Lula está em parte certo sobre a Colômbia e a Venezuela

Uma velha piada, um tanto quanto batida, dizia que a única utilidade do Exército em país Latinoamericano é a de dar porrada na população. Não é o caso do Exército Colombiano atual, que conta com vários batalhões de elite (Ao ponto do país enviar comandos ao Afeganistão) e que demonstrou disciplina e poder de fogo no combate às FARC. Aliás, para se ter uma ideia, em número de soldados, numa estimativa grosseira, a Colômbia tem quase que três vezes mais soldados que a Venezuela. Os colombianos poderiam tranquilamente lavar o chão com a Venezuela num combate direto , e em caso de uma eventual declaração de guerra você teria soldados colombianos marchando por Caracas em questão de dias, sem envolvimento de Washington. E Chávez SABE disso, o que explica suas recentes compras de armamentos e suas bravatas.

É um ponto corretíssimo criticar a política externa brasileira, que se mete aonde não deveria e ignora problemas reais. Por outro lado, a histeria da imprensa brasileira no tocante às declarações de Lula sobre o episódio não se justificam, porque por mais atrapalhadas que elas possam parecer elas tem um fundo de verdade. Chávez faz jogo psicológico com a Colômbia porque não teria chance num confronto militar direto.

O fator Russomanno

Durante o período em que Serra foi governador, adotou-se uma postura de uma certa forma oposta no tocante a segurança pública de Alckmin. Havia uma presença menos ostensiva da rua, e ao invés do governo ostentar os mortos pela Polícia Militar na TV tentava punir de forma rigorosa os policiais tanto envolvidos como nem tanto envolvidos em casos famosos de mortes(Embora que esquadrões da morte tenham perdurado). Isso enquanto os números na área de segurança sofriam bastante. Ou seja, abriu-se um flanco gigante à direita de Serra que tornava tanto ele quanto Serra bastante vulneráveis. Mercadante poderia atacar apartir deste setor se tivesse o Deputado Estadual Major Olímpio de vice. Sem esta opção, o trabalho fica mais dificil.

 

Por outro lado, a entrada do Deputado Celso Russomanno tem o potencial de mudar completamente o jogo. Não só porque ao contrário de Mercadante ele pode atacar com bastante facilidade Alckmin pela direita como numa sequência de elitistas completamente bocejantes oriundos da capital Russomano é um autêntico populista de cunho conservador, como cai no gosto paulista como uma luva. No verdadeiro pesadelo que se transformou a campanha de José Serra ele correria o risco de ver um Geraldo Alckmin encurralado por todos os lados, e fugindo da única forma possível: competindo contra a atual administração do estado.

O que nem todo mundo sabe sobre o vazamento do WikiLeaks

Ao contrário de que certos espertinhos estão dizendo, não é tudo que está nos documentos vazados pelo WikiLeaks é coisa que todo mundo saberia:

As vulnerabilidades de segurança da Inteligência Americana: Se o que parece ser um analista de inteligência de vinte e dois anos consegue vazar dezenas de milhares de páginas de dados você tem um sistema vulnerável. E bastante.(Embora, segundo Adam Weinstein, na Mother Jones, esse tipo de relatório seria coisa trivial no Iraque e Afeganistão).

A disponibilidade de misseis Stinger na mão dos insurgentes: Um dos fatores que definiu a derrota dos soviéticos nos anos oitenta foi o uso desses mísseis que funcionam por detecção de calor, presente de Ronald Reagan aos grupos que formariam o Taliban. Esta seria uma vantagem estratégica e tanto para os insurgentes, já que no Afeganistão você é dependente de dois modais de transportes: helicópteros e comboios em estradas precárias (Facilmente alvo de explosivos).

Esse tipo de arma na mãos dos talibans é uma vulnerabilidade e tanto para os americanos, como apontou a correspondente de guerra Lara Logan na CBS ontem. Sejam estes mísseis restos dos anos 80, sejam estes fornecidos pelos iranianos.

O suposto apoio dos iranianos aos insurgentes: Os xiitas iranianos nunca se deram bem com os sunitas pashtuns do país vizinho, quase iniciando uma guerra em 1998. E há uma certa vontade entre círculos militares e de inteligência dos EUA com relação ao Irã(Que não perdoam pelos fatos de 1979-1981). Além do mais, qualquer armamento iraniano fornecido aos insurgentes afegãos poderia ser usado contra os iranianos.

Por outro lado, a negativa de Ahmadinejad em entrevista ao CBS Evening News de ontem soou pouco convincente: a de que os iranianos apoiariam não o Taliban, mas o povo afegão. Sei.

O WikiLeaks em si: O suspeito do vazamento, Bradley Manning, só foi capturado por causa de uma conversa por chat que ele teve com um hacker na Califórnia. Se qualquer pessoa com acesso a determinada informação pode publicá-la anonimamente e sem medo de retaliação, qualquer organização de segurança tem um problema e tanto em mãos.

Claro, o grande problema de todo o caso é justamente o que todo mundo sabe: os americanos estão perdendo no Afeganistão. As baixas nas últimas semanas giram no entorno de dezessseis mortes por semana, e como Patrick Buchanan apontou na MSNBC os mais de cento e cinquenta mil soldados da OTAN no máximo conseguem um empate com o Taliban. Sem esses soldados, Kabul seria tomada pelo Taliban em instantes. Assim como no caso dos documentos do Pentágono que vazaram em 1971, os documentos confirmam algumas das piores suspeitas sobre a guerra: um Paquistão (armado com mísseis e armas nucleares) que não é bem um aliado, pontos em que se mostra claramente a falta de efetivos.

E sim, o ponto mais importante? Se você gosta de acompanhar o noticiário internacional e não sabe uma segunda língua, você precisa urgente aprender. Depender da imprensa nacional para isso definitivamente não dá.

Wikileaks, o vazamento e o casamento esquisito

Durante a Guerra Fria, os americanos tinham no Paquistão como seu principal aliado na região do Oceano Indico, com uma Índia bastante indefinida, tendo tentado liderar um bloco de países nãoaliados. Nunca foi um casamento particularmente doce, mas funcionou. Ao menos funcionou até que a Índia se industrializasse e fosse transformada numa das mais importantes economias do planeta e aliada natural dos Estados Unidos. O casamento ficou bastante esquisito porque os paquistaneses nunca deixaram de ver a Índia como sua principal inimiga, e ficaria ainda mais esquisito depois da ascensão do Taleban, um grupo inicialmente patrocinado pelos paquistaneses. Seria com a invasão americana do Afeganistão(Possível apenas por causa da conivência dos mesmos paquistaneses) que a coisa ficaria ainda mais esquisita.

A coisa ficaria esquisita porque os membros da Al-Qaeda e do Taleban, depois da invasão do Afeganistão passariam a andar entre as fronteiras dos dois países. Os americanos não poderiam invadir o Paquistão, então passaram a adotar uma solução pior ainda: planadores militares (Pilotados por controle remoto desde de Nevada, vale lembrar, pela CIA, não pelo Exército) que logo se mostrariam bastante brutais no tocante à baixas civis. Logo, num país com armas nucleares (E mísseis de longo alcance) os americanos logo se mostrariam impopulares como a odiada Índia(Os americanos despejariam bilhões em ajuda ao país como modesto calaboca).

Os documentos que o pessoal do WikiLeaks, junto com os jornais The Guardian e The New York Times e a Der Spiegel, ajudaram a vazar, demonstra um cenário deprimente, confirmando o que todo mundo sabia: do apoio velado do Serviço Secreto paquistanês ao Taleban, inclusive fornecendo material para atentados, uma relativa frieza com relação à mortes de civis, planadores militares que perdem o link com satélite e se mostram descontrolados(!), de que o Taliban contaria com mísseis de detecção por calor, o que deixaria helicópteros particularmente vulneráveis(O pior: estes mísseis seriam sobra de material distribuído pela CIA durante a invasão soviética nos anos 80).

O momento é de estrelato não só para o pessoal do Wikileaks como para esses órgãos de imprensa antiquados, os jornais.

O que fazer com os desempregados dos EUA?

Países da América Latina e da Europa Ocidental sempre se sentiram razoavelmente confortáveis com taxas de desemprego caminhando pela faixa dos dois dígitos porque esses países contaram tanto com uma rede de proteção social bastante boa quanto com índices de poupança interna maiores(Certo, em muitos casos na América Latina era simplesmente porque se tinha desemprego e não se sabia o que se fazer com ele). Não é o caso dos Estados Unidos, que sempre contaram com uma estrutura social relativamente pálida e índices baixos de poupança interna, ao menos recentemente. Perder o emprego é o suficiente para jogar uma família de classe média para um trailer, como as TVs exbiram

O país se vê com seu novo dilema, com uma taxa de desemprego perto dos dois dígitos, sem sinal de melhora. Isto fica claro a cada punhado de semanas, quando o prazo do SeguroDesemprego de um punhado de pessoas se esgota e o Congresso se reúne para votar para estender os benefícios. Republicanos tentam posar de caridosos com o déficit, e defendem que os democratas achem alguma coisa provisionada para pagar a conta. Os democratas, claro, aproveitam a ocasião para pintar os republicanos como monstros sem coração.

No entanto, economistas reclamam que o SeguroDesemprego serve de contraincentivo para que as pessoas procurem emprego e não faltam casos de pessoas desempregadas há mais de dois anos. E isto não é por falta de opção. O que fazer? Pagar indefinidamente o SeguroDesemprego? Os Estados Unidos se vêem no terrível dilema sobre o que fazer com seus desempregados.

O Judiciário definindo quem pode ou não pode ser candidato

A Lei da Ficha Limpa foi ostentada pelos mesmos suspeitos de sempre como a grande redenção da política brasileira. No entanto, há um pequeno probleminha: quem exatamente define qual político tem a ficha limpa? Os americanos permitiram que a Suprema Corte decidisse uma eleição presidencial, mas os brasileiros desenvolveram um sistema eleitoral intricado, em que toda hora o Poder Judiciário – um dos três poderes – é convocado a decidir questões triviais, como se determinado artigo é propaganda eleitoral irregular ou se determinado político que mudou de partido deve perder o mandato por infidelidade partidária. Repetindo: o poder Judiciário, que tem interferência reduzida por meio políticos – a indicação ao STF é exatamente o único controle político que o Judiciário recebe – na prática interfere e decide os eleitos pelos outros dois poderes. A Ficha Limpa só piora o processo, com promotores e juízes decidindo sobre quem pode ou não pode ser candidato.

Claro, há o pequeno problema de que processos judiciais podem ser usados para fins políticos. A grande polêmica sobre os procuradores federais durante a Administração Bush foi justamente sobre o uso do Departamento de Justiça para coibir oponentes políticos (Don Spiegelman, o exgovernador democrata do Alabama foi preso num processo para lá de irregular movido pelo Departamento de Justiça, uma funcionária estadual no Wisconsin foi condenada e depois libertada num processo que mesmo Frank Easterbrook, um juiz federal bastante conservador nomeado por Reagan considerou uma fraude). Mesmo sobre o que talvez seja o político americano mais famoso a acabar na cadeia, James Traficant, também sempre restaram as mesmas suspeitas(Embora os grandes defensores de Traficant fossem gente tão esquisita quanto seu famoso penteado).

Até agora, os tribunais impugnaram centenas de candidatos pela Ficha Limpa, e para se ter uma ideia da coisa, em Alagoas TODOS os candidatos ao governo do estado tiveram sua impugnação pedida pelos procuradores. Eu não gosto do Collor nem do Ronaldo Lessa, mas esta não é uma decisão que deve ser feita pelo Judiciário. De qualquer forma, no bizarro sistema eleitoral brasileiro colocar ainda mais poder do Judiciário sobre a eleição do outros dois poderes não é nenhum progresso, além de ser brutalmente antidemocrática, num processo que não pode ter fim. Imaginem o Judiciário impugnando um candidato popular a presidência ou ao governo de um estado grande, por exemplo.

Vontade popular? Para quê?

O blogueiro Leonardo Sakamoto nos brinda com a verdadeira pérola num longo diatribe reclamando que os candidatos à presidência não defenderem assuntos como casamento gay, acesso ao aborto, eutanásia, entre outras coisas :

 ”Parece que, para ser candidato nesta eleição, é necessário se despir de
qualquer opinião própria e desistir de ser si mesmo para seguir um
gabarito a fim de que a maioria dos eleitores se reconheça nele e dê seu
voto. Mas é isso o que se espera de um bom candidato, que seja alguém à
minha imagem e semelhança e não uma liderança política que possa
governar o país? Devo dar meu voto a alguém que pense exatamente como eu
ou que possa levar o país a um novo patamar de civilidade e de
qualidade de vida para todos? O que é democracia? Um governo totalitário
da maioria ou um governo da maioria em que as minorias são respeitadas?

 Hmmm. Na verdade, isso é mais complicado que parece. Um candidato que mude de opinião sobre um assunto como as pesquisas de opinião dizem vai ser tachado de inconstante ou sem princípios(Ou ainda flip flopper, como os americanos dizem), o que efetivamente custou a Casa Branca para muitos candidatos. Por outro lado, o princípio básico de uma eleição é justamente que os eleitores querem, tchadã, candidatos que sigam plataformas que lhe agradem. A não ser que o Sakamoto esteja falando nas eleições egípcias ou do Iraque de Saddam Hussein. Por todo mundo é justamente isso que os candidatos que vencem as eleições fazem(Imagem e semelhança é bobagem, uma vez que a biografia dos dois principais candidatos são distantes demais da média da população).

Sim, há um regime que coloca a “liderança” acima da vontade popular. Ele se chama fascismo. Pode-se defender o casamento gay dentro dos princípios de igualdade, por outro lado alegar que dentro de um sistema eleitoral a vontade da população deva ser rejeitada é um tanto quanto absurdo. E sim, alegar que dentro do sistema legal brasileiro os homosexuais sejam “oprimidos pela maioria” é pegar pesado(Uma das razões pela quala bandeira do casamento gay é bem menos popular no Brasil que nos EUA é que muitos dos direitos do casamento são estendidos aos gays de uma forma ou outra).

 E de uma certa forma é irrelevante  se o presidente defende direitos como o do aborto(não que ninguém que defendesse abertamente o aborto tivesse grandes chances de ser eleito) ou do casamento gay porque isso teria que passar pelo Congresso, e ao contrário da Argentina, não é possível se valer da máquina partidária e de pura pressão para forçar o Congresso a aprovar medidas fortemente impopulares.

O referendo do desarmamento e as eleições

Um raro momento em que o brasileiro saiu da sua já tradicional apatia por política foi em 2005, durante o referendo sobre o desarmamento. Eu na época defendi o voto nulo porque em grande parte era um referendo que não alteraria o que na prática era um quase banimento de armas, mas era possível ver pessoas discutindo estatísticas sobre o assunto e até faixas sobre o assunto. O referendo tinha uma grande diferença sobre as eleições: a população sentia, ironicamente, que o que seria votado de fato teria alguma diferença e de que uma vitória do “Sim” produziria um país substancialmente diferente de um em que o “Não” vencesse.

Um dos pontos mais criticados sobre o eleitorado brasileiro são os eleitos para o Legislativo, em que sempre figuram celebridades, pessoas com alguma condenação ou alguma coisa bizarra, de Netinho de Paula a Enéas. Só que, convenhamos, alguém entende a forma em que os deputados são eleitos no Brasil? Mesmo uma pessoa com alguma formação política não entende porque diabos um sujeito é eleito deputado, e outro sujeito com mais votos não é. Sempre que o listão sai em novembro tudo é uma surpresa mesmo para quem acompanha política, o que dirá o cidadão comum.Isso sem contar as disparidades regionais e a lambança que são as eleições para deputados nos estados maiores(Aonde qualquer cacareco obtém mais votos que um candidato com base regional).

Isso sem contar o total distanciamento dos candidatos dos eleitores, que não podem nem escolher os candidatos por primárias e aonde os eleitores a cada dois anos assistem os candidatos arruinarem a paisagem urbana com faixas e carros de som, ao passo que quase todo tipo de manifestação própria dos eleitores sobre o assunto é coagida.  O povo não vota consciente pela mera razão de que ele não pode participar do processo, e qualquer um interessado no assunto deveria revisitar o referendo de 2005.

Uma campanha muito esquisita

A campanha presidencial brasileira está um tanto quanto bizarra. Primeiro, que Dilma Rousseff parece mais uma versão feminina do típico candidato pemedebista de uns dez anos atrás. Dilma Rousseff andou até flertando com uma versão brasileira dos vouchers, só que para Ensino Médio, o que é um tanto bizarro para uma candidata dita da esquerda. O mais bizarro é que dentro dos sempre militantes trotkistas, stalinistas e todos os istas da esquerda brasileira não surgiu ninguém patrocinando nenhum outro candidato realmente forte.

E tem a ainda mais bizarra campanha de Serra, que parece misturar uma versão mais agressiva e escancarada da campanha de John  McCain com o da sua própria campanha de 2002. Duas campanhas vencedoras, como se sabe. O ponto é fazer promessas vagas, fazer as acusações mais absurdas possível(como relações com as FARC ou sabe-se lá o quê) e ainda se pintar como vítimas de dossiês e sabe-se lá o quê. É uma estratégia vencedora, como se sabe. Logo Serra vai acusar Dilma Rousseff de envolvimento com a Al-Qaeda.

(O pessoal lá anda tão fora da realidade que andaram anunciando uma carta de compromisso social ou algo que o valha. Provavelmente, apenas para lembrar os eleitores disto)

E sim, tem o bizarro companheiro de vice de Serra. O Cavalo Louco . Aliás, aonde foi que acharam este cara? Ao menos ao contrário de Sarah Palin e Dan Quayle ninguém podera dizer que ele teria o maior arsenal nuclear do planeta à sua disposição caso Serra, se eleito, tivesse um ataque cardíaco…

De Lincoln a Carter

Um ponto em comum entre as duas principais reformas que Barack Obama aprovou - as reformas da saúde e financeiras - é de que mesmo entre os especialistas haviam um consenso de que ninguém sabia explicar direito o que cada reforma faria. Alguns brasileiros chegaram a achar que Obama queria mesmo um SUS americano, embora não havia nada previsto em nenhum dos projetos. A reforma financeira vai pelo mesmo caminho, com mesmo Joe Biden concordando que quase ninguém entendia direito o que havia no projeto. São pontos que obviamente ajudam estas reformas a serem mais impopulares que deveriam ser - como alguém vai apoiar uma reforma que não entende direito? - e isso num ambiente de desemprego sempre rondando na casa dos dois dígitos.

Outro ponto foi levantado pela estrategista republicana Mary Matalin: Obama precisaria ser alguma coisa. Obama tenta agradar a todo mundo e não agrada a ninguém, tenta ser tudo ao mesmo tempo e acaba não sendo nada.Um dos ataques mais marcantes contra um político nos EUA é acusação de ser um flip flopper, um candidato que altera as posições o tempo todo por motivos políticos,como se estivesse manipulando os eleitores.Poucas coisas tiraram mais votos de John Kerry que as imagens dele numa prancha de windsurfe, ao som de Tchaikovsky, enquanto o locutor dizia que ele havia votado contra a guerra, a favor da guerra e contra novamente, e que ele votaria de acordo com a direção ao vento.

Não é uma imagem boa para um presidente eleito. Obama, que era comparado a Lincoln e Roosevelt nos primeiros meses de mandato precisa provar agora que não é Jimmy Carter.

Diga-me como blogas…

A pesquisa com linguagem falada já indicava uma forte relação entre a lingua e a personalidade. Por exemplo, neuróticos tem predileção por palavras negativas, tipos agradáveis com palavras ligadas à socialização, e por aí vai. Tal Yarkoni, do departamento de Psicologia da Universidade do Colorado, fez um estudo sobre a linguagem utilizada em blogs e descobriu que ao invés das pesosas se projetarem com uma imagem idealizada, como se imagina, havia uma forte correlação com a personalidade dos autores.Blogueiros neuróticos usavam mais palavras associadas com emoções negativas, blogueiros extrovertidos usavam mais palavras ligadas a emoções positivas, blogueiros com alto placar em agradabilidade evitavam palavrões, e usavam mais palavras relacionads a cordialidade.enquanto blogueiros mais meticulosos mencionavam mais palavras com conotações de realizações.

Segundo o estudo, uso ironia também era relacionada com neuróticos e extroversão com a categoria de palavras “bebidas”. hmmm

(Via Outside the Beltway)

A pandemia acabou

Margaret Chan - que como Presidente da OMS teve a definição final sobre os alertas sobre a Gripe H1N1 - admitiu que a agência cometeu vários erros durante a dita crise da dita gripe e de que uma comissão será criada para avaliar de “forma franca e crítica” a atuação da agência durante a “crise”.  A OMS já havia sofrido fortes críticas de conflitos de interesse ao declarar a epidemia.

Bem, ao menos Chan admitiu as suas falhas, apesar de ainda ser desonesta. Seria interessante escutar as mesmas desculpas das autoridades de saúde no Brasil - que tomaram medidas muito mais violentas que as vistas em outros países- e em especial da imprensa brasileira, particularmente histérica durante a “crise“, fizessem o mesmo.

Petrobrax


Ontem, telespectadores do “Nightly News with Brian Williams” na NBC americana puderam ver a seguinte cena, tirada de um porto na Lousiana. Sinal de que quem trabalha na Petrobrás americana ou não sabe escrever direito o nome da empresa ou não se importa.

Federalismo de cavalo doido

Uma das defesas que se costuma fazer do federalismo nos Estados Unidos é de que não é justo que o contribuinte em Ilinois ou em Nova York paguem por rodovias ou escolas no Wyoming ou em Idaho. Certo. Agora, respiremos, bebamos um gole d´água. Imaginem dizer que não é justo que São Paulo ou Minas Gerais paguem por rodovias e escolas no Acre ou no Maranhão. A coisa muda um tanto de figura: há sempre os círculos em que se diz que São Paulo ou o Sul do país seriam potência sem o resto do país, mas isso inevitavelmente soa um tanto quanto egoísta e frio.

O Brasil não só conta com gritantes diferenças regionais como conta com a Amazônia, que é a Amazônia. Logo, qualquer aplicação pura do federalismo na prática poderia simplesmente ampliar estas diferenças. Então, no Brasil, claro, preferiram fazer o federalismo de cavalo doido, aonde o governo federal repassa grandes quantidades de dinheiro para estados e prefeituras. Isso sempre destruiu a essência do federalismo, porque prefeitos e governadores poderiam apontar para a suposta falta de repasses do governo federal para qualquer coisa que dê errado. E claro, com dinheiro da União ninguém tem incentivos para ser fiscalmente responsável. Claro, que nem se tocou no problema da estrutura política centralizada e ineficiente das prefeituras, no qual federalismo em si se aproxima mais do feudalismo.

Logo, qualquer um que fale sobre federalismo deveria explicar sobre como ele poderia ser aplicado num país de fortes desigualdades regionais, sem bizarrices como Fundo de Participação dos Municípios. O que quase ninguém fez, apesar da defesa quase unânime do sistema no Brasil.

México: os novos imigrantes

Chula Vista, uma cidade no entorno de San Diego, na Califórnia, sempre foi considerada como uma cidade pobre. Até que o lugar foi invadido por mexicanos de classe média alta, que fogem da violência no país de origem. A região já é conhecida como Nova Tijuana, em referência a cidade ao sul da fronteira na Baja Califórnia. Empresários não levam apenas suas famílias, mas seus restaurantes não só à Califórnia mas ao Texas e ao Novo México, do outro lado da fronteira, fugindo não apenas dos sequestradores, mas de policiais corruptos.

A relação deste imigrantes cria um contraste duro com os imigrantes tradicionais de motivação economica, de origens mais humildes, vindos de estados mais ao sul, como Oaxaca, Guajuanato e Guerrero. São imigrantes que não sofrem com a discriminação nem com o serviço de imigração, e se integram com facilidade ao resto da sociedade. É mais um capítulo da destruição pela Guerra contra as Drogas da região que era uma das mais promissoras da América Latina.

O TAV em dúvida

O Brasil sempre teve um histórico pouco animador na construção de ferrovias. A coisa nunca foi boa - há a Madeira-Maimoré e os planos para se ligar tanto Rio de Janeiro e São Paulo a Belém do Pará nunca foram para frente -mas dos anos 60 a coisa ficou bem mais escabrosa. Os planos para se construir ferrovias elétricas de carga durante o choque do petróleo - o Corredor de Exportação da Fepasa e a Ferrovia do Aço - nunca foram terminados, a Norte-Sul foi outro poço de dinheiro que ainda não foi concluído, e claro, tem a Ferronorte, que foi empacada quando Mário Covas passou a atrasar dinheiro para a ponte no Rio Paraná. Os sucessos na época - a EF Carajás? Ferroeste?-são  sobrepujados por vários fracassos.

Então, se você quiser acreditar no TAV entre Campinas a Rio de Janeiro é preciso acreditar que o país ultrapasse esta maré de azar.  Claro que há outros problemas: um trem desses costuma ser particularmente caro, e a grande demanda de tráfego na região não é de trem por alta velocidade. As rotas mais interessantes seriam as que ligariam Campinas a São Paulo, assim como o Vale do Paraíba a capital, rotas que seriam subutilizadas em alta velocidade. É aí que está a demanda do trecho. E com os confortos do trem, uma previsão mais que realista de três horas de viagem para o trecho São Paulo ao Rio por trem convencional seria mais que o suficiente para competir com a Ponte Aérea.

O custo inicial giraria na casa dos 33 bilhões. Há aquela citação atribuída ao senador americano Everett Dirksen, de que um bilhão aqui,um bilhão ali e logo estamos falando em dinheiro de verdade. Mas aqui são muitos bilhões de uma vez. Isso é um pouco menos que a Alemanha gasta em subsídios ao seu sistema ferroviário por ano(11 bilhões de dólares), mas estamos falando de uma das redes de transporte mais avançadas do planeta, não uma linha ligando um curto espaço. Sabendo de que país nenhum consegue sustentar uma rede ferroviária de passageiros sem subsídios e que linhas de alta velocidade são particularmente dificeis de se colcoar no azul o governo colocou um monte de subsídios para a operadora privada que vai ficar com a tarefa.

Também é dificil acreditar quem vai assumir a tarefa, sem que o estado brasileiro subsidie a brincadeira. O Acela Express, que liga Boston-Nova York-Filadélfia-Baltimore-Washington, a região de maior densidade populacional do continente, com 45 milhões de pessoas num corredor 700 quilômetros de comprimento. Estamos falando de uma região com bem mais dinheiro, note-se. Pois bem: as receitas da Amtrak com o trem seriam de 468 milhões em 2008. Mesmo se a rota entre as três cidades fosse mais lucrativa que a rota do Acela Express, quanto tempo que levaria para se recuperar o investimento? Trinta? Sessenta anos? Ou isto seria um papagaio que seria jogado para o contribuinte?

E subsidiar um trembala para as madames na Faria Lima e no Recreio dos Bandeirantes seria mais importante que o resto do país, sem estrutura ferroviária de passageiros nenhuma?

México: Tan lejos de Dios

A guerra dos carteis no Vale de Juárez, no norte do México, está criando cidades e vilarejos fantasmas. Os moradores, assustados com a sequência de mortes e da violência, fogem. Muitos tentam asilo nos Estados Unidos, a maioria sem sucesso, outros vão ilegalmente. Outros simplesmente não tem lugar para ir. Em Práxedis Guerrero, estado de Chihuahua, o desemprego está na casa dos 40%. O prefeito não mora na cidade. Por todo o vale, há cidades em que 40% ou 50% da população teriam fugido.

Cem anos depois que a Revolução Mexicana expulsou muitos mexicanos do país, outra guerra muito mais vergonhosa cria feridas permanentes.

Duvida boba

Um dos grandes desafios das democracias modernas é o de equilibrar as contas da Previdência Social, o grande peso no déficit nos EUA e pela Europa. Uma das soluções aventadas é o de se ampliar a idade para se aposentar, enquanto se contraargumenta que em muitas profissões, em especial aquelas que exigem muito esforço físico e braçal-operários, trabalhadores da construção civil, etc, é praticamente impossível se continuar trabalhando por muito tempo além dos sessenta e cinco anos.

Se as mulheres costumam ser subrepresentadas neste grupo de trabalhadores, por que elas se aposentam substancialmente mais cedo que os homens no Brasil?

O índio do Serra

O Estadão publicou uma entrevista com Cavalo Doido, digo o Índio da Costa:

Mas ela é apresentada como a coordenadora de um governo aprovado pela opinião pública.

O Lula é muito preparado politicamente e o povo aprova o Lula, mas o governo coordenado pela Dilma é muito ruim. Basta ver a dificuldade que se tem para acessar os serviços públicos, as filas nos hospitais, a má qualidade da educação. Além disso, a máquina inchou e o custo dela é muito mais alto do que deveria ser.

Mas o povo gosta. Para mais de 70% o governo é bom e ótimo.

Na hora que você pergunta ao povo como funcionam a saúde, a educação, o resultado é diferente. E é aí que está a chave para a gente ganhar a eleição. Mostrar que o Lula está bem avaliado e o governo tem a força do nome dele, mas não oferece bons serviços quando se fala em hospital, nas escolas, no transporte

Hmmm…Verdade, isto tudo é particularmente verdadeiro em São Paulo. Ei, espera aí: esses serviços são de responsabilidade do governo estadual,e não é a Dilma que é governadora? Quem era mesmo o governador até pouco tempo atrás?

(Sério mesmo, o que esse pessoal quer com este tipo de gente?)

Aonde está Bin Laden?

Jere Van Dyk, um freelancer a serviço da CBS News, que esteve prisioneiro do Taleban no Afeganistão por quarenta e cinco dias, enquanto caçava por Bin Laden nas áreas tribais do Paquistão. Van Dyk conta agora que ele acha de que Bin Laden não está naquela região - que é o lugar que todos os serviços de segurança do mundo acredita que ele esteja - todos os líderes tribais que ele contactou acham que Bin Laden é muito grande para ser escondido numa área despovoada. Muito grande no sentido de que a comitiva e os seguranças de que Bin Laden carrega é tão grande que ele dificilmente pode ser escondido.

A Guerra contra o Afeganistão começou em grande parte como uma forma de retaliação contra os ataques de onze de setembro. Para Michael Scheur, que liderou a unidade de Bin Laden na CIA, sucesso seria unica e exclusivamente matar Osama bin Laden, Ayman al-Zawahiri, Mulá Omar e o máximo de seus soldados e correlegionários civis e dar o fora o mais rápido possível, cientes de como Mao uma vez disse, insurgências sempre se reconstroem e o processo teria que ser reiniciado. Na prática, ninguém sabe direito o que os americanos fazem num dos países mais inóspitos do planeta. Como George Will apontou uma vez, os EUA estão no país para impedir que o país se transforme num Iêmen ou numa Somália do ponto de vista de base para terrorismo. É um processo que teria que ser repetido eternamente.

Bin Laden observa um Estados Unidos substancialmente mais pobre que em 2000, observa um imenso buraco no lugar do World Trade Center, observa seu país mais odiado enfiado em duas guerras e em uma dívida pública crescente. E tanto ele quanto Al-Zawari e Omar dormem sem a menor presença de soldados de americanos. Nada mal para quem era visto como signatário de uma declaração de morte nove anos atrás.

Para os americanos, existe a certeza de que com Bin Laden vivo não há certeza de vitória. Embora, com os custos da empreitada, as baixas e o estresse para os soldados ninguém parece se preocupar mais com isso.

O superprefeito do mundo imaginário

Uma proposta que anda circulando por aí, criada por uma conhecida revista sensacionalista, é a da criação dos dito superprefeitos, que teriam o encargo de administrar as regiões metropolitanas. A proposta é de uma bobagem tacanha, e demonstra um dos principais problemas da administração pública brasileira: a centralização do poder. É fato de que nos EUA existem os county comissioners, que são os grupos de oficiais, geralmente eleitos, que administram os condados, unidades administrativas acima das cidades(Townships e as towns), em especial nas regiões mais rurais. Mas são comissões, e não há concentração de poder.

E a gente cai em outro problema. Algumas das maiores regiões metropolitanas dos EUA ficam na fronteira entre estados. Chicago é um caso emblemático: a cidade em si é dividida em dois estados, com subúrbios que estendem a região metropolitana para dentro de Indiana e Wisconsin. A região não é lá um exemplo de boa governança, por motivos óbvios(Para se ter uma idéia, Richard Daley, filho do outro Richard Daley, governa a cidade desde de 1988). Mas ninguém morreu. A cidade inclusive conta com um sistema de trens de subúrbio que vai a três estados. Não existe a figura do superprefeito, embora Cook County, que concentre a maior parte da cidade de Chicago, tenha uma comissão de condado. Com 17 membros. E isso não inclui os subúrbios em outros condados.E há várias cidades, como Kansas City, por exemplo, que ficam em mais de um estado(Tipo, um lado do centro da cidade, mesmo, fica em Kansas, o outro lado no Missouri).

E claro, quem inventou a idéia não explicou os poderes deste superprefeito(No caso de São Paulo, em especial, não seriam poderes desprezíveis: ele teria uma população superior a de países como Bélgica, Portugal e Chile a sua mercê) nem as suas relações com os prefeitos. E claro, como isso bastaria para colocar ordem no sistema, que é uma zona porque os prefeitos tem o costume de dizer “dane-se” a quem mora em outras cidades(A decisão da Prefeitura de São Paulo em limitar o tráfego dos ônibus fretados é exemplar). Mas bem, de revistas sensacionalistas não podem surgir boas idéias de políticas públicas mesmo.

A voz da razão que vêm de Kansas City

O Fed americano decide suas taxas de juros por uma votação que inclui os presidentes das regionais dos bancos, sediados em cidades como Filadélfia, Nova York e San Francisco(Basicamente por isso que a decisão de Obama de nomear Timothy Geithner, que presidia o Fed justamente de Nova York, para o Tesouro é assustadoramente inana). Um destes presidentes, Thomas M. Hoenig, de Kansas City, tem defendido de forma enfática um aumento gradual dos juros. Os juros artificialmente baixos do Fed se transformaram num presentão para os bancos, que emprestam dinheiro de graça do governo, apenas para cobrar juros altos no cartão de crédito e investir em países emergentes. Mas também se transformaram num tormento a poupadores, que viram os seus rendimentos cair de forma violenta, transformando-se num estorvo financeiro a muitos aposentados.

Hoenig, até agora, é o único voto por um aumento de juros no Fed. Mas defende um aumento gradual, e relativamente grande - para 3%. E claro, é a voz da razão que tende a ganhar força. E claro, se os chineses por algum motivo ou outro não puderem comprar títulos da dívida americana(Os sinais da existência de uma bolha imobiliária no mercado chinês é pouco animadora) os americanos seriam forçados a aumentar os seus juros para atrair investidores. Isso seria o suficiente para jogar a Dow Jones e a Nasdaq para baixo, retirar bilhoes de dólares do mercado dos países emergentes(Isso transformaria as crises cambiais do final dos anos 90 em bolinho) e estourar a bolha que Geithner e Bernanke criaram para retirar a economia americana da Depressão.

Mas isso demonstra um cenário mundial bem mais pessimista que o que se costuma ver, uma administração Obama bem mais amigona de Wall Street que parece e um cenário em que os países emergentes estariam bastante vulneráveis.. O Brasil definitivamente deveria estar melhor preparado para este cenário. Depois, obviamente, vai ter gente, como em 1998 culpando os especuladores ou algo que o valha.

Supremo: Limitando o acesso ao clube

A Associação de Magistrados Brasileiros anda patrocinando, com toda a cara de pau do mundo, uma emenda constitucional muito espertinha: a que exigiria que Ministros do Supremo Tribunal Federal tivessem experiência judiciária, inclusive como juiz, o que estranhamente beneficiaria diretamente os seus próprios associados. Pessoalmente, não entendo as críticas. Meu problema pessoal com o Supremo é que ele se envolve com muitos assuntos que não deveria, que deveriam ser da alçada do Legislativo ou do Executivo. Não deveria ser da alçada do Supremo fazer coisas como julgamentos de mensalão, demarcar reservas indígenas, decidir sobre o uso ou nãouso de algemas, entre outras coisas. Por outro lado, limitar o escopo das escolhas para o Supremo não melhoraria este ponto. Poderia piorar, tornando o processo ainda mais antidemocrático.

O processo político brasileiro como um todo tende a ser bastante hermético à participação popular - por exemplo, qualquer pressão popular sobre o Legislativo tem efeito limitado com as famigeradas listas partidárias e o Congresso pode aprovar emendas constitucionais ao seu belprazer - mas é o Judiciário, com sua aristocracia interna de desembargadores e juízes, que costuma funcionar de forma mais antidemocrática neste aspecto. Nos últimos anos, os brasileiros como um todo ficaram chocados com inacreditáveis sequências de sentenças judiciais com interpretações bastante criativas da Constituição no tocante ao escopo da liberdade de expressão, com direito à quase que censura prévia de livros. Que num arrombo de corporativismo a AMB queira fechar ainda mais o clubinho é assustador.

A grande inspiração do Supremo brasileiro, que é a Suprema Corte americana, historicamente caminhava pelo lado oposto. Pela AMB, Lyndon Johnson jamais poderia ter nomeado Thurgood Marshal, herói dos direitos civis e primeiro negro naquela corte, que nunca foi juiz. Aliás, pela AMB as escolas americanas provavelmente ainda estariam segregadas porque a Suprema Corte que derrubou a segregação era presidida por um ex-governador da Califórnia(Earl Warren), tinha dois exsenadores(Sherman Minton, Hugo Black), um exprefeito de Cleveland(Harold Burton), um professor de Harvard(Felix Frankfurter), um expresidente da Comissão de Valores Imobiliário(William Douglas).

Na verdade, a grande discussão tanto na nomeação dos sucessores de David Souter e John Paul Stevens foram sobre a necessidade de se nomear pessoas com experiência além do judiciário. justamente o que a AMB quer impedir porque havia o entendimento de que era necessário ter juízes que não só tivessem a compreensão sobre os efeitos das suas ações, mas como que refletissem as pessoas que serão afetadas por elas. A emenda proposta pela AMB tornaria muito mais dificil a seleção de Ministros negros e mulheres. Nada melhor que mais um pouquinho de elitismo. Eventuais Thurgoods Marshalls ficarão de fora, claro. O mais bizarro é que apesar da tacanhice da idéia não há a menor discussão sobre o assunto, que é nada mais que limitar o acesso a um clube elitizado e com mais influência que deveria ter.

De qualquer forma, natural. O Congresso nunca precisou consultar a plebe para alterar a Constituição.

O trem do Mercadante

Aloizio Mercadante anda prometendo reativar os trens de passageiros no interior em São Paulo. Faria bem o candidato detalhar melhor a questão. Trens de passageiros são problemáticos sobre o ponto de infraestrutura porque exigem trilhos em estado de conservação muito melhor que trens de carga, além do classico problema da diferença de velocidade. Esta complicada relação entre trens de carga e de passageiros é uma das razões pela qual a maioria das linhas da Amtrak americana conta com atrasos sistemáticos e a razão pela qual tanto a CSX quanto a Union Pacific tentam há anos acabar com este tipo de serviço(Ou mesmo sabotar na cara dura). Não há razão para achar que as empresas brasileiras, sem obrigação de abrir espaço para este serviço pelo contrato da privatização, pensariam diferente. E sim, vale a pena pensar se vale a pena pagar os milhões de reais necessários para manter os trilhos entre Araraquara e São José do Rio Preto, por exemplo, apenas para ver a passagem de um ou outro trem por dia.

Claro que há outros problemas: o trecho entre Campinas a Jundiaí da antiga Cia Paulista, essencial para se atingir a região norte do estado, está longe do ideal para trens de carga, quiça para trens de passageiros. A malha da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, aonde percursos de cerca de trezentos quilômetros sendo percorridos em mais de dez horas eram comuns, precisaria ser basicamente refeita, com atualização do traçado e alargamento de bitola. E também tem casos como da Antiga Cia Mogiana de Estradas de Ferro, que foi reconstruída nos anos 70, tem traçado moderno, mas que não passa próxima de nenhuma cidade.

O pior problema é que num raio de cerca de 150 km da capital há demanda de sobra - com apenas os usuários de ônibus no eixo São Paulo-Jundiaí-Campinas já seria o suficiente para preencher a demanda de uma linha de trem e certamente um debate sobre como atender esta demanda não faria mal a ninguém(Dica: o tal do TAV não cumpre este papel). Não ajuda que Mercadante tenha prometido um TAV para Ribeirão Preto. Se completado, não existiria nenhuma outra linha de trem nestas especificações tendo uma região de densidade populacional tão baixa em uma das pontas.

A mais longa guerra americana

A Guerra no Afeganistão se transformou recentemente na guerra mais longa da História Americana. É mais longa que o tempo que o país se envolveu com as duas guerras mundiais. É mais longa que a Guerra da Secessão ou da Independência. É mais longa que a Guerra do Vietnã. A História certamente se perguntará se esta guerra terá o mesmo impacto que a Guerra do Vietnã teve na psique americana, a primeira guerra em que os Estados Unidos foram efetivamente derrotados.

Para boa parte da esquerda mundial a Guerra contra a Iraque foi uma atrocidade não pela quantidade de gente que matou, mas pelas motivações que transpareciam todo o egoísmo do mundo. Era uma guerra pelo petróleo, dizia-se na época. Não é este o cenário no Afeganistão, ainda mais com o exmessias da esquerda mundial, não aquele texano lacaio das empresas de petróleo no comando. Mas potencialmente o Afeganistão sempre foi um cenário ainda pior que o Iraque, historicamente um dos pontos mais prósperos do Golfo Pérsico, com suas cadeias de montanhas intransponíveis e divisões tribais. Um pequeno detalhe pouco notado na imprensa internacional é que a quantidade de baixas estourou. Recentemente, os americanos passaram a marca das mil baixas. A quantidade semanal de baixas anda na casa das 17, algo muito próximo do Iraque nos seus piores dias.

Um dos motivos que levaram a queda do General McChrystal é que na tentativa de conter baixas de civis afegãos McChrystal estaria colocando em risco vidas de soldados. que simplesmente ficavam de mãos atadas para reagir.. O general ficou famoso por ter dito que trabalharia com o “governo em uma caixa”, com um sistema que supostamente traria um Estado a uma das regiões mais inóspitas do planeta. Os americanos assistem estupefatos soldados na TV trabalhando em todo tipo de obra social no Afeganistão, de escolas a distribuição de brinquedos, e se perguntam sobre o que estão fazendo na região.

O mais curioso? A soma das baixas da OTAN nas duas guerras já gira em torno do dobro dos mortos no 11 de setembro.

Cada classe média tem o stand up comedy que merece

A classe média brasileira sempre adorou importar modismos americanos. Temos, claro, as redes de fastfood, em que a nossa vibrante classe média consome como se fosse gourmet cuisine - a inauguração do Starbucks e do Burger King gerou verdadeiras caravanas alguns anos atrás em São Paulo. Há modismos nem de todo ruins - como o público que segue a NFL, mas há também uma tradição de distorcer completamente o original. O Spelling Bee, uma competição com traços de linguística para crianças virou uma competição de soletração decorada aqui no Brasil. A última onda de exportação é o stand up comedy. E assim como quando o traste do Luciano Huck importou o Spelling Bee, o stand up comedy foi completamente emporcalhado em terras nacionais.

Ao que parece, a grande expressão do stand up comedy nacional seria o Danilo Gentili, do programa televisivo CQC. Do ponto de vista interpretativo, Gentili é limitado como uma porta. Piadas elaboradas? Necas. Aliás, o Gentili é o primeiro humorista que precisa justificar piadas comparando negros com macacos. Imaginem Jon Stewart ou Woody Allen precisando justificar o uso do termo “niggers” ou mesmo “kike”.(Gentili reclama que o politicamente correto estaria matando o humor, mas grande parte dos humoristas mais celebrados são politicamente corretos até o osso. O já citado Jon Stewart é um exemplo). Gentili, obviamente, reclama da necessidade de poder fazer piadas com minorias e outros estereótipos porque é limitado demais para fazer o que stand up comedians fazem, aquele misto de critique social com humor.

E claro, o Gentili é o primeiro humorista que precisa tomar porrada de policial para mostrar seu talento. Mas cada classe média tem o seu stand up comedy que merece.

A sucessora de Lula

Uma das razões pela qual a oposição atacou de forma violenta José Dirceu e Antônio Palocci é pelo impressão corrente na época de que Lula era tão dependente de seus auxiliares que atacar seus cavaleiros leais era a melhor forma de destruí-lo. Nesse jogo todo, Dilma Rousseff recebeu o bastão da sucessão que em outros cenários poderia caber a Palocci, Dirceu ou mesmo Celso Daniel. É um ponto interessante porque Dilma provavelmente nunca pensou em ser presidente, e claro, tem um background que é o oposto de Lula. Ela é articulada de forma mais intelectualizada, argumentando com bastante densidade e precisão, por mais que(felizmente) não tenha um background acadêmico.

Por outro lado, Dilma Rousseff de uma certa forma seja o melhor símbolo do pequeno vale entre petistas e lulistas. Dilma Rousseff, num partido que sempre privilegiou o seu establishment, não começou sua carreira política no PT. Isto num partido em que a palavra “membrofundador” tinha o peso de honra. E claro, o discurso de Dilma é bem menos norteado pelo vocabulário de esquerda clássico que qualquer figura de destaque de PT. Dilma fala mais em desenvolvimento e crescimento que em distribuição de renda. O que leva também ao bizarro ponto da estranha união da esquerda em torno da candidata de Lula. O candidato do Psol, Plínio Arruda Sampaio, ainda não conseguiu levantar grandes vôos, e Marina da Silva tenta se vender como mais ao centro que Dilma Rousseff(Sei, coisas de Brasill).

Tomando porrada

Eu não sou nem um pouco fã do CQC e em especial do Danilo Gentili, pelo simples fato de que ambos emporcalham a nobre tradição do stand up comedy. Pode parecer surpreendente para o gosto médio brasileiro, mas comédia exige mais que fazer caretas na frente das câmara, isso exige todo um trabalho de interpretação -uma das mais sofisticadas sitcoms do mercado americano, 30 Rock, foi montada com um elenco formado apartir de comediantes. E o CQC é classe média brasileira demais para o meu gosto. De qualquer forma, obviamente, como libertário civil também não apoio o espancamento de ninguém por forças de segurança, em especial de pessoas fazendo trabalhos jornalisticos, independente da qualidade destes.

Por isso mesmo que me intriga a sequência de espancamentos no qual o moço foi submetido - primeiro em São Bernardo do Campo, depois em Analândia. Michael Moore sempre trabalhou com este jornalismo de emboscada, e não me consta de ter sido espancado. Bill O´Reilly, da Fox News, tem o costume de mandar um produtor para fazer emboscadas contra todo tipo de pessoa, e não me consta de ninguém ter sido espancado também. Tem alguma coisa errada. Ou é o Danilo Gentili, que faz alguma coisa para ser alvo de porrada, ou com as prefeituras municipais. Ou mesmo com ambos.

O inferno astral de Nicolas Sarkozy

Nicolas Sarkozy prometeu uma reforma ministerial para outubro. Esse tipo de coisa nunca é um bom sinal - quase sempre indica problemas gerais na administração ou impopularidade geral. Para Sarkozy, é um misto de ambos. O presidente francês passa por um verdadeiro inferno astral, com pedras vindas de todos os lados.

Sarkozy acabou levando pedra, mesmo que indiretamente, inclusive pelo desempenho da seleção francesa na Copa de Mundo de futebol - o luxuoso hotel que abrigou os jogadores antes do início dos jogos foram fortemente criticadas pela imprensa - e há no fundo o L’affaire Bettencourt, como foi chamado pela imprensa francesa, é no fundo um imenso tacape contra Sarkozy(Eric Woerth, o Ministro encarregado da mais dura reforma orçamentária de Sarkozy - o aumento da idade para se aposentar - foi acusado de ter favorecido Liliane Bettencourt, a octogenária e ziliardária herdeira da L´Oreal, que é acusada de evasão fiscal*).

Se no início do seu mandato Sarkozy pode se beneficiar de trunfos na parte de política externa hoje o que sobra é administrar um déficit público na casa dos dois dígitos do PIB e uma equipe ministerial apática. Nada bom para o que já foi considerado um dos líderes mais promissores da Europa.

*-O assunto na verdade é digno de um filme, com Liliane Bettencourt sendo acusada pela própria filha de não ter plena capacidade mental para administrar a fortuna, um fotográfo espertinho que conseguiu ganhar bilhões de euros em “presentes” da dita com uma “amizade platônica” e um mordomo, claro, um mordomo, que gravou tudo dizendo que não aguentava mais ver a patroa sendo explorada por todos que a cercam.

O índio do Serra

A justificativa da escolha do deputado Touro Sentado, digo Índio da Costa como vice de Serra é um tanto quanto bizarra:

“Segundo a cúpula dos partidos, os critérios para a escolha do parlamentar levaram em conta o fato de ele ser jovem, ter uma boa presença no Congresso Nacional, ter sido um dos relatores do projeto Ficha Limpa e, principalmente, por ser do Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do País. “

Serra está encrencado se o pessoal da sua coalizão segue este racicínio. Primeiro, porque como ocorre com a maioria dos deputados, muita pouca gente conhece o deputado Raoni, digo Índio da Costa, como bem ironizou a própria campanha adversária. Segundo, os votos do Estado do Rio de Janeiro como um todo - onze milhões - podem ser impressionantes, mas a cidade do Rio de Janeiro em si é na casa dos quatro milhões. E politicamente a cidade do Rio de Janeiro costuma dançar uma música totalmente diferente do resto do estado. Foi uma das razões pela qual César Maia nunca chegou perto do governo estadual. E claro, geograficamente uma chapa Ponte Aérea é definitivamente genial.

Também não entendi a justificativa da juventude. Um dos pontos fracos de Serra é que seria extremamente fácil usar seu vice para atacá-lo, uma tática bastante antiga, embora de eficiência contestada. No entanto, Serra, por ter largado a prefeitura de São Paulo com Kassab seria particularmente vulnerável a este tipo de ataque. Se a campanha da Dilma ou de algum correlegionário poderia simplesmente perguntar: “Mas quem é este sujeito que o Serra quer deixar a um pulo da presidência? O país tem direito em saber, em especial considerando seu histórico em largar mandatos pela metade.” Um ex-governador, um senador seria a melhor maneira de brindar contra estes ataques.

Por fim, se Serra acha mesmo que o Ficha Limpa vai fazer tanta diferença não entendeu direito o país que quer governar, aonde o eleitorado está mais preocupado com questões econômicas que com esta metafísica política. Acha que ainda está dependendo da classe média e da imprensa paulistana. Isso sem contar que não seria dificil demolir a imagem de “ética” de alguém coligado com o antigo PFL.

  • "Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral. Ademais, a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente, já fala de per si, porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem, como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias."

    Ortega y Gasset

  • Admin