzidas de ser aprovado - e avalia decoreba. Tanto que não raro pessoas passam em uma prova de uma universidade com distinção são reprovados em outras provas.
Não que seu discurso não seja elitista, na pior acepção do termo.
Concordo com tudo q vc disse, André.
Estudei Medicina em uma conceituada Universidade Pública, e aqui, tbm parece que a maior preocupação dos alunos é mesmo com organização de choppadas, “lavagens” e congressos estudantis q na verdade são desculpa para a promiscuidade e uso de drogas.
Claro que há exceções, como tudo na vida, mas uma coisa típica do universitário brasileiro, seja de faculdade pública ou privada, é o desinteresse pelos estudos e a falta de responsabilidade. Pq será q o Brasil sempre fica em posições vergonhosas em rankings de educação?
E pobreza não é desculpa. Veja a Índia - posso falar de carteirinha pq já morei lá e sou casada com indiano. Eles dão muita valor a educação, e o universitário lá realmente ESTUDA, não tá preocupado com festas e sexo. Tenho amigos dalits que chegaram ao MBA.
Aqui no Brasil impera a cultura de querer as coisas de mão beijada e sem esforço.Pagar uma faculdade chulé qualquer só pra ter um diploma. Fraudar ENEM, vestibular, concurso público. E quem realmente leva os estudos e a carreira a sério, ainda é tachado de “anti-social”, “CDF”, “bitolado” etc.
Ai, ai, orgulho e preconceito.
Mais dados seriam interessantes: quão frequentes são congressos, chopadas e “lavagens”? Quão frequentados eles são? Quanto tempo eles duram (para não falar nos trotes e “mendicância”, que ocupam uma pequena parte do ano). Os alunos provavelmente gastam em outras atividades de lazer e não-relacionadas em nada com a universidade e seus colegas-de namoro a Isaac Asimov, passando pelo futebol- mais tempo do que gastam nessas atividades que parecem ser a obsessão dos críticos do nosso sistema universitário. Já que estamos falando de exceções-como os maravilhosos indianos, que chegam ao MBA sem passar pela alfabetização-conheci pelo menos um rapaz que perdeu o ano na faculdade por ficar lendo livros de História na biblioteca em vez de estudar Cálculo e Meãnica. Reparem, aliás, que em qualquer sistema-por mais triste que isso seja- boa parte das pessoas fará o mínimo possível para alcançar os resultados desejados; nas universidades públicas, que não dependem do dinheiro dos alunos, o nível de exigência poderia ser facilmente aumentado se as autoridades universitárias assim desejassem. Também é difícil de acreditar que a nossa “juventude transviada” gaste tanto tempo em sexo e drogas a ponto de ser esse o grande nó górdio do nosso sistema uiversitário. Por que será que certas pessoas não aplicam à vida acadêmica americana-com seus milhares de clubes dedicados aos assuntos mais disparatados desde política partidária à animação japonesa o mesmo preconceito e a mesma má-vontade que nutrem pelo sistema brasileiro? Agora, já ficamos sabendo que politicagem é cultura, daí a justificação dos caucuses.
“Tenho amigos dalits que chegaram ao MBA.”
Seria interessante descobrir como eles chegaram ao MBA sem passar pela alfabetização: a taxa da alfabetização da Índia é bem menor que a nossa, a feminina é pateticamente menor que a nossa. Mas claro: para quê alfabetizar se podemos logo dar um curso superior? Agora que estão acabando com o vestibular, sob os aplausos dos iluminados de sempre, talvez regridamos ao modelo indiano.
“Pagar uma faculdade chulé qualquer só pra ter um diploma. Fraudar ENEM, vestibular, concurso público. E quem realmente leva os estudos e a carreira a sério, ainda é tachado de ‘anti-social’, ‘CDF’, ‘bitolado’ etc”
Embora se possa discutir a ética de trabalho (ou falta de) do estudante brasileiro, é bom lembrar-você provavelmente já sabe, Sheila- que as vagas nas universidades públicas, especialmente nos cursos mais conceituados, na verdade, são razoavelmente concorridas e são a primeira opção de quase todo mundo. Aos que não conseguem essas vagas gratuitas- qualquer que seja a razão- resta pagar uma faculdade, às vezes, até com ajuda do Estado. Aos que não conseguem admissão em outro tipo de faculdade, restam as faculdades “chulés”, instituições que existem em quase todo o Mundo, cabendo às autoridades constituídas o restringir suas atividades. Falando em Índia, embora suas faculdades de elite sejam realmente muito boas- e fechadas à maior parte da população explorada do país-o sistema universitário de modo geral é fraco, não muito diferente das nossas “faculdades chulés”. Como poderia ser diferente em um país de analfabetos? Enfim, é incrível como o fracasso de certos modelos sobe à cabeça de certas pessoas.
Quanto a fraudes, não consta nem que a maioria-ou mesmo uma minoria significativa- tenha intenções de fraudar vestibulares e concursos ou a capacidade para fazê-lo, e nem que os cidadãos de outros países sejam imunes a essas tentações. Por isso, no mundo inteiro, é costume tomar precauções para evitar fraudes. Aplicar, sem provas, a pecha de fraudadores de provas a todos os brasileiros é só mais um jeito do recalcado culpar os outros pelos seus próprios problemas e fracassos. Não importa o quanto queiram destruir a universidade pública, de qualidade e gratuita, nunca conseguirão!
“Seria interessante descobrir como eles chegaram ao MBA sem passar pela alfabetização: a taxa da alfabetização da Índia é bem menor que a nossa, a feminina é pateticamente menor que a nossa.”
Na verdade, os números no Brasil são inflados porque as políticas públicas sempre se centraram em alfabetizar a maior proporção da população. Por outro lado, a maioria destes alfabetizados não tem condições de cumprir as mínimas exigências de um curso superior, como ler um texto de jornal ou assistir um filme legendado. Os famosos analfabetos funcionais.
E ninguém está dizendo que o sistema de ensino indiano seja melhor que o brasileiro: está dizendo que os *estudantes* o são. É por isso que a Índia exporta programadores a dar com o rodo, é por isso que a lista de vencedores do Spelling Bee gringo anda parecendo a lista telefônica de Mumbai.
Embora o sistema universitário público no Brasil seja superestimado para dedéu. A USP precisa de um ranking que aceita empates para ficar entre as cem melhores do mundo, normalmente fica entre as duzentas. E ela é privilegiada por ter mais ou menos o dobro ou triplo de alunos que uma universidade média americana ou européia. Estaria ainda pior se tivesse o mesmo tamanho que a Universidade do Colorado.
Eu eu não conheço nenhum país industrializado com as proporções com um sistema parecido com o brasileiro. Na maioria dos industrializados as públicas recebem a maior parte dos alunos. A University of Phoenix, que seria a versão da Anhanguera Educacional, trabalha com o nicho de estudantes mais velhos e com menos tempo.
E ninguém disse que todo estudante brasileiro fraude provas. Embora sim, muitos fraudem com muita naturalidade listas de chamada.
Se os estudantes brasileiros se contentam com “faculdades chulés” e os estudantes indianos não, por definição, o sistema universitário indiano deveria ser melhor que o brasileiro. Do mesmo jeito, não faz sentido apontar fraudes no ENEM-que só aconteceu porque o governo resolveu transformar o Brasil em uma Índia da vida e enfraquecer o vestibular- e em concursos públicos como produtos do modo de pensar brasieliro se elas são incomuns e simples exceções. O ônus da prova é de quem diz achar que os brasileiros somos fraudadores de provas.
“Ela é uma prova elitista - quem trabalha e estuda em escolas públicas tem chances reduzidas de ser aprovado - e avalia decoreba.”
Quem foi mesmo que escreveu que viu a prova do Saresp e concluiu que os estudantes da rede pública estadual não seriam capazes de resolvê-la a contento? Tendo em vista o desastre do nosso sistema público- bem menos desastroso que o da Índia, mas ainda assim desastroso-, se os estudantes da rede pública não estivessem em desvantagem no vestibular, este não seria um bom instrumento de seleção. Culpar o elitismo do vestibular pelo fracasso do ensino público é como culpar o coveiro pela mortalidade infantil.
Selma
1-) Quem ainda não apresentou provas sobre o que diz sobre um país em que um quartoda população fala mais de uma língua e com indicadores educacionais geralmente melhores que o brasileiro é você.
2-) Saresp é uma coisa, vestibular outra. E ninguém está culpando especificamente o vestibular pelos resultados educacionais desastrosos. O vestibular motiva um desperdicio criminoso de recursos, mas não é culpado.
E não seja tolinha. Se o vestibular fosse um caçapalavras alunos de classe media alta teriam melhores resultados de qualquer forma. Vida universitária não se resume a isso(Por isso mesmo que nos EUA alunos de origens pobres ganhem pontos frente a alunos de classe alta com notas melhores no SAT, por isso que universidades exaltam pontos como atividades esportivas e extracurriculares), e talvez esse seja o grande problema do vestibular: cursos que deveriam ter uma espécie de elite intelectual e articulada contam com gente tacanha que tem como grande habilidade conseguir armazenar bastante informação.
E você talvez seja o melhor exemplo disso, devido a quantidade de lugares comuns que exibe aqui.
Já que falaram aí na Índia: Kenji, já ouviu falar em um filme chamado “Two Million Minutes”? Foi produzido por um empresário americano que afirma que os estudantes chineses e indianos-pelo menos os que estão recebendo educação- alcançam padrões de desempenho melhores que os americanos. O site do filme até fornece um mini-teste, inspirado nos exames indianos. Parece interessante.
André, tomei a liberdade de transcrever um parágrafo deste post no meu blog além de linká-lo.Espero q não se aborreça =)
Sua análise extremamente lúcida do caso Uniban merece ser lida!
Obrigada.