A Guerra contra a Bolívia

Uma coisa que eu não entendi na recente guerra de José Serra contra a Bolívia é o seguinte: partamos do princípio de que sim, a cocaína vinda da Bolívia representaria um risco maior ao Brasil que os cartéis mexicanos ou as guerrilhas colombianas. O que o Brasil poderia fazer? É ingênuo achar que num país em que bandeiras brasileiras são queimadas em protestos qualquer pressão comercial signifique qualquer coisa(Em especial porque basicamente países muito pobres são bastante resistentes a medidas como esta). Dentro da América Hispana assistimos a várias rixas entre países: Colômbia contra Venezuela, Uruguay contra Argentina. O grande ponto em comum destas rixas foi a extrema improdutividade delas.

Sim, é fato de que a política externa de Lula é bem mais fraca que a maioria dos petistas gostaria de admitir. Lula deveria desistir de brincar de Jimmy Carter no Irã e na Palestina enquanto há problemas graves na vizinhança. Por outro lado, não é com ataques infantis que este tipo de situação seria resolvida. Eu pessoalmente acho que deveria ser urgente que o Brasil detivesse soldados em número suficiente para intervir, em caso de extrema necessidade em alguns dos vizinhos menores. Por outro lado, isto nem seria urgente nem existem soldados para tal.

E sim, quase nenhum brasileiro gosta de admitir, mas por motivos óbvios é bastante ruim para o Brasil ter vizinhos em situação de pobreza tão extrema quanto o Paraguay e a Bolívia. Claro que como os investimentos em gasodutos na Bolívia demonstram, isso não é tão fácil. Infelizmente, bravatas são ainda menos improdutivas. Por fim, não é como se o Serra tivesse tido o comando da polícia daquele que seria o quarto maior país do continente se fosse um país e de que é cortado por rotas de drogas, sem manter resultados particularmente animadores, não? Ei, espera aí….

Blogs e a grande mídia

Durante muitos anos, o formato de mída conhecido como blog era conhecida como o grande contraponto à mídia tradicional. O Brasil sempre foi um meio estranho para isso, porque os blogs se debruçavam sobre assuntos como piadas e humor(Geralmente sem graça) ou sobre, bem, blogs(Genial, não? Blogs que falam sobre blogs!), não sobre assuntos que são tradicionalmente cobertos pela imprensa tradicional. Claro, há vários blogs sobre assuntos cobertos pela imprensa tradicional, como este, mas são blogs com raras exceções com alcance limitado. No caso deste, com alcance mais limitado ainda, querendo ou não.

Daí, de um anos para cá,surgem vários blogs com maior audiência em portais sobre política, todos bastante partidarizados. Não são blogs que defendem uma linha política per se, mas um partido. E o pior, são portais sustentados por empresas com claro interesse político que mantem esses blogs. São portais mantidos por empresas de telefonia ou por uma editora com interesse no lucrativo mercado de material didático, entre outras coisas(O setor sobre educação desta editora costuma trocar quadros com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, por exemplo).

O que não deixa de ser irônico para aqueles que sempre foram tão deslumbrados com esta mídia.

A impotência americana


Nos anos 60 e 70, uma das razões pela qual a Guerra contra o Vietnã assustava boa parte dos americanos não era o prospecto de ser mandado para o meio da selva enfrentar os comunistas, nem o avanço comunista na Ásia. Era o fato de que os Estados Unidos, a maior potência do planeta, estar sendo surrada por um bando de maltrapilhos no meio do Vietnã. George Wallace, um candidato dissidente dos democratas no Sul, defendia o uso de bombas nucleares(Seu companheiro de chapa, o General Curtis LeMay, havia comandado o bombardeio de Hiroshima e Nagasáki). E uma das razões pela qual Carter foi trocado rapidinho por Reagan é que a América não era um país que aceitava ser humilhado por um bando de estudantes no Irã nem em colocar suéteres e blusas no lugar do aquecimento central.

E este um dos pontos que chocam os americanos sobre o vazamento de petróleo no Golfo do México: é o fato da maior potência planetária parecer impotente frente a uma mancha que ameaça contaminar não só a costa do golfo, mas de todo o Atlântico Sul.Tão onipotente quanto estava frente aos vietcongues e aos iranianos em 1979. E os americanos não gostam nada disso, claro. Para Obama, claro, isto é ainda pior. Como Paul Gigot, editor da bastante conservadora página editorial do Wall Street Journal disse quando seus colegas de mesa mais liberais no programa Meet the Press criticaram a resposta de Obama ao desastre: “O que Obama poderia fazer?”

O desafio parte de uma premissa comum da campanha - do professor universitário elitista e distante dos problemas da população. Ao que parece, por mais que Obama não consiga tampar o maldito buraco, ao menos ele deveria mostrar preocupação e empatia. O que ele está tendo dificuldades em fazer.

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A BP tem tentado conter o vazamento com uma série de tentativas que parecem saídas da cabeça do Professor Pardal(Com a nítida diferença que ao contrário dos inventos do personagem Disney nenhuma funciona). Uma sugestão interessante que foi levantada seria o do uso de superpetroleiros para captar e separar a água, que teria sido usada pelos sauditas num vazamento nos anos 90.

De qualquer forma, a experiência com outros vazamentos indica que isso continuaria vazando até que um segundo cano de escavação fosse perfurado. O que levaria meses.

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Um ponto que considero particularmente interessante é a forma marginal como o assunto está sendo tratado no Brasil. A TF1 francesa mandou correspondentes para o local. Aqui no Brasil é tudo nas entrelinhas, com material de agências e syndicates(O Estado publicou um texto de Margaret Carlson sobre o assunto, que é regiamente mutilado). Tipo, tudo bem que não há nenhuma plataforma no litoral brasileiro, não de projetos de plataformas similares em águas ainda mais profundas, mas… ei, espera aí…

A Colômbia faz a sua escolha

Quando Álvaro Uribe assumiu a Presidência da Colômbia, seu país era o retrato mais deprimente da Guerra contra as Drogas. O país tinha uma das mais altas taxas de sequestro do planeta, as FARC controlavam na prática uma extensa região ao sul do país e sequestrados como Gustavo Moncayo e Ingrid Betancourt atraiam a atenção internacional. Com ajuda dos Estados Unidos, as Forças Armadas Colombianas foram transformadas na melhor força militar da América Latina, as FARC foram em sua grande parte dizimadas e tanto Moncayo quanto Betancourt foram libertados. Uribe, que era acusado de intransigente, havia conseguido seu feito na força bruta.

Uribe é uma força a ser reconhecida em grande parte pela sua brutal diferença com os outros líderes da região. É o aliado mais claro dos Estados Unidos por toda a América Latina, num continente aonde os presidentes sempre gostaram de ganhar pontos atacando o país, mesmo recebendo verba de Washington. E é justamente este modelo que está em cheque na eleição presidencial deste domingo, representado justamente pelo Ministro da Defesa de Uriba durante o período de triunfo contra as FARC, e também de execuções extrajudiciais.

E enquanto os brasileiros foram brindados com uma eleição modorrenta e sem graça, com três candidatos modorrentos e sem graça, tudo é mais divertido na eleição colombiana. Começa pelo fato de que analistas reconhecem que os dois candidatos são qualificados para governar o país(Aqui no Brasil desconfio que seja o contrário) e de que os dois são modelos bastante claros. Antanas Mockus, filho de imigrantes lituanos, é um filosófo e exreitor da Universidade Nacional de Bogotá, conhecido pelas excentricidades e pelas citações perfeitas para agendas escolares, e compete com Juan Manuel Santos, que além do homem responsável pela linha dura é da família que é dona do jornal El Tiempo. Ou seja, não tem nenhum homem do povo na parada.

Mas são dois modelos claros: um intelectual socialdemocrata, contra um homem militar de linhas mais conservadoras. Independente da escolha que a Colômbia fizer, ela será uma escolha de verdade.

O revisionismo culinário

Uma daquelas revistas de colorir para crianças que vendem na banca colocou na capa alguma coisa sobre 19 mentiras que uma nova geração de historiadores estaria desmontando(O membro mais conhecido da tal geração de historiadores seria na verdade jornalista, não um historiador que tipo, publica trabalhos acadêmicos ou coisas do tipo), ou alguma bobagem do gênero. Entre os pontos colocados, está a revelação de que a feijoada não teria sido criada no Brasil.

Céus, eis uma criação tão brasileira quanto a jaboticaba: o revisionismo culinário.

Prometendo o que não se pode entregar

Dilma Rousseff prometeu a empresários a reforma tributária caso seja eleita. Ela não deveria prometer o que não pode cumprir. O sistema tributário brasileiro costuma ser uma bagunça basicamente porque ao invés de cada ente federativo criar seu próprio regime tributário os três níveis de governo compartilham o mesmo regime. E claro, os estados e municípios adoram o sistema, porque não contam com o ônus político geral de arrecadar impostos entre seus cidadãos. A reforma tributária nunca saiu porque estados e municípios nunca aceitaram diminuir a sua fatia do bolo(só Brasília precisa cortar gastos e impostos), e claro, isso em parte porque analistas preguiçosos sempre insistiram na imprensa a ladainha dos pobres municípios contra o Leviatã de Brasília.

Aliás, todos os candidatos ignoram os problemas de se lidar com o Congresso, que desde de Collor foi uma tremenda pedra de sapato para todos os presidentes. Ou estão sendo ingenuos ou estão sendo pouco honestos com o eleitorado.

Serra declara guerra à Bolívia

Eu sempre falei brincando que se Serra fosse eleito uns três estados declarariam secessão e de que haveria quartelada. O problema deve ser mais grave, já que a divisão e animosidade não estariam limitados ao Braisl(Eu concordo com Andrés Oppenheimer de que o Brasil deveria olhar para seus próprios vizinhos antes de se aventurar no Irã, e como um todo a política externa é horrenda, com condescendência com alguns dos piores regimes do planeta, mas os prospectos de Serra liderando a política externa do país fazem Lula parecer bem melhor que parece sobre o assunto.

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Qualquer candidato que prometesse emendar a Constituição deveria ficar bem longe de ser reeleito, mas considerando os péssimos números de Serra na segurança pública a idéia de uma mudança na Constituição para que o Governo Federal tenha papel maior no combate à criminalidade.

OK, fui vencido

Seja lá o que o Lula foi fazer no Irã, isto deve ser algo bom e bastante defensável: Thomas Friedman escreveu uma coluna atacando o acordo turcobrasileiro naquele país. Se o Friedman é contra, alguma coisa de bom isso deve ter. Embora não descobri, claro.

(O melhor são os comentários, criticando Friedman pela hipocrisia no tocante ao apoio americano a países com histórico de direitos humanos ruins).

Batido e sem graça

O site G1 publicou um vídeo de Melanie Lawson, da retransmissora local da ABC em Houston, no Texas, que cai num telejornal ao vivo. O único ponto chato? Além do vídeo ser totalmente batido, Lawson sofre de esclerose multipla - o que explica a queda.

A ficção dos impostos de país emergente com benefícios sociais escandinavos

Em março de 1976, Jude Wanninski, então um autor da página editorial do Wall Street Journal, escreveu um artigo que viria a ser antológico: “Impostos e os dois papais noeis”. Wanniski argumentava de que os democratas sempre assumiam o papel do Papai Noel Gastador, e de que os republicanos deveriam assumir o papel do Papai Noel da Redução de Impostos. Wanniski, como outros supply-siders, focava-se na possibilidade de cortes de impostos como ferramenta, por outro lado, políticos republicanos ferozmente assumiriam o papel de Papai Noel cortador de Impostos, sem cortar gastos públicos numa escala semelhante, porque, bem, Papai Noel que é Papai Noel não corta gastos, corta?

Em parte, o problema de toda a retórica ligada a impostos é esta: todo mundo gosta de tirar vantagem do que o governo oferece, invariavelmente defendendo programas governamentais do seu interesse e defendendo aumentos de impostos para todo mundo, menos para si próprio. E em parte por isso mesmo que a retórica de impostos é tão agradável quando separada da retórica sobre corte de gastos. É muito agradável obter maiores benefícios do governo pagando menos, embora isso muitas vezes não é possível. E claro, como é bastante agradável ter cortes de impostos sem cortes de gastos, as consequentes pressões sobre o déficit levam a aumentos de impostos posteriormente.

No Brasil que esta relação assume um papel bizarro: é comum ver as pessoas reclamando que pagam duas vezes pela saúde, primeiro através dos impostos, e segundo através dos planos de saúde privados, discurso invariavelmente repetido com relação à segurança, educação e o diabos. Céus, mesmo pegando as estimativas mais exageradas de carga tributária, um país em que um sujeito cedesse 34%(Ou vá lá, 40% como circula por aí) em troca de educação, saúde, segurança, sobrando o resto para alimentação, moradia e superflúos seria o paraíso. Não o paraíso socialdemocrata, o Paraíso de verdade citado na Bíblia.

Também é comum ver pessoas falando que o Brasil teria os impostos mais altos do mundo - o que não é verdade - por outro lado, o que ninguém cita é a generosa rede de proteção que o país conta, em especial para a classe média. Para se ter uma idéia, na França, que é a França, se cogita acabar com a “farra” da aposentadoria aos sessenta anos, que ainda é uma idade muito maior que a média da aposentadoria de uma parte razoável da força de trabalho brasileira. Há também coisas como cobertura universal para saúde(Benesse ausente nos Estados Unidos), licençamaternidade paga pela Previdência Social, entre outras coisas.

Ou seja, é perfeitamente justo ou mesmo desejável ser a favor de cortes de impostos e de gastos ao mesmo tempo. No entanto, a retórica de cortes de impostos desvinculada de cortes de gastos é covarde e hipócrita. Por exemplo, esta semana um conjunto de ONGs montou o espetáculo bizarro aonde gasolina era vendida pelo preço equivalente ao preço que ela seria vendida se não tivesse impostos(É um exemplo ruim, em parte porque a gasolina brasileira não é a mais cara do mundo, em parte porque impostos sobre a gasolina é uma das formas mais justas de se custear infraestrutura viária). As ONGs participantes da brincadeira poderiam ter montado uma barraquinha detalhando os cortes necessários à estrutura do governo, mas claro, não daria Ibope explicar que aposentadoria não é modo de vida, mas uma rede de segurança para quando as pessoas não podem mais trabalhar.

O melhor foi a seguinte declaração, claro, do presidente do Instituto Millenium, supostamente um instituto de liberais de livre mercado:

““O objetivo é que a s pessoas aprendam que todo cidadão paga impostos, quanto paga, e participe ativamente do processo de utilização dos recursos””

Céus, o sujeito quer que as pessoas EXIJAM ainda mais coisas do governo?

Teria a Casa Branca tentado subornar Joe Sestak?

Joe Sestak, o Congressista que é candidato democrata para o Senado pela Pensilvânia, fez uma revelação interessante: a de que a Casa Branca teria oferecido a ele um cargo em troca do seu desafio contra o senador Arlen Specter nas primárias democratas(Um republicano que havia trocado de partido em parte por causa da pressão de democratas, e que perdeu a nomeação para Sestak). O cargo seria de Secretário da Marinha, segundo rumores. Sestak, foi, digamos assim, evasivo quando perguntado por David Gregory na NBC no domingo sobre o assunto.

Mas claro, isso não só seria suborno eticamente como seria ilegal.

Galinácias

O Brasil tem uma legislação eleitoral intricada e complexa, mas é o estado americano de Nevada que surge com a proibição mais bizarra ligada ao assunto: o estado proibiu que pessoas vestidas de galinhas compareçam ao local de votação. É que a candidata republicana ao senado, Sue Lowden, foi pega dizendo num programa de TV local que as pessoas deveriam fazer como “os nossos avós faziam, quando as pessoas traziam uma galinha para o médico, se propunham a pintar a sua casa” quando discutia os custos de saúde, numa frase que foi pega como motivo para ataque(E de piada) pelos democratas em nível nacional, com direitos a sites que calculavam o número de galinhas necessárias para pagar procedimentos médicos diversos.

China por um dia

Neste domingo, Thomas Friedman, do New York Times, estava na mesma redonda, junto com Bob Woodward, Paul Gigot do Wall Street Journal e Andrea Mitchell, da NBC, do programa Meet the Press da NBC. Num certo momento, começam-se a discutir sobre Washington, sobre como tudo não funcionava por lá e Friedman surge com a sugestão bizarra, que ele já havia repetido em uma coluna: de que os Estados Unidos deveriam ser a China por um dia(Mas não por um segundo), apenas para conseguir fazer as coisas sem as barreiras de Washington.

Depois de alguns segundos, Paul Gigot responde da forma mais simples do mundo: “Mas estaríamos todos presos se fossemos a China por um dia!.”

Uma dessas revistas sensacionalistas….

Uma dessas revistas sensacionalistas que vendem na banca da rua publicou uma capa falando sobre como os impostos deixariam tudo mais caro que no resto do mundo. A revista, obviamente, se centra em bens essenciais para a vida cotidiana, como o Toyota Corolla(Provavelmente porque no caso de produtos desnecessários, como remédios, gasolina, alimentos, entre outros, os produtos são mais baratos ou tão competitivos quanto em outros países do Hemisfério Norte).

O problema que a revista sensacionalista deixou de fora é que dinheiro para sustentar coisas como um sistema previdenciário extramamente generoso e cobertura universal de saúde precisa sair de algum lugar. O Brasil, para o bem e para o mal, resolveu tirar esse dinheiro de impostos sobre consumo. Poderia tirar esse dinheiro de impostos sobre renda e propriedade, o que seria menos regressivo, mas que por outro incentivaria o consumo em detrimento da poupança. Basicamente, por este mesmo motivo que a substituição dos impostos sobre renda por impostos sobre consumo são uma bandeira de conservadores mundo afora. Não sei se o povo da revista preferiria pagar menos pelo Toyota Corolla, mas pagando impostos sobre renda e propriedade em níveis mais altos.

(Curiosamente, no Brasil tende-se a defender cargas tributárias de países emergentes com uma rede social de países escandinavos. Sorry, a conta não fecha).

O melhor teatrinho do mundo

O Irã, como quase todos os seus vizinhos que falam árabe, tem um poderio militar nulo. Tirando supostas compras recentes de jatos da China e da Rússia, as vedetes da Força Aérea do país são Dassault Mirage F1(Tomados durante a Primeira Guerra do Golfo), MIG 29 e F14, estes últimos recebidos dos EUA ainda na época do xá. Isso foi reforçado na guerra contra o Iraque, quando tanques eram desmontados para serem usados como peças de artilharia. Por isso mesmo que o país exagera e inventa sobre seu poderio militar, e faz todo tipo de teatrinho, inclusive no tocante a armamento nuclear.

Entre círculos militares e diplomáticos americanos nenhum país é mais odiado que os iranianos: a crise dos reféns de 1979-81 foi dura demais. Por outro lado, muito da força militar americana está presa ao Afeganistão e ao Iraque, uma ofensiva militar seria impopular entre os árabes e isso bloquearia o Estreito de Hormuz, o que jogaria o preço do petróleo nas alturas. Por outro lado, não é possível deixar barato, certo? Então, é só pressionar por sanções, provavelmente inúteis, em especial porque países como Rússia, China, Índia, Brasil e Emirados Árabes Unidos não querem jogar dinheiro no lixo por causa de seja lá qual birra que os americanos tenham encontrado. Mas é preciso fazer alguma coisa, certo?

Certo, há o Brasil. O país tem um poderio militar fraco, não muito melhor ao do Irã e nunca conseguiu ter uma força diplomática forte nas pendengas envolvendo seus próprios vizinhos. Mas sempre se enxergou como uma espécie de Estados Unidos tropical, e certamente precisava exercitar isso de alguma forma. Certo? Então, nada melhor que um teatrinho diplomático.

Junte-se os três, e tchadã, você tem o melhor teatrinho do mundo.

Demanda induzida

Demanda induzida é uma figura muito comum entre urbanistas e outros inimigos do investimento excessivo em obras viárias. Significa a idéia de que investimento em obras viárias tende a aumentar congestionamentos por aumentarem o número de viagens. É um ponto que os paulistas conhecem pela inauguração da segunda pista no trecho de serra da Rodovia dos Imigrantes. Em alguns anos, os congestionamentos no trecho estavam tão ruins ou piores quanto dantes.

As duas novas darlings do establishment paulistano(Os mesmos doidos que acharam que a Ponte Estaiada era um ponto turístico) são o Rodoanel e a ampliação da Marginal Tietê. O Rodoanel é uma obra complicada(Como eu apontei várias vezes, de Washington DC a Paris, passando por Knoxville no Tennessee, este é um tipo de via particularmente vulnerável a congestionamentos). O problema é que seria de se esperar que após tanto concreto que ao menos a Marginal Tietê ficasse com um fluxo confortável de carros por algum tempo. Ledo engano: em vários trechos, tipo, semanas após a inauguração do bicho, que permitiu que o rio ficasse mais vulnerável à inundações, a Marginal já apresenta vários trechos de lentidão.

Vacina para quem precisa de vacina

Estava ouvindo na BBC uma reportagem sobre a Polônia, o único país da Europa, que se recusou a comprar a vacina contra a Gripe H1N1. Os poloneses hoje comemoram a economia de milhões com a vacina enquanto todos os países da Europa acumulam centenas de milhões de dólares em estoques de vacinas não utilizadas. Daí, a reporter entrevista pessoas na rua, incluindo uma mulher que diz que a Polônia é um país pobre que não poderia desperdiçar tal dinheiro.

Ah, então, sorte que o Brasil é um país rico e pode desperdiçar milhões com campanhas para a doença mesmo que a tal epidemia propagada pela GlaxoSmithKline e pela Roche nunca tenha aparecido.

O trembala que pode se converter em problema

Um dos projetos mais bizarros do Governo Lula era a idéia de um trembala entre Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro. Não era um trem comum, mas um trem de alta velocidade nos moldes do TGV francês, do ICE alemão ou mais rápido que muitas das rotas do Shinkansen japonês, o que implicaria em coisas como linhas com raios de curva de sete quilômetros. E dentro de um terreno com consideráveis obstáculos. Na verdade, esses pequenos detalhes nunca ficaram lá muito claros, mas era um tanto quanto óbvio que um plano relativamente simples, como um trem que usasse da faixa de domínio já existente nunca estava fora de cogitação.

O ponto mais bizarro era a idéia de que tudo poderia ser pago pela iniciativa privada, o que seria um feito inédito mundialmente. Não mais. O que talvez me dê um pouco mais do projeto. Afinal, ao invés disto ser um devaneio ele corre o risco de ser sério, e de se transformar num poço de se perder dinheiro.

O calvário dos cidadãos

A imprensa brasileira, sempre bastante preguiçosa, ajudou a perpetuar o mito dos pobres municípios oprimidos pelo Leviatã em Brasília, o que sempre foi muito conveniente para os prefeitos, que sempre puderam jogar a culpa pela sua falta de planejamento no repasse de verbas do governo federal ou alguma coisa parecida. Em parte porque gastam grande parte do seu dinheiro do governo federal, não de seus municípes, a maioria das prefeituras são verdadeiros ralos de dinheiro. Na verdade, é justamente em nível municipal que todos os problemas institucionais do país se tornam mais graves - é aí que a máquina pública se mostra mais inchada, é justamente aí aonde ocorrem os piores gastos de desperdício. A imprensa sempre preferiu comprar a narrativa do “calvário dos prefeitos” e a patrocinar medidas inócuas, como a Lei da Ficha Limpa.

O Estadão, por exemplo, notícia a tal da Marcha em Defesa dos Municípios, e dá destaque ao fato do evento ter cancelado a exibição de um desenho animado com o tema, ah, ah, ah, ah, calvário do prefeito. Ninguém lá no prédio da Marginal Tietê se perguntou porque diabos prefeitos teriam que estar recebendo verbas em Brasília, mas, claro, é uma boa chance de atacar o governo. Patético.

Filho de peixe, peixinho…

Desde de 2001, o grande fator em comum entre as mais diversas facções do Partido Republicano eram o apoio ao Exército e à chamada Guerra ao Terror. O Congressista Ron Paul, um oponente feroz de ambas as coisas, conseguiu fazer uma campanha insurgente em 2008 nas primárias do partido, mas Paul fez mais uso de ativistas fora do partido que do partido em si. O senador Chuck Hagel, do Nebraska, talvez o maior crítico da guerra no Senado, acabou tendo que se aposentar.

O cenário acaba de assumir um desenho interessante com a vitória de Rand Paul, um médico que é filho de Ron Paul, nas primárias do Partido Republicano pelo Senado no Kentucky. Rand prega um programa não muito diferente do seu pai: ele ataca o intervencionismo militar do seu pais, as Guerras contra o Afeganistão, a guerra contra as drogas, entre outros assuntos. Claro que de forma mais ponderada e menos intelectualizada. Trey Grayson, seu oponente, tentou classificar Rand Paul como uma espécie de cartoon.

E claro, por mais que se tenha falado em tea parties, o grande fator para a vitória de Rand Paul foi a base de apoiadores do seu pai, bem mais jovem e bastante articulada no uso da internet. Sim, estamos falando do Kentucky, não do Oregon ou da Califórnia, e Paul ainda assim teria um desafio importante em novembro. Para os republicanos, a eleição oferece um interessante exame de consciência, embora resta saber se há de fato interesse numa política externa menos intervencionista ou se a rejeição a Obama simplesmente supera estes obstáculos.

Apatia política

Dia desses, dei uma folheada na edição nacional da Revista Rolling Stone. Confesso que nunca folheei outras edições importantes da revista, como a da Argentina, mas um ponto que me chamou a atenção era de que a revista, cuja a edição original publicava trabalhos de P. J. O´Rouke e Matt Taibbi era totalmente apática do ponto de vista político. Há traduções de bons artigos da edição original, mas nada que tomasse alguma posição, por mais insignificante que seja. É um ponto que costuma se destacar na edição brasileira da Playboy, mas há uma certa apatia política no Brasil que é chocante.

Há revistas e sites bastante partidários, ao ponto de dizer chega, mas são revistas e sites que atendem a uma pequena fatia da população, que como um todo é apática ao processo político. Por mais que se critique o talkradio nos Estados Unidos, ainda assim é uma programação voltada à discussões sobre política por horas, mesmo que de forma pouco aprofundada. Aqui no Brasil, nada. O que não é de se surpreender. Os sábios brasileiros criaram um processo aonde, ironicamente, o eleitor não tem direitos, apenas obrigações. Não só se é obrigado a votar, mas obrigado a votar de forma consciente(Seja lá o que diabos seja isto), e claro, há toda a sequência de proibições, incluindo bizarrices como a proibição a campanha fora de época(Mesmo que isto não seja feito pelos candidatos). O eleitor só entra no final, quando tudo dá errado, e claro, ele que supostamente não sabe votar é responsabilizado por todas as chagas do país.

O que explica a massa modorrenta que é a Rolling Stone sobre o ponto de vista político, ou o fato do assunto ser ignorado ou tratado de forma pouco energética em muitas publicações culturais. Culpa de um processo eleitoral amarrado, aonde juízes falam mais alto que o eleitorado.

As misses da discórdia

Ano passado, o concurso de Miss Estados Unidos virou uma polêmica política interminável, porque a Miss Califórnia, Carrie Prejean, deu uma sequência de palavras desconexas e idiotas a uma pergunta do blogueiro Pérez Hilton sobre casamento gay(Prejean, que vivia de posar de biquini, jurava ser cristã, como se apenas nãopraticantes e agnosticos se classificassem a si próprios desta forma, e logo se meteria numa sequência de baixarias, que incluiria até uma suposta fita de sexo).

Agora, o foco da discórdia é Rima Fakih, a Miss Michigan, que venceu o concurso. Fakih, que é descendente de libaneses muçulmanos, está sendo acusada de ser simpatizante do Hizbollah e de utilizar o concurso para “promover a subjulgação muçulmana da mulher. Como se pode ver, nada mais próximo de fundamentalistas muçulmanos que biquinis.

(A Miss Olklahoma, que perdeu, anunciou apoio a lei antiimigração da Califórnia, o que claro, motivou o choro dos suspeitos de sempre).

De qualquer forma, creio que não precisavámos da politização do concurso de misses. Rima parece ser mais simpática que a sra. Prejean(E ganha pontos pela nãotintura do cabelo), mas ainda é tão desnutrida quanto.

Coisas que me assustam no México

Uma das razões pela qual me assusta acompanhar o noticiário sobre o México é que, tirando a maior violência do tráfico por lá, é a clara sensação de se estar acompanhando um noticiário em espanhol sobre o Brasil, tamanha a semelhança entre os problemas que se ouve no noticiário. Agora, as semelhanças me assustam cada vez mais.
(Fato, o PAN mexicano reclama que teria havido fraude em Mérida, não nenhuma violação da lei eleitoral,como campanha fora do prazo ou algo do gênero. Mas mesmo assim)….

Explicando a ascensão de Dilma Rousseff nas pesquisas

Em 2002, Serra tentava concorrer a Presidência da República como uma espécie de superministro da saúde, que teria inclusive sido escolhido o melhor “Ministro da saúde do mundo”, ou alguma coisa assim(O que não é dificil, já que este cargo não existe em muitos países). Obviamente, a oposição passou a usar do fato para atacá-lo, e uma crise de dengue foi usada para atacar um candidato. O problema de se vender como tecnocrata eficiente é justamente que é possível usar qualquer falha para se atacar um candidato. Alias, apesar do cântico da experiência de Serra, as duas únicas vezes em que ele foi eleito para um cargo no Executivo foi na prefeitura e no governo de São Paulo. No primeiro caso, ele largou a prefeitura na mão de um desconhecido que se mostrou um desastre completo, no segundo caso enfrenta todo tipo de problema, de enchentes a números muito ruins na área de segurança.

Pessoalmente, não me espanta que a oponente de um candidato como este avance nas pesquisas. Espantaria se um candidato numa situação assim vencesse. Seria caso de ter que reescrever muitos livros e textos sobre política.

As primárias do barulho

Entre os estados americanos, politicamente, poucos são mais interessantes que a Pensilvânia. James Carville brincava que o estado era Pittsburgh e Pensilvânia com o Alabama no meio, mas o estado é classicamente um pedaço da Costa Nordeste na sua porção leste, e um pedaço do meiooeste americano ao oeste. O mais curioso é que nos últimos anos a porção oeste, que sempre pendeu a votar nos democratas passou a pender para os republicanos. A porção leste, em especial Filadélfia, passou pelo processo oposto.

O senador Arlen Specter é um pontochave aqui. Specter foi eleito para o Senado em 1980 como um republicano, junto com Reagan, e chegou a presidir o Comitê Judiciario, até mudar de partido ano passado, quando as pesquisas indicavam uma derrota clara para Pat Toomey nas primárias republicanas. Agora, as pesquisas indicam que Specter pode perder as primárias democratas para Joe Sestak, um veterano da Guerra no Iraque. Nada mais natural, já que Specter dependeria dos democratas, que sempre o odiaram, para vencer.

E claro, os democratas que incentivaram Specter a mudar de lado ficariam com cara de tacho. Incluindo Obama.

Se esforçando para perder

Os petistas andam tentando emplacar a chapa Aloizio Mercadante/Eduardo Suplicy no governo de São Paulo.Se você considerar que Marta Suplicy é a candidata do partido ao senado você tem apenas políticos com base na capital concorrendo em cargos em nível estadual. Desconfio de que Mercadante ainda não percebeu aonde de que ele precisa conseguir votos: na Grande São Paulo, e no interior.

E olha que a dupla atrapalhada de Serra e Goldman anda fornecendo um presentão, que são os números assustadores e desastrosos na área de segurança. Entre o eleitorado paulista, apenas obras viárias costumam contar mais pontos que segurança pública. É preciso esforço para perder uma eleição assim.

O que Elena Kagan diz sobre Obama

As duas nomeações de Barack Obama para a Suprema Corte são bastante úteis porque exemplificam de forma clara como a cabeça do presidente funciona. Primeiro, tanto Sonia Sotomayor quanto Elena Kagan compartilham de uma grande semelhança: a existência de padrinhos poderosos. Sotomayor tinha o apadrinhamento de Chuck Schumer, senador por Nova York, e de Patrick Leahy, senador por Vermont, dois senadores bastante poderosos. Já Kagan, entrou para a turma de professores de Harvard no mesmo ano que Obama se formou tinha o apadrinhamento de vários membros da Administração Clinton, aonde trabalhou. Lawrence Summers, hoje um conselheiro chave de Obama, colocou Kagan no comando da Escola de Direito quando presidia Harvard.

Obama era um professor de direito constitucional, que conhecia algumas das mentes mais brilhantes do país, mas que ao mesmo tempo é bastante suscetível à influência de caciques do Partido Democrata na escolha de juízes para o mais alto tribunal do país. O que demonstra muito bem a influência dos caciques -em especial Nancy Pelosi e Harry Reid - na sua administração. Obama, afinal, dependeu destes mesmos caciques - na época, os superdelegados - para conseguir a nomeação. O que explica os caminhos tão tortuosos que ele assume, e o fato de sua administração parecer tão convencional do ponto de vista de Washington para quem fez campanha com o tema de mudança.

Um ponto interessante é a insistência em colocar Elena Kagan - que cresceu numa família de classe média de Manhattan que estudou em Harvard e trabalhou basicamente na administração federal- como a típica gente-como-a-gente e uma “pessoa que conhecesse o mundo real”. O que, basicamente, significa que isto é o que Obama chama de gente como a gente e o mundo real, claro.

E sim, Elena Kagan sofreu bastante críticas por parte dos libertários civis, em especial por causa da defesa da idéia de que pessoas acusadas por terrorismo podem ficar detidas, indefinidamente, sem julgamento, pelas suas teorias sobre a Primeira emenda e sobre o poder do presidente. O fato dela ter sido nomeada mesmo assim diz muito sobre o que Obama pensa sobre o poder presidencial, as liberdades civis e a Primeira Emenda.

Segurança para quem precisa de segurança

Hoje, os jornais noticiaram a bizarra notícia de uma mulher que foi assaltada DENTRO de uma delegacia em Salto, interior de São Paulo. Um ponto interessante é que os jornais não citaram é de que não estamos falando de uma cidade como Itapevi ou Francisco Morato, cidades da periferia da Grande São Paulo com histórico de violência, mas de Salto, a interiorana estância turística que é na prática um subúrbio de Itu.

Só para se ter uma idéia do verdadeiro desastre que é a política de segurança pública de José Serra.

Um casamento suspeito

Coalizões são geralmente montadas com partidos com filosofias políticas muito próximas, e este não é o caso de uma coalisão tory/liberaldemocrata, mesmo com um partido conservador bastante aguado em termos ideológicos. Os liberaisdemocratas são um partido bem mais isolacionista que os tories, tanto em questões ligadas ao Oriente Médio quanto no grande monstro da eleição, a União Européia. Nas eleições, o Leviatã de Bruxelas, com suas intricadas regulamentações sobre tudo(Graças a UEE que no Brasil tem gente chama vinho que solta bolinhas de “espumante”) é a imagem perfeita para qualquer campanha populista de cunho mais conservador, o que é natural com o desemprego na casa dos oito, sete porcento e estagnação para todo mundo. E de brinde, há a questão dos imigrantes do Leste Europeu. É justamente o apoio dos liberaldemocratas a UE um dos fatores que impediu que os partidos tirassem proveito do descontamento com ambos os partidos.

A reforma eleitoral, para voto proporcional, não seria boa coisa para os tories, pois ampliaria, e muito, o poder eleitoral das grandes cidades e outros redutos de imigrantes. Também daria poder a vários partidos pequenos, incluindo o Partido Verde e o BNP, o partido que só aceitava brancos de origem européia até algum tempo atrás. David Cameron não só lidaria com um casamento improvável e pouco sustentável - Matt Frei da BBC e Keith Olbermann na MSNC levataram a bola semana passada de que a melhor coisa para Gordon Brown fazer seria de simplesmente esperar tudo desmoronar e a convocação de novas eleições. Em especial porque tanto Clegg quanto David Cameron teriam que fazer dolorosos cortes em programas sociais e aumentar impostos. Como Tim Harford lembrava na rádio BBC, a conta de nenhum dos candidatos fechava.

Não vai ser nada agradável ter que fazê-lo agora.

O especialista à disposição

Semanas atrás, o Padre Jonathan Morris reclamou no programa de rádio do Don Imus que várias redes de TV tinham convidado Sinéad O´Connor como “Consultora de Religião”. Coisas que acontecem. A Folha, por exemplo, resolveu convidar o cineasta Fernando Meirelles, pollianesco como sempre para falar sobre o Minhocão.

Trecho básico:


MEIRELLES - Pelo contrário. Acharia lindo. Hoje quem sai de Higienópolis para ir até a rua Marquês de São Vicente parece que chega a outra cidade, apesar de esses bairros estarem distantes apenas uns dez quarteirões. Sem o Minhocão e sem a linha da CPTM dividindo esta área da cidade, Higienópolis, Santa Cecília, Barra Funda e até o Bom Retiro devem se integrar. A tendência seria as áreas mais degradadas se valorizarem e ficarem mais bem cuidadas como acontece com Higienópolis. Os efeitos colaterais de uma obra como esta seriam incalculáveis. Acho que toda a região central da cidade acabaria se beneficiando também ao longo do temp

Certo, Higienopólis funcionaria como irradiador de valorização urbana, como se outros bairros distantes tanto da CPTM quanto do Minhocão não tivessem problemas similares(E não se preocupe, vamos gentrificar a área!). Mas a dúvida que me surge é o seguinte: se a linha da CPTM “divide” esta área da cidade, como diabos que uma AVENIDA EXPRESSA no lugar não iria dividir?(Avenidas expressas, em especial as marginais, que formam as linhas da divisão das zonas da cidade, em especial no caso da Zona Norte).

A escolha suprema

Segundo rumores que circulam na imprensa americana Obama anunciaria a sua escolha para a Suprema Corte amanhã: seria Elena Kagan, atualmente a Solicitor General dos Estados Unidos. o que daria uma terceira mulher(E a terceira pessoa de ascendência judia, numa corte em que não teria nenhum protestante). Kagan já presidiu a escola de direito de Harvard, aonde ela obteve críticas por barrar recrutadores do Exército na Universidade, pelo baixo número de minorias e mulheres que contratou como professores e pelo baixo número de artigos que escreveu por toda a sua vida acadêmica. Paul Campos, da Universidade do Colorado, a chamou de “folha em branco” e “da nova Harriet Miers”, em referência à nomeada por Bush rechaçada pela falta de conhecimento legal em audiências no Senado. Campos disse que leu toda a produção escrita de Kagan num único dia.

E uma escolha pouco inspiradora. e seria um chute no saco de libertários civis, em especial pelas posições de Kagan no tocante à prisão por tempo indefinido sem julgamento. Jonathan Turley, da Universidade George Washington, já escreveu que alguém tão oposto a liberdades individuais na Suprema Corte como Kagan seria a traição definitiva aos liberais de esquerda que elegeram Obama e um insulto à memória de John Paul Stevens. Glenn Greenwald também tem mantido uma linha bastante dura com relação a Kagan.

Resta a dúvida se esta base de democratas irá tomar energia para lutar contra Kagan, ou aceitar qualquer um que Obama nomeie.

(Kagan leva vantagem sobre Diane Wood, do Sétimo Circuito em Chicago, por ter 50 anos contra 59 da última).

Atualização: Jonathan Turley, Radley Balko e Glenn Greenwald fazem um bom resumo sobre esta nomeação.

Troféu Óleo de Peroba

“Queremos o Brasil em mãos limpas” FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, enquanto lançava a candidatura de ORESTES QUERCIA ao Senado.

Eleições Britânicas: o grande perdedor


Em fevereiro, Dominic Lawson, que junto com Bruce Anderson é o conservador de estimação de estimação do diário The Independent defendeu de que os tories estariam numa posição melhor se perdessem a eleição de maio. Ele tem razão: as medidas de austeridade para conter o déficit seriam extremamente impopulares, e significariam um aumento de impostos e corte de gastos, impopulares com ambos os lados.

Para David Cameron, os resultados de quinta feira deixam o quadro mais desanimador. Para o partido, restam duas opções: uma aliança com os liberaldemocratas, na prática um partido à esquerda dos trabalhistas, em especial na questão da União Européia, ou montar um governo de minoria, em que tudo que fizesse estaria a mercê dos trabalhistas e liberaldemocratas. Os liberaldemocratas exigem uma reforma eleitoral, que trocaria o voto distrital meio capega pelo voto proporcional, o que daria poder não só aos liberaldemocratas como a todo tipo de partido pequeno(Na minha sincera opinião, a melhor reforma eleitoral seria a de acabar com a monarquia e a Câmara dos Lordes). Na prática, trabalhistas e tories teriam que formar coalizões em cada governo. A negativa, óbvio, dos tories já melou o acordo.

Brown não é vencedor. Os liberaldemocratas exigiriam a cabeça de Brown para formar uma coalizão com os trabalhistas. Mas David Cameron talvez seja o maior derrotado da noite.

União Européia: O sonho acabou

Durante anos, a Turquia, um país vizinho da Grécia, tentou de todas as formas conseguir a sonhada entrada na União Européia. Chegou a implementar diversas reformas democráticas e inclusive trabalhou na maior chaga internacional do país, que era o tratamento dispensado aos curdos(Mesmo quando a invasão do Iraque colocou em alta a hipótese de um Curdistão independente). Os fundos estruturais e o livre acesso aos mercados da Europa Ocidental formavam um baú atraente. Hoje, apesar de alguns sinais de turbulência, a economia turca encontra bem mais firme que dos seus vizinhos gregos. A visão dos turcos, provavelmente, passará a ser “Cai fora, é fria”.

A União Européia foi engendrada com a fusão de algumas das principais economias industriais do planeta(Reino Unido, França e Alemanha), países com bom padrão de vida(Espanha, Suécia, Dinamarca), países mais problemáticos, mas com bom padrão de vida(Itália) e claro, países com baixa renda per capita, como Grécia, Portugal, Irlanda e os países do leste europeu. Em países de extensão continental, como Brasil, Índia, Estados Unidos, Canadá, entre outros, essas diferenças regionais nunca foram um assunto fácil. As disparidades de renda, e de poder político sempre geraram ressentimento(Víde o caso canadense, da relação entre os estados industriais dos Grande Lagos nos EUA com os estados do Sul, de mão de obra mais barata), e os governos centrais tiveram que engendrar políticas de distribuição de renda e de infraestrutura comum(E querendo ou não, as migrações internas.

Ao contrário do Canadá, Brasil, Índia, China e outros países grandes, a União Européia não tem um governo central comum, e as migrações internas seguem mais um sistema de imigração convencional, mesmo porque estamos falando de países com línguas diferentes. E claro,as indústrias da Europa Ocidental são subsidiadas até dizer chega - foi com isso que a França bloqueou planos da Renault de mover produção para o leste europeu. O euro se transformou numa bomba para os países mais pobres da UE, uma moeda excessivamente valorizada que deixa estes países pouco competitivos enquanto aumenta o custo de vida. E há ressentimento no tocante à identidade e autonomia. Nas últimas eleições britânicas, as palavras “Bruxelas” e “União Européia” foram usadas fartamente pelos partidos. Isso teve um custo gigante aos liberaldemocratas, favoráveis tanto à UE quanto à imigração.A reação dos alemães ao pacote de resgate da Grécia foi sintomático, também(Pesquisas indicavam uma maioria esmagadora dos alemães defendendo a saída da Grécia da UE)

O sonho de uma Europa unida, competindo em poderio político e econômico com os Estados Unids(Lembram-se quando uns brasileiros diziam que o motivo dos americanos terem invadido o Iraque era para salvar o dólar e impedir que o resto do mundo usasse o euro como moeda reserva?) era apenas um sonho.

Kassab e o Minhocão

Hoje, o Kassabinho anunciou a idéia da demolição do Minhocão. É um factóide sem graça, por vários motivos. O primeiro é que todo mundo pode odiar o elevado - eu particularmente odeio, mas o principalmente problema seria como fazê-lo. Começa-se com o particular problema do fluxo de carros que passa pelo elevado, que teria que ser direcionado para algum lugar. A idéia mais óbvia seria de se fazer um túnel, usando-se o método de vala, ou cutover. Mas, espera aí: o metrô já construiu uma linha embaixo do Minhocão. Qualquer túnel teria que ser escavado embaixo da linha, custando os tubos.

Há a idéia de se fazer uma avenida em cima da linha de trem, o que implicaria em gastos para a CPTM(Com bobagens como ventilação de túneis), e a linha passa bem mais ao norte do elevado(Como se usar o elevado na região entre as estações Júlio Prestes e Luz é um mistério, além do acesso à Consolação). E claro, haveria aí ainda o problema da demolição do elevado em si, que exigiria meses, em que inclusive o início da Avenida Angélica.

Por fim, o projeto trabalha com a idéia das operações urbanas. A Operação urbana mais famosa da cidade, a da Faria Lima, é um desastre. Ela incentivou a ocupação e a especulação imobiliária numa região para isso, e ainda vinculou quantidades exorbitantes de verbas para uma única região, além de engessar administrações muito posteriores a de quem aprovou a idéia. Nada mais natural que expandir o tema para a cidade inteira, inclusive para gentrificar e expulsar os pobres do centro da cidade, não é?

(E sim, muitos desses projetos para “revitalizar” - ou seja, gentrificar através do uso da especulação imobiliária com subsídio governamental, tem dado com os burros n´água. O projeto de New London, no Connecticut, que motivou uma decisão da Suprema Corte, quando a cidade quis desapropriar uma região degradada para que a Pfizer fizesse sua sede- é um exemplo.)

Ei, ei: a idéia, se aprovada, seria colocada em operação apenas em 2025. A não ser que você tenha idade bastante avançada, você não sabe o que será da sua vida nesta época. Não sei quem é mais incompetente: a imprensa ou Kassab.

Cada uma…

No site do Estado:

Na avaliação de (Nelson) Jobim, falta aos integrantes do Poder Judiciário uma formação na área econômica. “O Judiciário tem dificuldade com questões financeiras e econômicas”, resumiu, atribuindo essa dificuldade à defasagem que prejudica a compreensão do texto.

Desconfio, desconfio de que isto seja porque questões financeiras e economicas não são da alçada do Judiciário. Mas no Brasil deputado acha que é promotor e juiz, com as CPIs, e os juizes acham que são deputados…

O juiz decide o presidente

Um piadinha que costuma se circular em certos meios intelectuais americanos é a de que seu voto numa eleição só vale se você se chamar William Rehnquist, Sandra Day o´Connor, Anthony Kennedy, Clarence Thomas ou Antonin Scalia(Os cinco juízes da Suprema Corte que decidiram pelo fim da recontagem na Flórida em 2000, efetivamente elegendo Bush). No Brasil, recentemente, criou-se um cenário bem mais absurdo, aonde os juízes dos tribunais eleitorais acabam tendo muito mais poder que o eleitor. Casos de prefeituras e governos estaduais decididos por meio dos tribunais já se tornaram água corrente, e claro, não seria inimaginável um cenário em que a Presidência seria decidida desta forma, o que poderia até motivar uma pequena guerra civil.

A Legislação Eleitoral brasileira é bastante semelhante à Partilha da África em 1848 pelos europeus: ela foi pensada como uma divisão consensual de poder entre várias potências, no caso, os partidos, sem pensar nos povos dominados(No caso, o eleitor). O sistema eleitoral basicamente tenta dividir o poder consensualmente entre os partidos, e por isso que quase sempre o fator representatividade popular é deixado de lado. Tirando a bizarrice do voto por legenda, esta talvez seja a grande justificativa da bendita fidelidade partidária.

Quando Serra reclama das “transgressões de ambos os lados da campanha” na verdade ele oculta o fator principal: a de que na política, assim como no futebol, o que importa é vencer. Com ou sem uma maozinha do juiz.

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É fato que é problemático quando um incumbente faz uso do maquinário estatal para galgar a reeleição, mas isso é culpa mais do sistema eleitoral extremamente centralizado - na prática,governadores e prefeitos não precisam nem lidar com Legislativo(!) do que da falta da interferência do Judiciário no processo eleitoral.

O elefante na sala quando se fala de bandalarga

Uma coisa que volta e outra é discutida aqui no Brasil é a disponibilidade de banda larga. É uma discussão que se esquece de vários pontos: primeiro, que não é todo ruim que o governo subsidie acesso à banda larga em lugares isolados(Idéia em voga mesmo nos EUA), embora provavelmente resssuscitar a Telebrás não é a melhor idéia para isso. Segundo, por mais que eu não goste da Telefonica, Telemar e similares, há um detalhe que se esquece dentro da discussão: o sistema de televisão por cabo, que é uma das principais fontes de acesso à banda larga(Nos EUA, certamente a maior).

O sistema de TV à cabo no Brasil é basicamente uma bagunça. Quando o sistema foi introduzido no Brasil no final dos anos 80 ele foi basicamente dividido em dois grupos, por meio de concessões: a TVA, controlado pelo Grupo Abril, e a Net/Multicanal, controlado pela Globo. Note-se a pequena lambança que foi em monopolizar por meio de concessão o sistema entre os dois principais grupos de mídia no país(O pior, não se abririam novas concessões por um bom tempo). Daí, ocorreria o previsível: a Globo se valeria do seu considerável muque financeiro para estrangular a TVA, inclusive com canais e eventos esportivos exclusivos. Hoje, a Globo, que já tem jornais nas principais praças do país, o controle do maior sistema de rádio, da maior TV(O que já seria ilegal naquele paraíso socialista, os EUA) controla quase todo o mercado de TV por cabo.

O problema é que nos anos 90 TV por assinatura era um luxo bizarro, com canais excessivamente sofisticados para o gosto do brasileiro. O problema é que hoje ela também fornece acesso à internet, além de claro, ter um público ue de fato come um bom naco da audiência dos canais abertos. O acesso à TV a cabo no Brasil é rarefeito, com poucas cidades fora das capitais tendo acesso. É um mercado sem concorrência. O detalhe é que a Globo não construiu este monopólio apenas com este muque financeiro, mas com dinheiro do BNDES, que fez uma considerável injeção de capital em 2004 no braço de TV à cabo da empresa.

O ponto sobre bandalarga é bem mais profundo que a privatização ou não do sistema de telefonia, e envolve, claro, um monstro que, repito, seria dividido entre umas quatro partes pela FCC daquele paraíso socialista, os Estados Unidos da América. Infelizmente, acenar com a volta da Telebrás ou atacar a privatização é mais fácil que atacar o pequeno monstro que afeta o mercado de comunicações no Brasil.

O bipartidarismo brasileiro

Brasileiros de classe media sempre gostaram de ridicularizar o sistema bipartidário americano, como se fosse pouco democrático. A surpresa, surpresa é que ao menos em nível federal o sistema brasileira está se mostrando tão bipartidário quanto o sistema gringo. Na última eleição para presidente nos EUA tivemos seis candidatos em nível federal(Obama, McCain, Ralph Nader, Bob Barr, Cynthia McKinney e Chuck Baldwin) e não seria de se surpreender se tivermos menos candidatos no Primeiro Turno no Brasil(A pequena diferença é que sem primárias ou nada do gênero).

E claro que multipartidarismo no Congresso é de mentirinha, e só existe porque os partidos são tão centralizados que qualquer grupo com a menor divergência com o comando de um partido precisa se virar em outras bandas.

  • "Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral. Ademais, a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente, já fala de per si, porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem, como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias."

    Ortega y Gasset

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