Alguém precisa salvar o nome da BBC da BBC Brasil
Entre os fãs de notícias, a BBC virou sinônimo de qualidade, tanto na TV quanto no rádio. Por isso mesmo, é preciso algum esforço conjunto para salvar a reputação da BBC no Brasil, que está sendo colocada em risco pela tal da BBC Brasil. Os sites de notícias brasileiros estão sendo inundados com notícias sensacionalistas, de péssimo nível, com a marca da BBC.
Este texto sobre a proibição da Burka e do Niqab na Bélgica, por exemplo. O texto, além do título dúbio(Os véus que não cobrem o rosto não foram proibidos) chega a falar em deputados “flamencos”. O que seriam isto? Deputados que dançam com castanholas?
Time escolhe Lula como mais influente? Longe disto…
A imprensa brasileira tem dito que a Time teria escolhido Lula como a pessoa mais influente do mundo. Bobagem, e mentira. A revista adotou a tradição de anualmente escolher cem pessoas influentes, e na verdade o mais legal desta lista é que ela é acompanhada de um pequeno texto escrito por uma pessoa de destaque na mesma área. Michael Moore escreve sobre Lula, Sarah Palin sobre Glenn Beck, Billie Jean King sobre Serena Williams e Hillary Clinton sobre Nancy Pelosi. E sim, Shepard Fairey, do poster de Obama, escreve sobre Banksy.
Da série micos que apenas a imprensa brasileira proporciona, claro(De qualquer forma, a lista é bem legal).
O que o Brasil fez no Haiti?
Na noite de ontem, a TV americana NBC exibiu uma reportagem sobre a seleção haitiana de futebol, que está treinando no Texas, tendo recebido abrigo de uma organização de caridade de San Antonio e suprimentos de locais. Francamente, não entendo a posição brasileira sobre a ilha. O país chegou a fazer um amistoso contra a ilha, manteve soldados na ilha por um bom tempo. Agora, que era o momento de aproveitar para ganhar publicidade, o que poderia ser facilmente feito, digamos assim, abrigando a seleção local de futebol, não se sabe direito o que se faz por lá.
Bom, ponto para os texanos.
H1N1: Que a histeria comece
Hoje, passei pelo supermercado na hora do almoço. Pude ver perto do caixa uma prateleira com gel para limpar as mãos, cerca de cinco reais o vidrinho. Hoje, os jornais estão noticiando sobre uma escola em São Paulo que teria tido um “surto” - ninguém sabe direito como conseguiram diagnosticar a doença em tão pouco tempo, ninguém sabe se é a tal gripe mesmo, ninguém sabe se tem criança correndo risco de vida a ponto de justificar a notícia.
Mas o que interessa isto? O que interessa é assustar a população e provocar pânico. Afinal de contas, não só a GlaxoSmithKline precisa desovar a vacina encalhada da Europa e dos EUA em algum lugar(Sempre tem uns tontos no Terceiro Mundo para compensar o prejuízo do Primeiro) e a Roche precisa vender o Tamiflu como os supermercados precisam vender gel. Coisas que apenas a pior e mais malinformada imprensa do planeta faz por você.
Explicando a diferença entre royalties e impostos
Semana passada, uma plataforma de exploração de petróleo explodiu na costa da Lousiana, matando onze operários. Pior, iniciou vazamento de óleo,com uma mancha que na terça tinha o tamanho da cidade de São Paulo que ninguém sabe direito como fazê-lo, já que implicaria em principalmente em tapar o poço em alta profundidade. Agora, não só a pesca como cidades turísticas importantes - Nova Orleans, Biloxi no Mississipi, Mobile no Alabama e Pensacola na Flórida estão ameaçadas.
A exploração do présal no Brasil enfrentaria problemas semelhantes, já que seria uma operação em alta profundidade e nada impediria uma mancha de atingir a costa, incluindo regiões turísticas, como Cabo Frio e Guarapari. Quando surgiu a piada sobre a divisão dos royalties do présal com a Emenda Ibsen e falava-se a besteira de que a única diferença dos estados produtores com o resto era a proximidade do mar, tentava-se explicar a diferença entre impostos e royalties. Creio que com este episódio não seja preciso desenhar.
Paul Krugman e Lula: separados no nascimento?

Neste domingo, no programa This Week da ABC News, provisoriamente apresentado por Jake Tapper, na mesa redonda, George Will, Alexis Glick, Cynthia Tucker e Paul Krugman discutiam sobre a nova lei contra imigrantes do Arizona, que prevê que os policiais fossem obrigados a exigir identificação de todo mundo que eles suspeitem ser imigrantes ilegais, o que, claro, é discriminatório.
Num certo momento, Krugman começa a falar:
“Nos temos aqueles gigantescos protestos neste país sobre as supostas tendências autoritárias de que teriamos de alguma forma - dentro daquele lance de Obama/Hitler - a idéia de que o governo está se intrometendo demais nas nossas vidas.
E agora, de repente, temos basicamente o mesmo pessoal, exigindo que implementemos um sistema que vai nos transformar num destes regimes autoritários apócrifos do estrangeiro, aonde a polícia fica lhe pedindo seus papéis, certo? Um mundo em que você tem que constantemente provar quem você é. E sim, isso vai ser discriminação racial, mas quem sabe? O que eu quero dizer, algumas pessoas dizem que eu pareço com o Presidente Lula do Brasil, então posso ser abordado quando estou na minha caminhada matinal.”
Jake Tapper responde:“Eu acho que você tem uma aparência muito melhor que do Presidente do Brasil”, aos risos do resto da mesa.
Eu nunca tinha visto ninguém aqui no Brasil, talvez pela diferença do sotaque nordestinopaulista com aquele sotaque meio do Queens do Krugman. Mas não e tão distante assim. E não duvido que Jake Tapper receba emails nervosos em português do Brasil….
Uma bolha do mercado imobiliário brasileira?
Aqui na região de Jundiaí eu tenho visto imóveis por preços exorbitantes. Coisas como casas em condomínios em locais isolados no entorno da cidade por coisa na ordem de um milhão, um milhão e meio. Costumo brincar que está mais barato comprar casa em Miami e em Las Vegas, o que não chega a ser uma hiperbóle tão grande em muitos casos.
Há registro de aumentos muito grandes, tanto em casas e apartamentos usados na capital como em imóveis novos. E São Paulo sempre foi uma cidade com custos de moradia altos, e não é a região de maior efervescência imobiliária na Grande Sâo Paulo.
Olha, não sei quanto a vocês, mas isto não me parece sustentável. Nem um pouquinho. E sim, quem for investir dinheiro deveria evitar este mercado.
De capas em capas
O pessoal da Veja está feliz que a última capa da revista teria virado, digamos assim, um viral da internet. Bobinhos. A capa não virou “viral” por ser um primor de fotografia e composição gráfica, pelo contrário.
***
Outro ponto que eu achei bizarro é que a entrevista em si foi fraca: parecia alguma adolescente entrevistando os Jonas Brothers, para emprestar a linha que Andrew Sullivan famosamente usou para se referir a uma entrevista de Dick Cheney para Chris Wallace na Fox News. Mas quem diabos quisesse criticar Serra teria farto material ali, que não foi convincente e deu várias deslizadas. Como este blog, que poucos lêem, solitariamente notou, Serra chegou a acenar com a idéia de usar emendas orçamentárias para montar uma base no Congresso. Seria de se esperar que os blogs alinhados com o PT se fartassem da entrevista para atacar Serra. Infelizmente, o que se notou foi a mesma lacrimação sobre o tal do PIG, PIG para lá. PIG para cá. Numa revista que perde importância a cada minuto. Viu-se muitas fotomontagens com vampiros no lugar de Serra na capa da revista, mas nenhum debate sobre o que se leu para cá.
O que de uma certa forma comprova como estes blogs e a militância em geral não perceberam como usar a internet a seu favor, e certamente nunca irão alcançar a devida relevância(Não que este blog a tenha).
***
P.S: A tentativa de se usar o viral a favor da revista é bonitinha, mas se você tiver três dígitos de QI ela não funciona. Fotos com boa composição são fartamente utilizadas por publicitários com falta de criatividade(caso da foto de Joe Rosenthal em iwo Jima), mas não para virais. Você pode ver com bastante facilidade fotos na mesma composição da foto de Iwo Jima em capas de CD, revistas e anúncios, mas não em virais. C´mon, todo mundo na foto aparece sonolento.
E claro, a moça que criou o site não paga suas contas com ele. Por outro lado, a Veja é outra história e o fato de muita ter aproveitado a situação para chamar a revista de plagiadora para baixo - o que é injusto com quem faz as capas da Time - não é muito bom. E claro, a gente entra no problema maior, que isso dá muito mais Ibope para a revista que ela merece.
Folha e os Toyotas
A Folha de São Paulo anda anunciando que o problema de aceleração dos Toyotas Corollas, que tiveram a venda proibida em Minas Gerais, seria causado pelos tapetes. Bobagem. Em vários destes acidentes nos EUA os tapetes haviam sido retirados, e isso foi fartamente noticiado nos EUA, inclusive na criticada reconstituição do acidente por Brian Ross da ABC.
O motorista brasileiro vai achar que tirando os tapetes do carro ficaria livre do acidentes, o que não é verdade(Em nenhum momento o jornal explicou como o motorista deve proceder nestes casos)
Números, números
O Estadão andou anunciando números sobre a violência em São Paulo, e não se vê coisa boa aí. A capital registra aumentos de 14% em furtos e assaltos, e claro, os números são incompletos porque não englobam outras regiões do estado, que podem enfrentar aumentos maiores. E há exemplos anedóticos não muito melhores, como um resgate desastroso a um cerco com reféns e a uma briga campal entre policiais na capital, que correu o mundo.
Serra tem sorte porque no Brasil governadores não tem o poder de conceder indultos a presos.
***
Obviamente, não entendo como alguém responsável por números assim pode ser favorito a qualquer coisa, o que dirá a presidência.
Vencendo no grito
Os tucanos estão pedindo um inquérito sobre a pesquisa do Instituto Sensus, basicamente porque mostraria Serra com empate técnico. Isto e ridículo. O partido parece querer vencer no grito, sempre reclamando contra qualquer coisa que possa ser alegada como ilegal. Além, de claro, convenhamos, esta é uma situação orweliana.
Ainda mais que TODAS as pesquisas apresentam problemas. Todas apresentam um número baixo de indecisos, mas nenhum dos dois candidatos apresentam mais de 50% no segundo turno….
A americanização da campanha
O pessoal parece estar querendo americanizar mesmo as campanhas brasileiras.
(O vídeo acima é da campanha de Hubert Humphrey de 1968, mas o mesmo efeito seria usado contra George McGovern e contra John Kerry em 2004. É um tipo de acusação eficiente - foi a grande responsável pela derrota de Kerry, mas não sei se cola em Serra)
O Reino Unido vota: A hora e a vez de Nick Clegg
Para a maioria dos observadores(Incluindo este que vos fala), o cálculo da eleição britânica parecia simples. Gordon Brown tinha o carisma e a habilidade política de uma batata doce, o Reino Unido tinha um dos piores índices econômicos dos países desenvolvidos. Tudo parecia simples para o lider dos tories, David Cameron, assumir Downing Street. Daniel Finkelstein, do Times, dizia duas semanas atrás na BBC que os trabalhistas assumiriam o discurso do “diabo que você já conhece” e que os conservadores o de mudança. Como o público queria “mudança”, era vitória para Cameron.
Até que surge uma pedra no caminho: Nick Clegg, o líder dos liberaisdemocratas. Cameron assumiu a aposta arriscada de adotar um discurso genérico, enfatizando “mudança”, e claro, Clegg inteligentemente adotou o mesmo discurso. Como um candidato sem perspectivas de se tornar primeiroministro, Clegg esteve bem mais livre e solto que Cameron. Some isto a relativa inépcia de Cameron, enquanto que Brown se revelou uma raposa - a todo momento, no debate, ele dizia “Eu concordo com Nick”.
O pessoal do The Guardian, amável como sempre, coloca Clegg como Barack Obama. As pesquisas já colocam Clegg perto da liderança ou mesmo liderando. Para Cameron, pode ser a humilhação suprema.
A Pollyanna da Vila Madalena
A Pollyanna da Vila Madalena ataca novamente, desta vez falando sobre acupuntura:
“Uma ótima tradução do que vivo martelando aqui sobre a importância da educação é traduzido, com perfeição, por uma experiência no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, ligado à USP. Eles estão usando a acupuntura –e com sucesso– para minimizar os efeitos da quimioterapia, conseguindo efeitos também contra depressão, fadiga e insônia. O detalhamento está no www.catracalivre.com.br.
”
Obviamente, tem tudo a ver. E claro, nenhuma citação ao fato do Instituto ter recebido o nome do fundador do jornal. O melhor é aqui embaixo:
PS. E muitos leitores (muitas vezes com os insultos típicos dos ignorantes que não sabem argumentar) ainda querem que eu fique aqui, nesta coluna, poupando ataques contra quem não valoriza o mérito na educação.
Hmmm.. Bobagem. O tal mérito que o Dimenstein defende se relaciona com a rede estadual de São Paulo, que obviamente não é lugar que quem trabalha no Instituto do Câncer estudou. E não é o tal do mérito que vai mudar o quadro. Segundo, bem, as bases teóricas para dizer que o sistema de mérito que Dimenstein se refere sejam tão revolucionárias são fracas, em especial pela enfase em testes padronizados(Como Diane Ravitch, que realmente entende do assunto aponta, quando testes são usados como forma de punição tendem a sofrer trapaça, e de que claro, os desafios na vida vão além preencher o quadradinho certo em quatro)
Serra quer institucionalizar o bacon

Uma dessas revistas sensacionalistas, daquelas que ninguém leva a sério*, publicou uma entrevista com um postulante à presidência. É basicamente assustador. Vejam só isso:
E como, então, o senhor fará o jogo político? Como fará para ter uma base forte no Congresso?
Através do Orçamento. Ao contrário do que se acredita, 90% das emendas que os parlamentares apresentam são boas. E você pode inclusive orientar. Dizer, por exemplo: “Quem fizer emendas para concluir obras terá prioridade sobre os que fizerem emendas para começar obras”. Isso funciona, porque o que o parlamentar quer é aprovar a emenda e satisfazer sua base eleitoral. Não é só no Brasil que é assim, é no mundo inteiro – até nos países mais arrumadinhos.
Isto é assustador até dizer chega. Primeiro, porque, obviamente, mundo afora(Tanto nos países arrumadinhos quanto nos nem tanto) as emendas orçamentarias estão longe de serem bem vistas. Nos EUA, são um dos pontos do orçamento federal mais frequentemente criticados, tanto por grupos como o Citizens against Government Waste e senadores de ambos os partidos, como Russ Feingold(D-Wisconsin), Tom Coburn(R-Oklahoma), Claire McCaskill(D-Missouri) e Jim deMint(R-Carolina do Sul). Notem que são um senador bastante liberal(Feingold) e dois senadores bastante conservadores. Aliás, o apelido que as emendas recebem, pork, explica bastante coisa.
Não só porque membros do Congresso usam as emendas para gastos que os próprios constituintes não gastariam se tivessem que gastar diretamente(Não raro custeando aeroportos subutilizados em áreas isoladas da Pensilvânia ou pontes em locais despovoados no Alascaa, por exemplo). como são um caminho para a corrupção.
Um congressista que faça uso das emendas orçamentárias para canalizar largas somas de dinheiro na prática compra os votos dos seus constituintes, não raro doadores de campanha são beneficiados. Detalhe: quando se tem currais eleitorais no lugar de distritos esse processo tende a ser bem mais violento(No voto distrital, há maior concorrência pelos mesmos recursos), ainda mais com as disparidades regionais na hora de ser distribuir os congressistas. E claro, as emendas são utilizadas por líderes do Congresso e pelo Presidente para forçar que determinados deputados votem em projeto tal. Quando Serra diz que vai usar de emendas orçamentárias ele está basicamente fazendo duas coisas: acenando para um processo no qual ele não teria controle, e que a longo prazo certamente ficaria totalmente descontrolado(Este é um leão que não seria saciado com meio quilo de maminha), o que é insano, e institucionalizando um processo basicamente corrupto.
***
Outro ponto assustador é quando Serra diz que se preparou a vida inteira preparando-se para ser presidente. Isso aponta para uma sede de poder que certamente não combina para um presidente. Isso sem contar quando ele aponta com orgulho para o PROER. Isso deve ficar ótimo nos programas eleitorais.
______________________
*Nenhuma revista séria no mundo publicaria uma entrevista daquelas, com perguntas morônicas e fáceis.
O mico escolar da revista Época
Em fevereiro, a revista Época publicou um artigo elogiando as “rubber rooms” em Nova York, salas em que professores eram mantidos(E pagos integralmente) enquanto casós de conduta indevida e incompetência eram julgados. A revista apontava como uma solução eficiente para castigar maus profissionais.
Esta semana, a cidade anunciou a extinção destas salas, depois que elas foram retratadas com chacota na imprensa(Alguns professores administravam negócios dentro destas salas, outros dormiam). O artigo parece agora um mico muito maior que já era antes. Argh.
O que realmente justifica o voto em Dilma Rousseff

No Brasil, há uma tradição em políticos populares em elegerem seus sucessores como figuras de gabinete. Tivemos Conde no Rio, Fleury, Pitta e Kassab em Sâo Paulo. Nenhum dos nomes citados é exemplo de excelência administrativa ou política, mas nenhum dos nomes citados foi acusado de ser marionete. No caso de Kassab, mesmo se tratando de uma figura claramente inepta e incapaz para a função a imprensa estava mais preocupada com acusações estúpidas de homofobia. No entanto, a cada instante lemos acusações de que ela seria uma marionete. A figura patética que atende pelo nome de Roberto Freire chegou a acusá-la na cara dura, como se a exVJ da MTV que é a maior estrela do partido dele fosse a metáfora da independencia política.
Há uma diferença básica entre Kassab e Dilma Rousseff: o gênero. Parece um tanto mais natural quanto fácil imaginar uma mulher submetida a um homem, que claro, Dilma só pode ser manipulada por Lula. A campanha contra Dilma Rousseff tem se mantido no nível de um trem expresso de baboseiras, que vão do machismo puro e simples à estupidez geral, como as acusações de terrorismo. Tirando seu principal oponente, isso justifica o voto em Dilma Rousseff mais que qualquer coisa.
O vencedor da noite

Hoje, o Reino Unido teve seu primeiro debate para primeiro ministro. Foi um debate extremamente agressivo(Que faz com que os debates entre Ronald Reagan e Walter Mondale pareçam um encontro de moças), com Gordon Brown e David Cameron interrompendo-se a cada instante. Brown parecia menos errático que como chefe de governo, Cameron, para o bem e para o mal, era a imagem da juventude. Se por um lado demonstrava energia, do outro parecia um tanto quanto inexperiente e imaturo. Brown era bastante articulado politicamente - soltou uma frase de efeito genial(Embora gratuitamente ofensiva), quando disse que Cameron poderia retocar suas fotos nos pôsteres, mas não suas propostas. Um ressaltava experiência, outro mudança.
O grande e indisputável vencedor da noite? Nick Clegg, o líder dos Liberaisdemocratas. O Liberaisdemocratas sempre foram meio que visto como voto cacareco, mas a disputa entre dois líderes ineptos e pouco agressivo o fez brilhar. Todas as pesquisas deram a vitória no debate a Clegg. A perspectiva de um parlamento dividido, com os liberaisdemocratas como fiéis da balança, e na prática o partido mais poderoso.
Por que ninguém deveria levar a sério acrônimos como BRIC e PIGS
Gideon Rachman escreveu em fevereiro que México era o BRIC que estava faltando. Faz sentido. É um país de dimensões continentais com população na casa das centenas dos milhões, com economia promissora, apesar de problemas em termos de desenvolvimento.
E justamente porque ninguém deveria levar este tipo de sigla a sério. Elas são construídas mais por conveniência alfabética que por qualquer justificação geopolítica ou econômica.
Cada uma
A Folha de hoje saiu com a seguinte manchete da primeira página:
Obama ignora Lula e pede sanções imediatas ao Irã
Certo, certo. Como se Obama consultasse Lula sobre todas as suas decisões de política externa. Cada uma….
Shoah intelectual no Estadão
Marcos Guterman escreve no Estadão um longo, enfadonho e pedante texto sobre o Holocausto(Ou, ai, ai, Shoah) e Mahmoud Ahmadinejad. É na verdade, bem, um texto tão enfandonho e pedante que fica dificil pegar um trecho só para escrever alguma crítica, mas peguemos este ponto:
“Assim, o que faz o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao relativizar a Shoah, é muito mais do que uma provocação. É uma bem planejada estratégia de exploração da indiferença da massa ante o ´outro´, que prepara o caminho para um novo genocídio, caso seja essa a decisão do Líder.”
Bobagem. O Holocausto nunca foi um evento particularmente comovente entre os iranianos para que sua “relativização” seja exploração para a preparação do caminho de qualquer coisa, principalmente de um “novo genocídio”. E pode-se alegar que a população judaica do Irã, na casa de algumas dezenas de milhares, seja pequena e decrescente, mas daí a dizer que seria suscetível a um genocídio seria piada. Se a questão é Israel, ah, ah, ah, é dureza acreditar que o Irã, uma força militar bastante inepta(Como a guerra contra o Iraque demonstrou) seria páreo para o Exército Israelense, ou para as forças americanas entre Aviano e a Ilha de Diego Garcia.
País com respeito próprio é outra coisa
Ontem, Katie Couric, da rede americana CBS, entrevistou Nicolas Sarkozy. Sarkozy respondeu pacientemente as perguntas em francês, com um auxílio de um interprete. No final, Couric, solta: “Monsieur President, merci beaucoup. And thank you very much.” Sarkozy, responde pessoalmente, sem interprete, no inglês mais perfeito do mundo responde, rindo: “Thank you very much. You speak French very fluently. ”
País em que presidente, apesar de saber uma língua estrangeira, respeita o seu próprio país e a sua lingua nativa é outra coisa.
Sinais dos tempos
O Pulitzer é o prêmio mais cobiçado entre os cartunistas editoriais(Ou chargistas, em português menos colonizado) dos EUA. Dois nomes que respeito bastante, David Horsey(Atualmente no site do antigo Seattle Post-Intelligencer) e Michael Ramirez(Agora no Investor´s Business Daily). O prêmio foi anunciado hoje. Qual o jornal que imprime o trabalho do vencedor?
Bem, nenhum. O vencedor deste ano, Mark Fiore, publica charges animadas no site SfGate, que é a versão online do jornal San Francisco Chronicle.
A aposentadoria de um juiz

Cerimonialmente, a aposentadoria do juiz John Paul Stevens conta bastante, uma vez que como membro com maior senioridade da Suprema Corte ele é responsável por dar posse a novos juízes da Corte e ao vicepresidente. Sem ele, o papel caberia a Antonin Scalia, o polêmico juiz conservador.
****
Os rumores falam basicamente em três nomes: Elena Kagan(Solicitor general, que representa o governo federal na Suprema Corte, e ex-chefe de curso* da Escola de Direito em Harvard), Diane Wood(Juíz da Corte de Apelações do Sétimo Circuito em Chicago e professora na Universidade de Chicago) e Merrick Garland(Da Corte de Apelações do Circuito do Distrito de Columbia).
Os jornalistas tem falado mais no nome de Kagan, vista como mais moderada. Pessoalmente, colocaria minhas fichas em Diane Wood. Seria um nome mais digerível à base, e Wood é vista como uma jurista brilhante(Ela trabalha no mesmo tribunal que Frank Easterbrook e Richard Posner, dois dos juristas conservadores mais respeitados do país).
****
Conta meio bizarra: de nove membros, a corte atualmente tem seis católicos, dois judeus e único protestante, Stevens. Se Kagan(De família de judeus) for escolhida teríamos uma bizarra distribuição em que nenhum protestante apareceria na corte…
*Podem xingar pela péssima tradução de “dean”.
P.S1: O senador Orrin Hatch(R-Utah) disse que o nome de Hillary Clinton foi cogitado. Jeff Sessions(R-Alabama), o chefe dos republicanos do comitê Judiciário se negou a dizer qualquer coisa quando apresentado a lista de Wood, Garland, Kagan e Janet Napolitano no programa Meet the Press da rede NBC.
P.S2: Ward Leah Sears, da Suprema Corte Estadual da Georgia, tem sido cogitada também.
Uma candidatura verde
Candidaturas de partidos secundários tem como função principal atender um eleitorado que não se sente representado pelos candidatos principais. Por este mesmo motivo, são candidatos que se localizam no extremo ideológico. A figura clássica que vêm em mente é das eleições francesas, com os trotskistas de um lado e Le Pen do outro. Nos EUA, em que há apenas um turno, o grande papel desses candidatos é forçar os partidos principais a dar bola para a sua base: um candidato democrata sabe que se ignorar questões ambientais corre o risco de perder votos para um Ralph Nader da vida.
No Brasil, temos a figura bizarra que é uma candidata por pequeno partido que quer se posicionar mais ao centro que os dois candidatos principais. Bizarro.
*****
Nos EUA, os ambientalistas sempre tiveram um nicho por motivos pouco usuais. O primeiro é uma aliança meio bizarra com caçadores, pescadores e outros adeptos de esportes ao ar livre, o segundo são os proprietários ricos em propriedades costeiras. Em muitos estados, a preservação de parques naturais e florestas é movida em grande parte por um eleitorado receoso de perder o território de caça.
No Brasil nunca se teve esse público, e os ricos que tem propriedade na praia ligam pouco para sua preservação. E tirando Al Gore, que tem um recorde ambiental meio dúbio, os ambientalistas americanos nunca conseguiram colocar um dos seus em posição política de destaque.
Ou seja, Marina da Silva não é apenas uma candidata de um assunto só, mas de um assunto de pouca força.
Notas sobre uma campanha que não começou
- A campanha de Dilma Rousseff não percebeu, mas as três campanha presidenciais americanas que eles deveriam se inspirar e analisar não são é a campanha de Obama em 2008, mas na de Reagan em 1984, Bill Clinton em 1996 e de George Herbert Bush em 1988. A primeira e um exemplo clássico de como se aproveitar de bons indices economicos a seu favor, a segunda de se fazer um candidato pouco carismático parecê-lo como tal(Note o uso de crianças nos anúncios) e como destruir o currículo do oponente, e a segunda é a fórmula clássica para se trabalhar com um oponente acenando para cortes em qualquer parte do orçamento.
- Campanhas baseadas em “narrativas” e biografias são fracasso certo. É uma das razões pela qual desde de 1988 nenhum presidente americano foi eleito com currículo militar - os dois candidatos que o tinham, Bob Dole e John Kerry, se sentiram tentados a usar ostensivamente isto, e consequentemente suas biografias. Não deu certo. Certo, tem Lula, mas vale lembrar que a narrativa e a biografia é a unica coisa que não mudou entre as quatro eleições que Lula perdeu e as duas que ganhou.
Se os tucanos querem usar o “mensalão” para conseguir superioridade moral sobre os petistas não vão conseguir. E mesmo se não tivessem telhado de vidro isso não daria certo. Experiência? Bem, Obama derrotou candidatos com muito mais experiência que ele, assim como Clinton.
- Ninguém percebeu, mas a arma mais perigosa quando se fala em campanha pela internet não é o Twitter. São as correntes de emails que pragueiam a internet.
- A internet pode ser uma arma poderosa, mas é uma arma que os candidatos tem pouco controle. Não é Obama que escolheu usar a internet como arma de vitória, mas parte da internet que o escolheu como candidato antes dele fazê-lo.
Obama escolhe mais um membro para a Suprema Corte
John Paul Stevens, o juiz mais velho da Suprema Corte Americana(Nomeado em 1975 por Ford), com oitenta e nove, anunciou a aposentadoria. Para Obama, significa a chance de nomear um novo juiz para a Corte, e influenciar diretamente a vida americana por cerca de trinta anos. Para os liberais americanos, isso certamente significa uma corte mais à direita. Stevens era a cabeça da ala mais liberal do tribunal, e tinha uma forte capacidade de influenciar seus colegas(Foi ele que convenceu outros dois juízes a se juntarem à maioria que reafirmou Roe v. Wade, que havia proibido os estados de proibir o aborto, em 1993). Antony Kennedy, o chamado swing-vote, que decide votações apertadas, certamente caminhará mais a direita.
Para a imprensa, isso significa especular um sucessor. Considerando o histórico de Obama de nomear acadêmicos e amigos de Chicago a aposta mais fácil seria de Diane Wood, uma juíza federal e professora na Universidade de Chicago. Há pressões recentes no rumo de se escolher juízes com experiência em cargos eletivos, talvez um ex-senador ou governador, e dois membros do gabinete, Janet Napolitano e Hillary Clinton são os nomes mais cotados.
A enchente que corre o mundo
Alguns anos atrás, os paulistanos foram brindados com a cena bisonha de uma dentista, que havia tido o consultorio numa enchente, e que discutia com a então prefeita da cidade. Era uma cena bisonha e bizarra por dois motivos: pelo fato da prefeita ter de fato se metido a discutir com a moça e pelo fato da moça gritar com a prefeita como se ela tivesse controle sobre as enchentes. É fácil politizar enchentes no Brasil porque temos uma visão tão estatista no que tange a problemas públicos que é fácil e natural culpar os governantes por qualquer enchente.
Claro, mesmo lá fora a resposta dos políticos a este tipo de tragédia costuma ser crucial(Em parte por isso que o Katrina custou a carreira de Kathleen Blanco, que governava a Lousiana, mas deu pontos aos governadores do Mississipi e do Alabama, que também sofreram com o furacão). Por outro lado, enchente costuma ocorrer em qualquer lugar do mundo. É um jogo que costuma ser jogado dos dois lados, e no sinal da vibrante maturidade do sistema político brasileiro pode-se ver o atual presidente e os dois candidatos a sua sucessão sendo apelidados de “Alagão” na internet. E um jogo que depende das conveniências de quem joga: os mesmos Kassab e Serra que culpavam o PT pelas enchentes passaram a culpar São Pedro quando tudo caiu para sua responsabilidade.
Por outro lado, há um pequeno detalhe: quando a gente vê as imagens de enchentes em Boston ou em Fargo, na Dakota do Norte, a gente costuma ver casas alagadas ou gente montando barreiras com saco de areia. As cenas mais repetidas do dia sobre a tragédia no Rio era de uma favela que havia construída em cima de um aterro sanitário. Seria cômico se não fosse trágico. É um resultado natural do modo de ocupação urbana no Brasil, aonde casas se amontoam sem nenhum critério(Uma instituição urbana no Brasil, a canalização dos rios, nasce para tornar amontoações feitas aonde não deveriam ter sido feitas habitáveis).
Culpar o governo federal ou falar no repasse de verbas é ruim porque, claro, desvia o foco do problema. Além do mais, vendo os especialistas falando sobre soluções para o problema me lembrou da velha frase de Mencken de que todo problema tem uma solução fácil, simples e errada.
Média para quem não precisa de média
O jornal Estado de São Paulo anunciou que passará a utilizar médias entre pesquisas para presidente da Répública(Prática popularizada nos EUA pelo site RealClearPolitics). Bobagem. Nos EUA não só o número de institutos é maior como o número de pesquisas o é: vários institutos realizam pesquisas diárias, inclusive. E claro, vários detalhes tornam as pesquisas um trabalho mais apurado: uma cultura política mais intensa(Inclusive programas pouco apurados de rádio e na TV falam sobre isso), uma divisão por filiação partidária mais clara(Na maioria dos estados, o sujeito é obrigado a se registrar como democrata, republicano e independente ao se registrar para votar) e uma divisão mais clara por etnia. Com bases nestes dados é muito mais fácil tabular dados.
E claro, as pesquisas nos EUA se tornaram bem mais apuradas em especial a uma série de pesquisas que se mostraram erradas(Em especial na eleição presidencial de 1988, quando as pesquisas de boca de urna indicaram um empate no que se mostrou uma vitória fácil de Bush Pai). Mesmo assim, ainda são imprecisas(Vide a diferença entre o que as pesquisas indicavam para a eleição presidencial na Flórida em 2004 para os resultados finais). No Brasil, as pesquisas são ainda menos precisas, inclusive pelo hábito de se definir o voto a poucas horas de se votar, natural num país de voto obrigatório. (A pequena quantidade de indecisos que todas as pesquisas indicam a meses antes das eleições as tornam muito pouco confiáveis).
A imprensa talvez ganhasse mais analisando e trabalhando as propostas dos candidatos e as tendências e anseios da população. Mas claro, isso dá trabalho.
A Pollyanna da Vila Madalena
A Pollyanna fala sobre mais alguém que teve a bocejante idéia de fazer uma grife parodiando a Daslu, agora por parte de pacientes psiquiátricos. Ai, ele solta esta, sobre a tal grife:
“Isso é que é um bom exemplo de cidade equilibrada, na qual o espaço público serve para todos desfilarem, mostrarem seu potencial, e até ganharem seu dinheiro. “
Quem passa pela Rua Augusta e pela Santa Cecília que o diga.
O que o PPS quer com a candidatura da exVJ da MTV?
Eu juro que não entendo o que a turma do Roberto Freire quer com a campanha para governadora com a exVJ da MTV. O estado como um todo costuma ser relativamente mais conservador em temas sociais que a capital - a conta, basicamente, é fechada mais ou menos em um quarto da população na capital, um quarto na Grande São Paulo e metade no interior. E obviamente, o acesso a MTV e a ESPN Brasil é mais limitado.
Certo, no litoral, em especial na Baixada Santista, e em algumas cidades do interior o uso de bicicletas é mais comum, mas é justamente fora da capital que a defesa que Soninha faz das bicicletas soa ainda mais elitista. Afinal de contas, para muitos moradores do interior e da Grande SP o uso da bicicleta nos seus trajetos diários para resolver problemas de transporte exigiria algumas dezenas de quilômetros pela Dutra ou pela Castelo Branco.
De qualquer forma, creio que o Brasil seria muito mais são se carreira de apresentadora na MTV, colunista de jornal e comentarista sobre esportes não significassem currículo estelar para postulantes a cargos públicos. E claro, é um merecido destino para Roberto Freire, que vendeu todos os princípios do seu partido por poder. É um partido que é obrigado a concorrer todas as eleições dependendo de uma única “estrela”.
Appalachia: o triste reino do rei carvão

A Appalachia é uma cadeia de Montanhas que engloba a maior parte do interior do sul dos EUA, do Sul do estado de Nova York ao norte do Alabama. É uma região com sua identidade cultural própria, e que tem o triste marco de ser uma das regiões mais pobres dos EUA. É uma pobreza diferente: os outros marcos de pobreza dos EUA, como os conjuntos habitacionais do South Side de Chicago ou no Bronx, as reservas índigenas em Nebraska, Montana, Idaho, Dakota do Sul e do Norte, o Sul do Texas ou o Delta do Mississipi. A população da Appalachia é majoritariamente branca.
É uma população bastante religiosa, ao mesmo tempo que enfrenta problemas sociais de todo o tipo. Nessa região de montanhas íngremes de se perder de vista e cidades industrais decadentes existe apenas um rei: o carvão. Os Estados Unidos são uma espécie de Arábia Saudita do carvão, é justamente na Appalachia que boa parte desta produção se concentra. Na regiões mais facilmente identificadas com a Appalachia - Oeste da Virgínia, toda a Virgínia Ocidental e leste do Kentucky - o carvão é a única fonte de trabalho rentável. Os senhores do carvão compram todo tipo de políticos, incluindo juízes.
O método para exploração do carvão pode ser brutal, com montanhas inteiras que são dissolvidas em planíces inóspidas, incluvise contaminando a água. Mas é uma terra em que o carvão é o rei, e em que qualquer tentativa de enfrentá-lo significa enfrentar mineiros revoltados pelos seus empregos. Ontem, o rei tomou a vida de vinte e cinco mineiros, numa mina famosa por violações de segurança e pelo presidente rechaçar reporteres na TV, com ameaça de tiros.
O acidente atraiu repórteres de todo país. Mas é um pedaço do país, que mais lembra um canto do dito Terceiro Mundo, que sempre é uma dolorosa lembrança para os americanos.
Seis de maio de 2010
Uma eleição entre dois líderes sem nenhum carisma. Um deles cresceu à sombra de um antecessor consideravelmente mais popular, o outro tem origens aristocráticas e pouco carisma. Não são as eleições brasileiras.
São as eleições britânicas. Que agora já tem até data marcada.
Uma dassas revistas sensacionalistas…
Uma dessas revistas sensacionalistas, que só publica fofocas e que ninguém com três dígitos de QI leva a sério, publicou uma reportagem de capa sobre a supelotação dos aeroportos brasileiros ou coisa do gênero. Hmm… jura? De fato os aeroportos que estão lotados, de fato é um martirio viajar de avião pelo país. Confortável é andar de ônibus e metrô pelas grandes cidades brasileiras, ou ainda atravessar o país naqueles ônibus pingapinga. Claro, como se nas grandes cidades muita gente não dispendesse tanto tempo no seu trajeto diário ao trabalho como no percurso da maior parte destas viagens de avião.
(É comum se desdenhar projetos de trens de passageiros apontando-se para os preços de passagens de avião, mas a dura verdade é que a grande razão pela qual passagens de avião são tão competitivas é justamente porque empresas como a Southwest, Gol e Ryanair esmagaram todas as opções de conforto. Aliás, aliás, por isso que vez ou outra a imprensa americana noticia sobre passageiros ilhados por horas em algum terminal submetidos a uma dieta de batatinhas)
O mais bizarro é que deve ser a segunda ou terceira vez que esta mesma revista dedica uma capa ao assunto. E eu repito o que eu já escrevi aqui: avião não é ônibus. Faria mais sentido investir nas ligações por terra(tanto por trem quanto por rodovia) que ficar ampliando aeroporto indefinidamente para rotas menores que 800 km….
O Ipad
Quando foi a última vez que a Time e a Newsweek tiveram o mesmo o assunto na capa, com excepção da repetida exploração de todas as coisas sobre Obama? Quero dizer, isso teria que ser um desenvolvimento tão importante, tão vital, tão indiscutivelmente crucial que mudaria a civilização como a conhecemos.
Esse dia chegou agora, sob a forma de um produto que custa de $ 500 a $ 800 que você já deve se sentir culpado por não ter, apesar de não chegar às lojas até sábado. Do IPAD poderá vir algo que poderá a ser tão revolucionário que vamos relemebrar o seu lançamento da mesma forma como lembramos Alexander Graham Bell falando com o Sr. Watson. Ou não.
Eu não disputo por um momento que a Apple faz produtos elegantes que levantaram o nível de tecnologia. Isso é bastante evidente, como o iPod e o iPhone nos têm mostrado. Mas eu admiro ainda mais os poderes mágicos da empresa para a manipulação da mídia. Há algo sobre a Apple que faz com escritores escritores inteligentes de tecnologia caiam de joelhos. Talvez seja o segredo, a mística, o fator Steve Jobs. O IPad está começando agora o lançamento de um enorme campanha de publicidade que teria custado dezenas de milhões de dólares se a Apple tivesse que comprar todos os centímetros de coluna e tempo na televisão. E lembre-se que Steve Jobs já divulgou a coisa por volta de janeiro.
Minha opinião (não tendo a coisa em mãos): As pessoas que escrevem sobre tecnologia amam aparelhos fantasticos. Eles amam como a Apple orquestra o drama desses lançamentos. E eles abrigam um profundo desejo de que o IPad vai salvar o negócio da imprensa escrita do esquecimento, preservando assim o seu modo de vida.
As pessoas comuns, para o momento, pode conviver com um laptop e um celular, especialmente se eles têm um smartphone. Meu BlackBerry processa a maioria das minhas necessidades móveis. Eu não gosto de teclados virtuais. Então, eu ainda não estar convencido de que devo sair correndo e comprar essa tablet tentadora. Mas os mercados funcionam também com a psicologia de massa. Se seus amigos estão falando a respeito do IPAD, você eventualmente sentir também deve começar um. O que me lembra: Você não deveríamos estar em uma recessão ou alguma coisa parecida?
Pessoalmente? Desconfio que a grande razão é de os aparelhos da Apple fazem bastante sentido para pessoas que trabalham com informação. O que impressiona o Iphone/Ipod Touch é justamente o seu estrondoso poder como máquina de multimídia, o que é bastante interessante para quem trabalha com bastante filmes e conteúdo, incluindo os famigerados podcasts. E sim, a navegação pela web funciona muito para páginas de jornais, revistas e outros sites, mas não para sites de redes sociais, que são o resumo da internet para os pobres mortais.
O mesmo Kurtz levantou domingo na CNN que uma das razões provavelmente é de que jornalistas enxergam o brinquedinho como a tábua de salvação da imprensa escrita, o que cria conflitos de interesse(No mesmo programa Daniel Lyons - o reporter da Newsweek que bloga como fake Steven Jobs - admitiu que a Apple teria deixado claro para a revista que não estaria satisfeita com a contratação antes que isso ocorresse). De manhã, no Fox and Friends o âncora Clayton Morris exibia o brinquedo, Katie Couric da CBS aparecia numa foto com o dito.
Claro que incomoda um pouco as duas medidas. Bill Gates sempre foi pintado como um monstro monopolista, mas nunca restringiu o que poderia ser rodado na maioria dos seus produtos(Um dos programas mais populares para o Windows Mobile é uma versão do popular emulador de videogames Mame). Steven Jobs sempre foi visto como Moisés pelos mesmos geeks que atacam Bill. Para se instalar qualquer aplicativo no Iphone/Touch ou no Ipad é preciso se valer da App Store e do subsequente crivo da empresa, o que é uma frustração tanto para usuários quanto para desenvolvedores. É no mínimo chato ter um aparelho em que você não tem controle sobre o que pode ser instalado.
E claro, o Ipad tem a leve limitação de não se poder ampliar sua memória. Dezesseis giga pode ser um número razoável quando se leva em considerável um Iphone da vida, aonde é possivel armazenar vídeos em tamanho pequeno com alta definição devido ao tamanho da tela. Não é o caso do Ipad. Dezesseis giga e nada são a mesma coisa. Por fim, há a falta de teclado físico, o que torna qualquer digitação um tanto quanto prática(Mesmo com a AppStore isso seria realmente revolucionário com teclado físico). Infelizmente, com estas limitações, corre-se o risco de se ter uma máquina poderosa majoritariamente usada como brinquedo.
O que é que basicamente o que ocorre com o Iphone.
Hélio Schwartsman e a cabeça do eleitor
Hélio Schwartsman escreve um longo texto, sobre a psicologia do voto, no site da Folha:
Assim, sem nos dar conta, à medida que o político e seu marqueteiro vão nos fazendo pensar dentro dos “frames” por eles escolhidos, estão de algum modo sequestrando nossos sentimentos em favor de sua causa. Daí decorre que os embates políticos não se resolvem tanto no plano das propostas e ideias, mas principalmente das narrativas –que são basicamente metáforas com um conteúdo moral– que partidos e postulantes escolhem para contar suas histórias e transmitir seus valores. Idealmente, devem constituir uma história fácil de contar e de recontar e que fale diretamente ao cérebro emocional do eleitor.
Um exercício divertido é tentar aplicar esse esquema ao atual quadro brasileiro e tentar avaliar quem dispõe dos melhores elementos para compor uma narrativa. A de Lula é obviamente imbatível: o filho de “analfabetos” que veio num pau de arara do Nordeste para São Paulo, onde comeu o pão que o diabo amassou, acabou, após quatro tentativas, sendo eleito presidente e uma vez lá, sem esquecer os pobres, “deu um jeito” no Brasil.
O único problema é que Lula não é candidato. O PT vem de Dilma e o fato de ela ter Lula a seu lado é uma tremenda de uma vantagem, mas não garantia de sucesso. A narrativa de Lula é pessoal demais para ser “emprestada” a terceiros e não se confunde com a do PT.
Hmmm…. Não, não necessariamente. A histórica base de sustentação de Frank Delano Roosevelt era formada por imigrantes católicos da região norte do país com de trabalhadores rurais no Sul, ambos de renda baixa, mas FDR era um novaiorquino de origens confortáveis(ele era primo de um expresidente). John Kennedy era basicamente um playboizinho de Massachusetts metido a intelectual, mas que venceu a maior parte do Sul e outras regiões pobres do país.
Em 1988, a eleição assumiu um rumo bizarro porque a campanha de George Herbert Bush, um herdeiro rico de petróleo, acusava o candidato democrata, Michael Dukakis, filho de imigrantes gregos, de elitismo(E, deu certo). Lula não montou sua considerável base eleitoral por causa de sua narrativa ou de sua história de vida. Em 1989, 1994 e 1998 ele tinha uma “narrativa” idêntica a de hoje. Uai, porque um Lula perdeu três eleições, e outro venceu duas?
Simples. Lula percebeu que os votos não estavam na camada mais pobre e miserável da população como enxerga a esquerda, nem na dita classe média para cima, como enxerga o PSDB e o DEMO. Estava na gigantesca classe média baixa do país, o que publicitários chamam de classe C. Ele próprio admitiu que deixou de gritar nos seus discursos: o tom agressivo pode cair perfeitamente para ativistas de esquerda, não para a população em geral. Claro, o fato de Lula manter uma imagem afável para esta camada da população, além de ser o único político brasileiro que notou que discurso é uma forma de se comunicar com o eleitorado como um todo, não de esbanjar erudição, ajudam.
Mas o que dá a Lula a sua alta aprovação a este eleitorado é justamente que ele consegue vender a este público ações que este público considera eficientes. Lula criou o Lulismo ao centrar ações mais na economia que na redistribuição de renda(Há os aumentos de salário mínimo e o BolsaFamília, mas estes se escondem em cortes de impostos sobre consumo e outros programas voltados à classe média baixa). O risco para os petistas é que eles deixem de ser lulistas e retornem ao petismo, com aquele ranço meio elitista e pouco prático(Os governadores e prefeitos do PT tendem a ser lulismo. É no Congresso que o petismo ainda resiste).
As vulnerabilidades de Serra quanto de Dilma não tem a ver com narrativa. Tem a ver com política. Certo, Dilma pode sofrer muito com a associação a guerrilha, mas isso pode ser facilmente neutralizado por um estrategista de campanha esperto. O que ela teria que evitar foram os erros de Marta Suplicy, com uma imagem espalhafatosa e pouco discreta. Já Serra teria na imagem de tecnocrata pouco emotivo, além dos problemas no governo de São Paulo, como principais vulnerabilidades. Mas ambos teriam que atingir a coalisão de centro de classe média baixa que Lula construiu.
A Pollyanna da Vila Madalena
A Pollyanna da Vila Madalena ataca novamente, escrevendo o seguinte:
Como venho recebendo críticas de petistas me acusando de tucano e de tucanos me chamando de petista, fiz uma enquete irônica aqui para que se resolvessem sobre, afinal, a quem eu seria subordinado. A resposta certa: nem PT nem PSDB. Ou, talvez, PT e PSDB. Nem Dilma nem Serra ou, talvez, Dilma e Serra.
Certo, e eu sou a Salma Hayek.
Posso achar muito ruim o resultado da educação do PSDB depois de tantos anos no poder. Mas vou aplaudir quando os bons professores são premiados por seu esforço.
Não é bem assim. A história de se premiar professores pelo seu esforço é muito bonitinha no papel, mas esbarra em vários problemas, principalmente pela dificuldade de aferir isso numa profissão em que os professores não controlam todas as variáveis do seu trabalho. Há os diversos fatores externos que afetam o desempenho escolar, como familia dos discentes, entre outros. Em parte por isso que o sistema costuma ser adotado em lugares com sistema de ensino terrivelmente ruim, como Nova Jersey e em São Paulo(Por isso que os defensores do método invariavelmente apontam para programas adotados nos EUA, talvez o pior em desempenho escolar básico, não para a Coréia do Sul e para a Finlândia).
E claro, o programa de Serra não seguiu os ditames que deveriam ser considerados: é considerado injusto pelos professores, foi projetado sem a participação destes, depende excessivamente de poucos indicadores.
(E claro, a Pollyanna cita a ONG de que é dono, sem notar que isso representa mais conflito de interesse que virtude pessoal).
O Rodoanel congestionado
O projeto do Rodoanel em São Paulo sempre foi vendido como a obra mágica que resolveria os problemas de trânsito da cidade. Claro que não é tão simples: há problemas maiores de trânsito na cidade que tem uma rede de metrô menor que Santiago no Chile, incluindo a estrutura viária caótica confusa, em especial fora da região central da cidade.
Mas, o grande problema é que obras do gênero são famosas por congestionamento, da Interstate 495(O “Beltway” de Washington DC, decidamente a obra do gênero mais famosa do mundo) a Boulevard Périphérique, de Paris. E o que estrangula o trânsito viário na capital nos feriados é justamente a falta de acessos ao litoral(Há seis acessos por todo estado de São Paulo do planalto ao litoral, sendo apenas dois em pistas de alta capacidade, e considerando no cálculo aí o acesso bem precário através da Régis Bittencourt em conjunto com a Rodovia Padre Manoel da Nóbrega).
