A fraqueza de Obama
Posted on February 27, 2008
Quando escrevi sobre as vulnerabilidades de John McCain, o Hermenauta comentou que eu estava sendo parcial por não citar as de McCain. O ponto não é este. McCain tem vários problemas. O primeiro é que ele foi um dos únicos dois senadores(O outro era John Glenn, um popular democrata de Ohio) a sobreviver ao escândalo do Keating Five, em que um cinco senadores usaram de sua autoridade para proteger um contribuinte de campanha sob investigação federal.
McCain também utilizou-se em 2000, publicamente, do termo gook, um termo extremamente pejorativo para asiáticos, como kike é para judeus e nigger para negros. Cindy McCain também seria viciada em remédios analgésicos, tendo inclusive roubado remédios controlados de uma organização de caridade. Várias das coisas que fazem de McCain atraente a muitos republicanos seriam perigosas numa eleição geral. Por exemplo, a oposição de McCain à Amtrak.
A Amtrak é um estatal de transporte de passageiros brutalmente ineficiente, mas por outro lado sem ela não haveria transporte de passageiros por trem na maior parte do país. Por exemplo, isso que permite o acesso a muitos lugares em Montana. Uma campanha negativa com isso poderia afetar a popularidade de McCain tanto com idosos quanto com ambientalistas. E claro, McCain, que teria acesso ao maior arsenal nuclear do planeta é conhecido pelo temperamento forte. Pode-se alegar que McCain aguentou protestos do Code Pink, uma organização anti-guerra raivosa, no seu gabinete, mas os acessos de raiva do senador no passado viraram lenda em Washington(E tudo indica que McCain estaria se esforçando para conter estes ataques).
Mas há um problema nisso tudo. Um dos melhores empregos politicamente nos EUA é ser um senador conservador por um estado bastante muito conservador ou ser um senador liberal por um estado muito liberal. Por exemplo, um senador republicano em Idaho ou no Alabama ou um senador democrata em Rhode Island ou em Massachusetts tem tantas chances quanto um funcionário público brasileiro de perder o emprego. Tirando algum escândalo ou alguma medida impopular entre sua base que atraia um oponente bem financiado(O que ocorreu com o republicano Chuck Hagel, de Nebraska, que se tornou um virulento oponente de Bush no Iraque) o sujeito pode passar anos sem fazer grandes coisas e ser eleito de forma sucessiva.
Por outro lado, políticos destes estados não estão acostumados a uma eleição dura, que é o que uma eleição presidencial invariavelmente é. Não são políticos acostumados a responder propaganda negativa, nem a atacar oponentes ou ainda a trabalhar com grupos diversos de eleitorado. E bem, a experiência politica de Obama se restringe a representar no Senado de Illinois um distrito bastante liberal de Cook County, um dos rincões democratas mais ferrenhos dos EUA, e uma eleição das mais fáceis para o Senado por um estado fortemente democrata.
E aí que a comparação com Dukakis surge efeito. Os partidários de Obama ficam fulos com a comparação dizendo que Dukakis era sem sal enquanto Obama é extremamente carismático. Mas há um detalhe: o grande fator da derrota de Dukakis(Que tinha uma vantagem BEM maior que Obama nas pesquisas nesta altura do campeonato) não foi falta de carisma. Foi a inépcia da campanha de Dukakis em responder aos ataques da campanha de Bush que definiu sua derrota.
E é nesse ponto que Obama assustadoramente lembra Dukakis, um governador de um estado liberal que nunca tinha enfrentado uma eleição de verdade. A resposta de Obama aos ataques de McCain e Hillary Clinton têm sido assustadoramente ineficiente. E é nessa vulnerabilidade de Obama à propaganda negativa que eu vejo o possível desmoronamento de sua campanha. E por mais que McCain tenha pontos fracos, duvido que Obama consiga utilizá-los.
Aliás, o próprio fato de muitos democratas acharem que a eleição já está ganha já demostra bem que a coisa vai ser bem mais dura que parece.
Comments
7 Responses to “A fraqueza de Obama”

É um bom argumento, André, mas faltaria lidar com duas coisas:
a) Saber se a vida pregressa de Obama foi tão facinha.
b) Saber se o fato de McCain ser o terceiro senador mais longevo do Arizona (até agora) não significa que também ele pode ser “acusado” de levar uma vida fácil em seu estado.
Hermenauta
a-) Mas não falo de vida pregressa, falo de vida eleitoral. E pior, Obama demonstra falta de experiência.
b-) Mas McCain sobreviveu ao escândalo do Keating Five, e o Arizona é um estado que Clinton venceu em 1996, além de ter uma governadora democrata insuportavelmente popular.
McCain não teria sobrevivido tanto tempo se não se esforçasse, como, por exemplo, os senadores de Idaho desde de Frank Chuch fazem…
Ei, mas péra lá. A capacidade de um candidato sair-se bem em debates e refregas eleitorais não depende apenas de seu currículo eleitoral formal. Lula é a prova viva disso: foi forjado dentro do ambiente sindical _ que não é bolinho.
Quanto ao Keating Five, teríamos que ver as taxas de rejeição que McCain experimentou no episódio no Arizona, já que o escândalo em si teve dimensão nacional. Vide Maluf, o cara odiado pelo Brasil todo e amado por São Paulo.
Hermenauta
1-) Lula perdeu três eleições gerais, em grande parte pela propaganda negativa e pela dificuldade de falar para um público além do tipico público de sindicato.
2-) Por uma série de fatores, como um público mais politizado e fortes diferenças regionais é dificil comparar uma eleição feita no Brasil com uma feita nos EUA.
O ponto aqui não é debate(Coisa que pouca gente vê) ou refregas, mas sim em rebater acusações pesadas que acabam respingando na mídia e coisas mais pesadas vindas de partidários. Na verdade, coordenar toda uma campanha política.
3-) Maluf tem um público cativo em São Paulo, mas também forte rejeição. Por isso que só foi eleito três vezes: duas vezes deputado federal e uma vez prefeito.
E acho que o caso Maluf reflete uma visão moralista que se tem aqui no Brasil: acho que mais que corrupção o problema de Maluf é sua visão administrativa.
4-) O Keating Five foi mais de vinte anos atrás. Por outro lado, Tony Rezko está vivinho da silva. ;-) Acho que McCain perderia mais votos por causa da Amtrak que disso.
5-) E sim, acima de tudo, a resposta de Obama à propaganda negativa têm sido MUITO ruim. Ponto que ele lembra tanto Kerry quanto Dukakis.
“um público mais politizado e fortes diferenças regionais”
André, desculpe ser chato, mas qual o país que vc se refere? Os americanos me parecem meio alienados, nacionalistas, acreditam nos grandes políticos e parecem ter uma cultura mais homogênea que o Brasil, que tem desde a caatinga do forró e da seca até o sul loiro e cheio de chocolates e vinhos, além da floresta com uma cultura cabocla. Por outro lado, os brasileiros têm escolas bem mais fracas e uma federação mais suave. As pessoas com formação universitária também parecem ter mais influência por aqui, mas posso estar errado. Não entendi mesmo a sua colocação, por mais que te pareça óbvia.
Euler
1-) O jornal mais lido do Brasil, a Folha de São Paulo, teria uma tiragem de uns 440 mil exemplares, num número que parece inflado, considerando a edição dominical. Isso o colocaria abaixo dos vinte jornais mais lidos dos EUA, competindo com jornais regionais de cidades do interior como Kansas City Star e Seattle Post-Intelligencer.
2-) As universidades deles são bem melhores, a porcentagem de jovens graduados é maior também.
3-) Lá as tiragens e as ofertas de livros são bem maiores.
4-) A qualidade do debate público e de tudo que é publicado também. Eles tem George Will, a gente tem Reinaldo Azevedo. Eles tem a Mother Jones, The Nation, National Review e etc, a gente tem malemal a Carta Capital e precisa do patrocínio da Petrobrás para ter uma versão local do Le Monde Diplomatique.
André,
Sem querer estender demais essa discussão, acho que esses critérios que vc utilizou são mais relacionados às condições econômicas do país, exceto o item 4 em parte.
Concordo que eles são mais amadurecidos institucionalmente, mas os brasileiros parecem ter uma visão mais crítica dos políticos. O grau de participação da intelectualidade na política também parecia ser forte aqui, ao menos durante o regime militar (como oposição geralmente). Mas eu não conheço direito a realidade americana, daí a minha pergunta.