Estados Unidos

Racismo em palavras, racismo em idéias

Posted on April 14, 2007

Daniel Bender se pergunta se Don Imus, o radialista demitido por causa de comentários considerados ofensivos a um time de basquete universitário seria de fato racista. Meu ponto de vista: Imus já disse coisas bem pesadas(Como quando ele comparou Gwen Ifill, uma jornalista negra, com uma faxineira) . Mas não acho que ele tenha sido racista especificamente no caso desse comentário(Até por quê Imus apoiou com muita força Harold Ford Jr, que tem ascendência negra, na eleição para o Senado pelo Tennessee ano passado). Na verdade, todo esse trololó todo representa bem a tendência americana de se preocupar não com o racismo expressado em idéias, mas com termos que possam ser considerados ofensivos.

Imus causou comoção por quê ele utilizou o termo “nappy-headed hos”. Nappy é uma gíria para se referir a cabelo pixaim curto. Zine Magubane, no esquerdista Common Dreams diz que “nappy” é um termo bastante ofensivo por quê “ o cabelo das mulheres negras sempre foi utilizado como um marcado visível da marginalização política e social”. Magubane explica que como com a miscigenação muitas negras tinham pele branca, o cabelo pixaim e curto poderia significar a liberdade no Norte ou seu aprisionamento para serem enviadas aos seus mestres no Sul. O problema é que essa palavra faz parte do vocabulário de muitos negros: Stevie Wonder, por exemplo, tem uma música com o termo, e não é difícil achar nomes de bandas com esse termos.

Já “ho” é uma contração do termo “whore”, um termo vulgar para prostituta bastante usado por rappers. Coloque “ho” e o nome de vários rappers e você achar um monte de letras de músicas. É um termo meio como o famoso “nigger”: por mais que um negros usem a palavra no seu cotidiano, um branco que use a palavra em público corre o risco de entrar em briga com a comunidade negra inteira.(O curioso é que muitos americanos, pelo que eu tive contato via e-mail não sabiam o significado dessas palavras até essa polêmica estourar).

Minha opinião com relação ao caso é semelhante ao àquele em que Ann Coulter foi cruxificada por ter se referido ao candidato à candidato John Edwards como “faggot”. Ann Coulter tem uma lista enorme de barbaridades, que vão ao fato dela ter chamado as viúvas das vítimas do World Trade Center de abutres, aquele o famoso “We should invade their countries, kill their leaders and convert them to Christianity” e claro, quando ele propôs que alguém matasse John Paul Stevens, decano da ala liberal da Suprema Corte, o que eu acho que foi talvez seu ponto mais baixo. Stevens não é apenas um juiz da Suprema Corte, mas também na época os republicanos tinham uma maioria larga no Senado e a Presidência. E claro, Stevens era o grande ponto de equilíbrio entre as alas liberais e conservadoras da corte. Ou seja, na prática o que Coulter propunha era algo próximo de um golpe de estado. Mas ela só foi realmente entrar em fogo cruzado ao usar o termo “faggot” em público.

O problema é que eu acho que racismo existe em idéias e ações, não em palavras. Don Imus está sendo linchado não por suas idéias ou ações, mas por suas palavras, o que eu acho contrasenso. Por exemplo, por mais que boa parte do discurso anti-imigração se prenda a defender um Estados Unidos “europeu”, isso nunca causou tanto escândalo como uma única palavra.

P.s: Isso sem contar que, sinto muito; se Al Sharpton(Do caso Tawana Brawley, Memim Pinguim e similares) diz que alguma coisa é racista, eu tenho quase certeza que não é.

Comments

One Response to “Racismo em palavras, racismo em idéias”

  1. Dissidência » O fator Rush on December 10th, 2007 11:47 am

    […] Também ouvi o programa do Don Imus. Quando o escândalo do “napped headed hos” estourou e vi várias colunas de jornal defendendo o direito de expressão do radialista, mas atacando a qualidade do programa. O programa parece ser uma versão dos programas de humor de rádio(Daqueles que sacaneiam os ouvintes) com talk show político. […]

  • "Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral. Ademais, a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente, já fala de per si, porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem, como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias."

    Ortega y Gasset

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