O voto nulo
Ao meu ver, na hora de votar, só existem duas posições corretas, sem auto-enganação: ser conformista, e assumir que vota no “menos pior”, ou ser inconformista e anular o voto. Querer votar corretamente, votar conscientemente, votar no melhor e outras bobagens é querer enganar a si próprio.
Mas essa idéia de voto nulo como forma de protesto é bobagem. Voto nulo é uma questão de princÃpios, não de protesto. Mesmo que as eleições fossem anuladas(E isso, em escala nacional, seria quase que impossÃvel), os problemas continuariam os mesmos. O problema não são os candidatos, é o sistema. Votar nulo por quê quer “novos candidatos”(Seja lá quem seja), então, é o cúmulo da ingenuidade.
O voto nulo, este sim, é uma forma consciente na hora de se votar. Mas ele precisa ser feito sem grandes esperanças ou manifestos. Voto nulo é voto nulo, não voto de protesto ou de redenção.
O caseiro
O caso Francenildo ilustra bem o estado de indigência moral em que chegou o paÃs. Se por um lado o governo federal quebrou o sigilo bancário de um caseiro com intentos obscuros, surge a suspeita que boa parte das denúncias sem comprovação ou com poucas provas nos últimos meses teria testemunhos comprados. Também há uma bela hipocrisia de parte da imprensa e da classe média de reclamar da “opressão” contra o caseiro(Eu prefiro ter meu sigilo bancário quebrado que ser revistado como eu fui pela polÃcia militar do “gerente” Geraldo Alckmin), que afinal de contas, parece ter virado coisa mais violenta que uma chacina promovida por policiais militares. Isso sem contar essas correntes cretinas falando de corrupção.
Mas, Brasil, sempre Brasil.
O estranha fascÃnio pelo Tietê…
Uns quinze anos atrás, quando eu passava pela marginal Tietê, eu via aquelas dragas no rio, com todo aquele papo de quererem despoluir o Rio. Claro, no meu idealismo infantil achava lindo e maravilhoso que alguém quisesse fazer isso, mas hoje me pergunto qual a razão da fascinação da atual gestão do governo estadual e da classe média de São Paulo com relação ao lugar. Pode-se argumentar que era rota de bandeirantes em sei lá que tempo, mas a São Paulo de hoje não tem tanta relação quanto se pensa da São Paulo dos bandeirantes. É mais ao interior que o Rio ganha importância. Claro, não nego a importância de se despoluir o rio(Não que ele esteja sendo despoluÃdo, vale lembrar), nem endosso idéias cretinas como aquela de canalizar o rio para fazer avenida. Mas daà a querer maluquices como barcos, parque, peças de teatro e outras coisas como se o rio fosse o centro de São Paulo é outra coisa.
Ao que eu saiba, São Paulo não foi fundada nas beiras do rio. Claro, os bandeirantes usavam o rio como rota para chegar ao interior, mas aà ele é mais importante no interior que na capital. Por exemplo, Porto Feliz tem um parque muito bonito dedicado a isso, nas beiras do Tietê, e não me consta que essa mesma classe média que se exalte com as obras no Tietê faça peregrinações pelo local. Inclusive o governo do estado não tem grandes projetos culturais pelo local.
Até a construção das marginais nos anos 60, com exceção de alguns pontos na Lapa, Freguesia do Ó, Vila Anastácio, Bom Retiro e outros lugares, as margens, em especial por causa das enchentes, tinha densidade populacional baixa. Ainda hoje, a ocupação ao redor do rio é tÃpica de auto-estrada: hipermercados, shoppings centers, fábricas, etc. A rigor, o monumento histórico de maior importância por todo o trecho do rio em São Paulo é a Ponte das Bandeiras, inaugurada em 1942.
Só a fascinação da classe média e da putrefata inteligentsia de jornalistas de São Paulo com o automóvel para dar tanto valor assim àquele lugar.
Os anúncios da Nossa Caixa
Um dos assuntos da semana é o artigo de domingo da Folha de São Paulo que acusa o governo Geraldo Alckmin de ter usado a Nossa Caixa para beneficiar, via publicidade, aliados polÃticos, entre eles a revista Primeira Leitura. Claro, a rigor, vale lembrar que no Brasil publicações claramente partidárias não se vedam a se valer de propagandas governamentais dos mesmos governos que apoiam. A Caros Amigos já publicou bastante propaganda de estatais e governos ligados ao PT, o Hora do Povo publicou anúncios do governo de Minas quando Itamar Franco, então governador do Estado, era aclamado em todas as edições do jornal do MR-8.
Reinaldo Azevedo, da Primeira Leitura, se defende dizendo que apoiou Serra para a Presidência(Na verdade foi a mais deprimente manifestação de puxa-saquismo de uma revista por um polÃtico que eu já vi) e que Luis Carlos Mendonça de Barros não faz mais parte da revista. Por outro lado, como todo mundo vê pela Petrobrás, estatal anuncia por critérios polÃticos, dificilmente técnicos. Aliás, boa parte da propaganda das estatais é propaganda do governo. Qual seria a tal justificativa técnica para um banco com pouquissimas agências fora de São Paulo publicar numa revista de tiragem pequena de publicação nacional?
Até por quê governo que beneficia revista que elogia governo não é novidade. O que rola aqui é que o Ministério Público estaria investigando o fato do Palácio dos Bandeirantes ter pressionado banco a patrocinar eventos de aliados. Até por quê não ficou claro se os tais contratos que o artigo da Folha cita foram feitos antes ou depois da saÃda de Mendonça de Barros.
Claro que ao meu ver, o principal ponto que pesa contra Alckmin não são essas denúncias, mas sim a sua maravilhosa polÃtica de segurança. Afinal de contas, esse negócio da PolÃcia ficar atirando em avenidas como a Santo Amaro e a Radial Leste ainda pode causar tragédia(O que não se fala da morte de Gerson Mendonça de Freitas Filho, o empresário sequestrado morto pela PolÃcia Militar é que a troca de tiros, numa das avenidas mais movimentadas de São Paulo, por pouco não causou uma tragédia maior).
O futuro do Partido Republicano
Um dos grandes pontos fracos dos Democratas foi sua imagem de indecisão: para os conservadores, é um partido estatista demais, para os socialistas e progressistas um partido excessivamente ligado a corporações e guerras. Em suma, um partido que não representaria nada. No entanto, cada vez mais são os republicanos, não democratas que caminham para esse impasse. Cada vez mais os republicanos se aproximam do Partido Democrata dos anos 60, que tinham um Kennedy com a luta dos direitos civis de um lado, e do outro George Wallace, o então popular governador do Alabama, com a luta para manter a segregação racial em pé. Os democratas, afinal de contas, tem uma posição firme e clara com relação ao aborto e à imigração, os republicanos não.
A nova polÃtica de imigração é uma boa demonstração do impasse em que os republicanos se vêem. Bush cada vez mais é pressionado pela sua base, branca e evangélica, a tomar uma atitude firme com relação à imigração ilegal(Cada ala no Partido Republicano tem uma visão diferente da questão). Por outro lado, como demonstra as manifestações desse final de semana, ele corre o risco de perder o apoio da comunidade latina(Hillary Clinton, corretamente, demonstrou o apoio à ela). Em estados-chaves na eleição, como Flórida e Novo México, a quantidade de latinos é cada vez maior.
Outro problema é que para as grandes redes, disponibilidade de mão de obra ilegal imigrante é uma mão na roda. São trabalhadores esforçados, que, para não correrem o risco de serem deportados, trabalham com salários baixissÃmos, sem plano de saúde ou sindicatos. Para elas, as restrições à imigração de hoje são muito boas, mas uma restrição total teria efeitos pouco agradáveis.
A questão do aborto também corre o risco de se tornar pegajosa para os republicanos. O estado da Flórida, o mesmo da questão Terri Schiavo, por exemplo, tem uma das altas taxas de aborto do paÃs(27 a cada mil mulheres, contra vinte, na média nacional). Estados republicanos importantes como Kansas e Georgia também tem taxas de aborto relativamente altas. Como os republicanos conciliariam a necessidade de atender tanto os evangélicos mais ferverosos quanto o grande público caso a Roe vs Wade fosse derrubada(O que deixaria a decisão de se liberar o aborto aos estados)? Afinal, ao contrário do que muitos pensam os EUA não são dominados por fundamentalistas religiosos. E o casamento dos republicanos com os evangélicos pode custar caro.
Outro fator importante a se considerar: a geografia eleitoral americana cada vez mais se altera, devido à imigração e a migração interna para os estados do Golfo do México(Em especial Flórida e Texas) e para o meio-oeste do paÃs tende a alterar dramasticamente. A imagem do Sul(em especial os estados que se secederam em 1860), otando com uma certa uniformidade cada vez mais se distancia da realidade. Estados como Georgia e Texas se urbanizam numa escala cada vez, enquanto outros como Alabama ainda mantém sua economia com bases rurais. Mississipi, Carolina do Sul, Carolina do Norte e Alabama parecem se limitar ao que chamava de Deep South. A longo prazo, inclusive, essa questão tende a se diluir ainda mais com o rápido processo de urbanização naquela região banhada pelo Golfo do México.
Por mais que em poucos momentos da História o Partido Republicano tenha tido tanto poder quanto nesse momento, os prospectos para o futuro(Dez, vinte anos) não são tão promissores quanto podem parecer. E cada vez mais, o Partido Republicano que Ronald Reagan moldou, de retórica de Estado MÃnimo, parece cada vez mais distante.
Ponto para Maluf
É preciso admitir: Paulo Maluf deu uma bola dentro ao enfrentar manifestações, ovadas e tomates em JacareÃ. Ele não quis brigar com manifestantes, fazer acusações de politicagem(mesmo estando num dos principais rincões do PT de São Paulo), processar ou usar a PolÃcia Militar.
Convenhamos: por mais que em termos de administração pública Maluf tenha sido uma das piores coisas a ocorrer com São Paulo, ele foi bastante digno nessa ocasião. Bem mais que Mário Covas(que queria partir para a briga fÃsica com pessoas que se recusavam a cumprimentá-lo nas ruas), Marta Suplicy ou José Serra.
O fantasma de Nixon
Há um fantasma pairando sobre Bush: o do ex-presidente republicano Richard Nixon. Odiado pela direita pelos seus grandes gastos, odiado pela esquerda pelos motivos de sempre, Nixon é talvez o presidente americano com histórico mais apagado.
Bush rapidamente caminha para o mesmo lugar: um presidente odiado tanto pela esquerda quanto pela direita. Segundo esta última pesquisa de opinião, Bush só tem aprovação positiva em seis estados: Mississipi, Alabama, Utah, Idaho, Wyoming, Oklahoma e Nebraska. Para sentir o drama, mesmo em estados que votaram fortemente com os republicanos, como Indiana, Kansas e Alaska, Bush tem aprovação negativa. Para piorar, todos os swing-states, aqueles estados que na prática decidem a eleição americana, como Flórida, Missouri e Nevada tem uma aprovação negativa numa escala estável pelo resto do ano.(Este mapa do site Radicalruss mostra bem esse fenômeno. Perceba como as cores ficam bem parecidas em vários momentos com os mapas das eleições de Clinton em 1992 e em 1996).
Cada vez mais a esquerda o relaciona com cortes de gastos sociais, cortes de impostos para ricos, o atoleiro no Iraque. A direita o relaciona a aumento de gastos sociais, déficits públicos, o atoleiro no Iraque. A cada dia o número de crÃticos a sua gestão aumenta. William F. Buckley, da National Review, pede que Bush admita a derrota no Iraque, William Kristol, da Weekly Standard pede a cabeça de Donald Rumsfeld, como lembra Pat Buchanan. Duas das principais revistas conservadoras que apoiaram a guerra ao Iraque.
Fica a dúvida: Bush irá terminar seu mandato, ou terá o mesmo destino polÃtico de Nixon? Ainda mais considerando a possÃvel retomada do Senado e do Congresso pelos democratas em novembro. Irão os democratas esperar Bush ir se atolando aos poucos? Os republicanos irão aceitar o fardo de proteger um presidente cada vez mais impopular? Ou irão se livrar dele o mais rápido possÃvel?
Maluquice eleitoral
Segundo li no Diário de São Paulo, continua-se com a idéia maluca de usar o trecho navegável entre o Rio Tietê na Capital(Seria entre o Cebolão e Ponte da Vila Guilherme) para construir uma espécie de onibus fluvial pelo leito do rio. Em cidades litorâneas, aonde isso faz mais sentido, a idéia é pouco utilizada. A linha B(Osasco-Jurubatuba), dos trens da CPTM, corre paralela à Marginal Pinheiros e já é sub-utilizada(Em grande parte porque se leva tempo demais para se atravessar a Marginal e ainda andar para se chegar a um ponto relevante). Isso que a distância entre pontos importantes dos bairros cortados pela Linha(Avenida Faria Lima, Avenida Engenheiro Berrini) é bem menor que no caso do Tietê. Fala-se em integração com ônibus, mas isso praticamente inexiste na linha B da CPTM por Pinheiros. Com exceção das estação Pinheiros(Mesmo assim, uma integração fraca) , não existem terminais, e os passageiros muitas vezes são obrigados a andar entre as pontes para pegar um ônibus.
Aliás, considerando que boa parte da região é servida por metrô e trem, quem iria querer viajar a 25 quilômetros por hora no Rio? E cruz-credo, pensar que eu tirava sarro da idéia do Aero-trem do Levy Fidelix…
Uma bala relevante
A revelação de que Gerson Mendonça de Freitas Filho, empresário de cinquenta anos, foi morto por balas da PM durante uma tentativa de sequestro abre, ou, ao menos deveria, abrir um sério debate sobre a forma que a PolÃcia Militar de São Paulo age.
Durante um sequestro com reféns, há diversas formas da polÃcia agir. Negociar, tentar cercar os criminosos, colocar atiradores de longa distância de prontidão, esperando o melhor. Abrir fogo é a coisa mais cretina que alguém poderia fazer nesse momento. A rigor, pelo que se desenha da ação da PM nesse caso, ela não teria o menor preparo para lidar com casos minimamente mais delicados.
Isso precisa ser investigado de forma profunda, não só punindo os policiais presentes na ação, mas também as responsabilidade dos maiores comandantes da PolÃcia Militar, incluindo o Secretário de Segurança Pública e o governador do Estado.
No momento em que o comandante supremo pela PolÃcia Militar de São Paulo brinca de candidato, isso deveria ser alvo de um debate maior. Se Geraldo Alckmin não pode ser responsabilizado pelas barbaridades que sua PolÃcia Militar comete, então, do que ele pode ser responsabilizado?
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Enquanto isso, a rotina quase que diária de rebeliões nas cadeias e penitenciárias do Estado prossegue.
O Viva Rio da corrupção
Alguém inventou o que me parece ser uma versão, digamos, da corrupção, do Viva Rio. Como o Viva Rio, o tal Quero mais Brasil luta por coisas óbvias. É claro que todo mundo quer mais transparência, menos impostos e corrupção, assim como pouca gente assume ser contra a paz. E, da�
Corrupção virou uma palavra mágica. Todo mundo fala nela como se fosse a besta fera, mas poucos são capazes de propor soluções reais à ela. O fato da maioria das obras de infra-estrutura do paÃs sair duas ou três vezes mais cara que o preço orçado é ignorado por grande parte da imprensa. Brasileiro precisa entender que não adianta choramingar por idéias abstratas. É preciso propor soluções práticas e reais.
E como querer ver dignidade numa organização apoiada por Roberto Civita, Guilherme Afif Domingos e similares?
Capa do Ano
A capa aà do lado é da edição dessa quinzena da revista The American Conservative. Sensacional.
O tÃtulo(Hillary the Hawk) é justÃssimo à figura de Hillary Clinton. A caricatura, ao invés daquelas caricaturas virtuosas mas ao mesmo tempo sem graça e mortas que imperam nas capas de revistas brasileiras mostra uma Hillary psicótica e raivosa.
Definitivamente é um exemplo a ser seguido pelas editorias de arte nacionais.
Suprema Corte dos EUA: Originalistas uma ova
Esta quarta-feira, a Suprema Corte americana decidiu que policiais sem mandato não podem revistar uma casa se um dos donos não permitir(Mesmo que outro ocupante permita). Até aÃ, bem, é uma rara decisão correta da Suprema Corte, ainda mais que a Quarta Emenda é clara no tocante à questão(O direito do povo à inviolabilidade de suas pessoas, casas, papéis e haveres contra busca e apreensão arbitrárias não poderá ser infringido; e nenhum mandado será expedido a não ser mediante indÃcios de culpabilidade confirmados por juramento ou declaração, e particularmente com a descrição do local da busca e a indicação das pessoas ou coisas a serem apreendidas.)
Engraçado que a ala conservadora(Thomas, Scalia e Roberts, Alito não está participando das sessões) votou a favor das buscas. Pensei que Antonin Scalia e Clarence Thomas eram os originalistas da corte(O que ajuda a derrubar o mito que somente os juÃzes liberais “legislam”).
O Museu da Luz

Fica dÃficil entender o tal Museu da LÃngua Portuguesa que o governo do estado inaugurou na estação da Luz. Considerando que museus com acervos muito mais interessantes ficam em grande parte vazios(Como o Museu Paulista de Itu, ou mesmo aquele espaço de exposição no prédio do antigo DOPS, na estação Júlio Prestes), fica a pergunta: quem irá se dispor a pagar quatro reais para ver um museu sem nenhuma atração de peso, ao som de Arnaldo Antunes? Esse dinheiro não seria melhor gasto com outros espaços culturais pela cidade e pelo estado?
Isso sem contar que a região da Luz já concentra uma quantidade grande de salas de exposições da cidade. De um lado a Pinacoteca do Estado, a menos de quinhentos metros dali a Sala São Paulo com aquele espaço já vazio de exposições no prédio do antigo DOPS. Descendo algumas centenas de metros pela Tiradentes se têm o Museu de Arte Sacra. Algumas centenas de metros dentro do centro velho se tem o Espaço Cultural Banco do Brasil, a Bovespa(Que também realiza exposições), além daquele centro de exposições não-utilizado na Praça do Patriarca. Mais um local num raio menor que um quilômetro?
Claro, nas estações do interior, que não são mais utilizadas, museus, centros culturais e usos burocráticos se justificam na necessidade de se preservar um prédio histórico. Mas a Luz? Ela já é talvez a estação de trem mais movimentada da cidade, irá absorver um quantidade ainda maior de passageiros com a inauguração da linha 4 do metrô, além de ser um ponto natural de partida para qualquer trem de passageiros de alta velocidade que seja a ser criado. Realmente dÃficil de entender, seja do ponto de vista de transportes, seja do ponto de vista cultural.
São Paulo Uber Alles

Ontem, ao passar pela banca de jornal, eu vi na primeira página de um desses jornais populares a notÃcia de que havia ocorrido mais um arrastão de apartamentos em Moema, há não muito tempo atrás o bairro mais seguro da capital paulista. Como eu já trabalhei por lá, sempre ficou meio assustado com esse tipo de ocorrência. Imagino alguém apontando armas para ex-colegas, ou, horror dos horrores, para ex-alunos. É mais um tipo de ocorrência desse tipo. De uns anos para cá, aliás ficou comum ler sobre assaltos, sequestros e coisas do tipo em locais aonde esse tipo de ocorrência era mais rara, tanto na capital quanto no interior.
Ontem eu também tive o desprazer de mais uma vez ter que passar por revista no ônibus ao voltar para casa. O mesmo filminho de sempre: todo mundo desce, coloca as mãos na lataria dos ônibus, tem arma apontada para a cara(Isso vindo do mesmo governo que defende o desarmamento da população civil), tem que ficar ouvindo ataque histérico de policial, perde uns vinte minutos da vida esperando como um tonto no meio da rua. Algum idiota dentro da Secretaria de Segurança Pública deve achar legal roubar o tempo das pessoas e ainda arriscar a vida delas com esse tipo de brincadeira. Claro que não é.
São os dois lados da ineficiente e irresponsável do governo estadual. Contrata-se um monte de policiais militares, sem grande treinamento, com viaturas vistosas(Em serviços que poderiam ser feitos sem viatura alguma). coloca-se nos pontos mais frequentados pela classe média. A PolÃcia Civil, que investiga, claro, fica sucateada como sempre ficou(È só comparar a viaturas das duas polÃcias). Cria-se a ilusão de segurança para a classe média, até que ela sofra um assalto e perceba que a polÃcia mal-consegue apurar os crimes. E claro, esse monte de policial na rua inevitavelmente acaba fazendo merda. Merda como matar um jovem recém-graduado na faculdade de Odontologia, merda como fuzilar uma pessoa na Via Anhanguera, merda como torturar um mecânico em Itaquera. Num blatante exemplo da indigência moral que assola o paÃs, quando estourou o caso Flávio Ferreira Sant’Ana, tivemos apenas um monte de blá-blá-blá sobre o racismo histórico que assola a nação brasileira, etc(Ou seja, se Flávio fosse branco e pobre sem curso superior, teria sua morte ignorada) . Ninguém levantou a imoralidade da execução sumária de uma pessoa, seja ela assaltante ou não, ou sobre a responsabilidade da polÃtica de segurança pública adotada pelo governo durante a morte.
Ou seja, uma polÃtica de segurança cara e intrusiva, que ao mesmo tempo e incapaz de conter o avanço da criminalidade. Enquanto cada vez mais os paulistas são alvo de buscas arbitrárias por parte da polÃcia militar, os criminosos continuam cada vez mais ousados. Gerson Mendonça Freitas Filho, empresário de 50 anos, poderia estar vivo caso a polÃcia tivesse uma organização maior para lidar com esse tipo de situação delicada. Que tipo de sequestro é esse aonde a polÃcia se mete a trocar tiros com os criminosos? Isso exige paciência, organização, disposição para negociação.
É uma das razões pela qual eu não recomendo o voto em Alckmin de jeito algum.
Definindo a prefeitura do Rio numa frase
César Maia aplica o modelo de “Pão e Circo”. Só que com muito pouco pão e muito, mas muito circo.
Eleição em São Paulo
A pesquisa do Datafolha que colocaria José Serra vencendo no primeiro turno para o governo de São Paulo precisa ser vista com muito cuidado. Orestes Quércia, nos cenários sem Serra, ainda aparece na primeira posição. Quércia, há quatro anos atrás, não conseguiu se eleger senador, mesmo com uma campanha cara e ostensiva. Isso sem contar Carlos Apolinário, o insosso candidato dos evangélicos, com dez porcento dos votos. O que nos leva a acreditar que simplesmente não há nada definido ainda.
Vale lembrar que se por um lado Marta Suplicy enfrentou uma taxa de rejeição alta entre o eleitorado da capital em 2002, ela ajudou o PT a levar as prefeituras de Osasco, Suzano* e Guarulhos(Aonde o partido não tinha grande tradição).
Fica a questão também da acuracidade da pesquisa. O Datafolha costuma errar com frequência, e em São Paulo as discrepâncias na hora de votar, seja na relação capital-grande São Paulo-interior como nas diversas regiões do interior são grandes, então sabe-se lá até quanto que a pesquisa é confiável.
Ao meu ver, Serra deveria declarar em alto e bom som que é prefeito até 2008. É muito mais saudável para ele e seu partido- que não correriam o risco de ver a capital afetada por enchentes e greves de ônibus, com um Gilberto Kassab apático tentando controlar alguma coisa…
*Suzano, aliás, rincão do PFL. Além de minha cidade natal, claro.
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De qualquer forma, acho curioso Geraldo Alckmin falar tanto em “crescimento”. Ao que me lembre, São Paulo cresceu tanto sob seu governo que até perdeu a posição de segunda maior renda per capita do paÃs…
A Civilização

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A morte de Sardanapalo, Eugene Delacroix.
Uma das grandes bobagens que as pessoas insistem em dizer é que a chamada “civilização ocidental” é calcada na “liberdade”. Ora bolas, as duas civilizações(Grécia e Roma) que deram origem ao que chamam de civilização ocidental tinham a sua riqueza como fonte no uso de escravos, sendo que um era um império baseado no saque e em depredações. E os paÃses que constituem o que as pessoas chamam de “civilização ocidental” tiveram sua História marcada por guerras, despovoamentos forçados em massa, conversões forçadas, matanças generalizadas, colonialismo, escravatura.
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Na verdade, a própria construção do termo “civilização ocidental” é uma bobagem. Ninguém nunca conseguiu delimitar ao certo sobre o que seria a tal “civilização ocidental”. Se for pela religião cristã, judeus como Spinoza e Einstein e ateus como Nieszchte e Schopenhauer ficariam de fora. Se for pela cultura de origem helênica, bem, os árabes seriam ocidentais também. Os russos, por exemplo, seriam ocidentais? Tolstoi e Dostoievski, bastante influenciados por autores franceses e ingleses, seriam mérito de qual civilização? É uma construção idiota.
No Brasil há um motivo para as pessoas utilizarem tanto esse bendito termo. Patriotismo, como Schopenhauer já sabia, é coisa de gente sem grandes méritos próprios na vida que precisa de algum motivo para ter orgulho na vida. Como muitas pessoas não enxergam nenhum mérito no Brasil e como correm o risco de levar pedrada ao falarem em orgulho de serem brancos, eles precisam se arvorar nos méritos da “civilização ocidental”.(Sim, nunca soube ao certo se brasileiros seriam ocidentais ou não, mas vale lembrar que Samuel Huntington coloca os latinos fora da civilização ocidental).
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Segundo Norman Solomon, quando os americanos querem invadir um paÃs, uma das primeiras coisas que fazem é comparar seu lÃder com Hitler. Claro, geralmente falam de lÃderes de paÃses de terceiro mundo que não são ameaças regionais, quanto mais aos americanos e europeus, mas sempre se compara um Arafat ou um Saddam Hussein a Hitler. Em 1999, o Hitler da vez era Slobodan Milosevic. Uma guerra civil em que todos os lados cometiam atrocidades havia se transformado numa segunda versão do Holocausto, com os pobres muçulmanos da região sendo massacrados e perseguidos pelos malvados sérvios. Para a analogia ficar perfeita, os jornais estamparam nas primeiras páginas de um suposto campo de concentração sérvio.
E como sempre vale lembrar, Slobodan Milosevic não é açougueiro dos Balcãs. Esse tÃtulo se encaixa com muito mais precisão em Bill Clinton que em qualquer outra pessoa.
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Ah, 1999. O presidente dos Estados Unidos era um democrata, Bill Clinton, queridinho por boa parte da esquerda(Afinal, Clinton conseguiu ser acusado de estupro, ter um caso com uma subordinada e perseguir politicamente seus ex-casos e ainda assim ser uma figura popular entre as feministas). O alvo da vez era a Sérvia. A mesma esquerda que hoje reclama da invasão do Iraque aplaudia as bombas caindo sobre Belgrado, a direita estava mais preocupada com os casos interconjugais de Bill Clinton que com as mortes que ocorriam nos Balcãs.
Lembro-me de que na ocasião Frederick Forsyth, o ultra-conservador novelista inglês, reclamou de não ver razões no ataque, por não ver interesses estratégicos, como petróleo. Poucas coisas podem ser mais ilustrativas sobre a polÃtica internacional que a ação da Iuguslávia comparada à ação no Iraque. Afinal, para a esquerda, a ação na Sérvia era justificada pelo seu aspecto “humanitário”, para a direita, o Iraque se justifica pelos seus interesses “econômicos”.
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Há um motivo especial para que todo mundo execre com tanta força o regime nazista. Não é pelo fato do regime de Hitler ter sido racista(Afinal, a grande maioria das tiranias até então o foram, e os EUA mantinham leis racistas em boa parte do seu território) ou ter sido especialmente cruento(como se a colonização européia da Ãfrica e Ãsia tivesse sido um mar de rosas). É pelo fato de que praticamente não há herdeiros, com exceção de moleques neo-nazistas, do nazismo. Os alemães, ano a ano, renegam o nazismo, mostram seu envergonhamento com ele, para mostrar que não existe ligação da Alemanha de hoje com a Alemanha da década de 30.
Por outro lado, lembrar as atrocidades de Lênin, Stálin, Fidel Castro, Mao Tsé Tung traria à esquerda a cruel lembrança das mortes causadas em nome do comunismo. Ou ainda sobre os reais feitos de muitas figurinhas idolatradas por boa parte da esquerda mundial. Lembrar as mortes dos zulus e hindus pelos ingleses na colonização ou dos milhares de escravos traficados(Vale lembrar do esforço cada vez maior de parte dos conservadores de colocar a culpa da escravidão nas Américas nos africanos) nos traria a cruel lembrança de que a civilização ocidental foi marcada pela escravidão, pelo genocÃdio. Lembrar da crueldade e da matança em torno da construção do Estado de Israel derrubaria a construção do paÃs como uma espécie de redenção para os judeus. Assim como lembrar as matanças do Império Turco-Otomano e dos árabes pela história seria bastante desagradável aos nacionalistas turcos e árabes. Claro, os americanos poderiam ter que lembrar dos linchamentos de negros, do extermÃnio dos Ãndios. Parte dos americanos do Sul teria que se lembrar que os Estados Confederados da América eram escravistas imperialistas, não combatentes da liberdade. E claro, os brasileiros de classe médio, tão orgulhosos da civilização ocidental teriam que se lembrar da imensa quantidade de sangue derramado na nossa História.
Então, é mais fácil chutar um cachorro morto, um filho deserdado pelos seus pais, com filhos representados na figura patética de garotos de classe média que preenchem sua vida insultando e espancando imigrantes e judeus.
As ferrovias no Brasil
Lady Metal, da Noruega, pergunta sobre a razão de não existirem ferrovias ligando a região norte e centro-oeste com o sul do Brasil. Bem, para começar, ligações ferroviárias entre essas regiões até que existem, mas da forma mais precária possÃvel. Por exemplo, a antiga Noroeste do Brasil liga o Mato Grosso do Sul ao Porto de Santos, assim como a Ferronorte faz atualmente com o Mato Grosso, a Mogiana/EF Goiaz ligavam Goiás ao mesmo porto de Santos e a Central do Brasil/Viação Férrea do Leste Brasileiro ligavam o Rio de Janeiro ao Nordeste.
O sistema ferroviário brasileiro foi mal-projetado no final do Século XIX. Tinhamos ferrovias pequenas, muitas vezes sem relação alguma entre si, voltadas para a exportação de produtos primários. Nunca houve preocupação em unificar bitolas: inclusive, mesmas ferrovias mantinham duas bitolas diferentes. DaÃ, mesmo em distâncias curtas havia dificuldade para se transportar carga, já que havia a necessidade de se trocar de trens(Para se transportar alguma coisa, por exemplo, de Petrópolis a Sorocaba, em São Paulo, precisaria-se trocar umas três vezes de trem) . Uma das poucas vezes que de fato houve preocupação em desenvolver uma via de integração ferroviária no Brasil foi com a Estrada de Ferro Central do Brasil, que pretendia ligar o Rio de Janeiro à Belém do Pará. (Claro, vale lembrar que as grandes ferrovias intercontinentais dos Estados Unidos, como as diversas ligações da Califórnia com Chicago, ligavam portos a grandes centros urbanos. Daà serviam de corredores de exportação ao mesmo passo que integravam o paÃs. )
Outro problema é que depois da ascensão de Getúlio Vargas à presidência, houve uma diminuição gradativa no interesse na área de ferrovias. E nos anos trinta nosso sistema ferroviário ainda estava se desenvolvendo(Só nos anos 50 que conseguiriam ligar timidamente o sistema ferroviário da Bahia com o de Rio de Janeiro-Minas Gerais, e atingir Goiânia). A Companhia Paulista de Estradas de Ferro, por exemplo, na época a mais eficiente ferrovia privada do paÃs, pretendia ligar suas linhas à Goiás, partindo do extremo norte de São Paulo, mas eles nunca conseguiram concessão do governo federal para a obra. Eu pessoalmente acho uma atrocidade que Juscelino Kubitschek tenha tentado desenvolver o Centro-Oeste à força, construindo uma capital federal por lá, deixando a questão da infra-estrutura ferroviária e rodoviária em segundo plano(Vale lembrar que, enquanto em boa parte do mundo se projetava sistemas de auto-estradas, Juscelino construÃa um sistema rodoviário baseado em grande parte em estradas de terra).
Outro grande problema é geográfico: Minas Gerais, um estado chave nesse tipo de ligação no Brasil, tem uma geografia excessivamente montanhosa, que ou torna a construção de ferrovias muito cara devido a exigência de túneis e obras de terrraplanagem ou torna as ferrovias excessivamente sinuosas, e portanto, mais ineficientes(As linhas da antiga Rede Mineira de Viação eram bastante ineficientes, com um número alto de curvas, a Ferrovia do Aço custou horrores de custo). São Paulo, outro estado ainda mais importante nesse tipo de ligação também tem uma geografia bastante montanhosa na sua região sul, além de diversos rios de grande tamanho(Tietê, Paraná, Paranapanema) que dificultavam - e muito - as obras. Os rios sempre foram obstáculos para as ferrovias paulistas(Que muitas vezes tinham seu fim de linha na margem deles). A E.F Araraquara, por exemplo, queria chegar ao Mato Grosso, mas ficou parada em Rubinéia, no Rio Paraná.
De qualquer forma, vale lembrar que esse problema não é só com ferrovias. As ligações interregionais do Brasil por rodovia são terrÃveis. A BR-101 e a BR-116, que supostamente deveriam ser as nossas rodovias intercontinentais são remendos mal-construÃdos de rodovias.
A Ferronorte, que liga o Mato Grosso ao porto de Santos, com sua proposta de expansão até Santarém(Pará) e Porto Velho(Rondônia) e a Ferrovia Norte-Sul(Que ligaria Belém do Pará a Goiânia, e portanto ao Porto de Santos) fariam esse papel, mas são obras que estão com ritmo de construção extremamente lento. E claro, seriam usadas para exportação de produtos primários, não para integração regional.
BSE no Alabama
Descobriu-se um terceiro caso de BSE, o mal da vaca louca, nos Estados Unidos. Depois de um caso no estado de Washington e outro no Texas, agora é no Alabama. Segundo os oficiais sanitários seria um caso isolado, mas fica a dúvida no ar: considerando o caráter cauteloso do consumidor americano, isso será bom ou ruim para os produtores brasileiros?
Os americanos irão preferir abolir o consumo de carne, importá-la ou simplesmente ignorar a questão?
O Exército e as armas roubadas
O Exército retirou suas tropas das favelas cariocas, após dez dias, sem retomar as armas roubadas.Os militares garantiram que ainda não desistiram da operação, esperando somente novos mandatos judiciais e informações da inteligência.
Agora o Exército se vê numa encruzilhada: as ações nas favelas são cada vez mais impopulares entre os moradores desses lugares, e o risco da morte de civis poderia ter consequências graves, em especial internacionalmente. Por outro lado, encerrar a operação sem recuperar as armas seria uma humilhação violenta em ano eleitoral.
De qualquer forma, a ação é um chute nos devaneios de parte da classe média/alta carioca, que via no Exército a solução simples para os problemas do tráfico(Como dizia Mencken, todo problema tem uma solução boa, fácil e errada).
A falência da Brasil Ferrovias
A Brasil Ferrovias, que envolve a malha concedida de parte da antiga FEPASA, da malha oeste da antiga RFFSA(Antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, SR-10, Bauru) e da Ferronorte, teve sua falência decretada segunda-feira.
Considerada pessimamente administrada, a ferrovia, controlada pelo Funcef, Previ e pelo BNDES, seria vendida ainda esse ano.
Resta saber o tamanho do abacaxi que a Bunge, a ALL, entre outros potenciais compradores levarão para casa. E como que isso afeta a malha, uma das mais importantes do paÃs(Quase toda a soja vinda do Centro-Oeste usa suas linhas para chegar ao porto de Santos). Vale lembrar que as malhas das antigas RFFSA e FEPASA foram concedidas, portanto, ainda pertencentes à União. Ou, para piorar, como isso afeta uma das principais vias logÃsticas do paÃs.
Patético
Há exatos três anos atrás, tudo parecia muito simples. Invadiria-se o Iraque, derrubaria-se Saddam Hussein e começaria-se a ocupar o paÃs. Mesmo Edward Herman, um dos crÃticos mais ferozes das intervenções externas dentro da esquerda americana dizia que aquilo não seria uma guerra, mas um massacre.
Hoje, como Robert Fisk previu, os americanos estão encurralados por guerrilhas por todo paÃs, tendo a maior quantidade de baixas em uma intervenção externa desde do Vietnã, sem perspectiva de vitória, numa guerra que já teria custado entre 300 bilhões de dólares(pela perspectiva mais otimista) e dois trilhões de dólares na mais pessimista. Bush tem aprovação de 34%, a menor dos seus dois mandatos.
DaÃ, surpresa: aqueles que pregavam a guerra ao Iraque, exaltando as benesses da invasão, tanto democratas quanto republicanos e similares passam a atacar Bush e a Guerra ao Iraque. Os mesmos democratas que permitiram que a invasão ocorresse passam a criticá-la. Colunistas, sejam eles pró-democratas como Thomas Friedman(Do New York Times) sejam eles pró-republicanos como Andrew Sullivan, Francis Fukuyama e o pessoal da National Review. Traduzindo: quando a coisa parecia ser moleza, este pessoal pregava as supostas benesses da guerra ilimitada em nome da democracia, colocando a alcunha de “anti-americano” em quem discordava, fazendo as mesmas piadinhas insuportáveis dos franceses, numa exaltação violenta a Bush. Quando as coisas dão errado, bem, aà esse mesmo pessoal começa a criticar Bush.
Certas pessoas são tão patéticas…
De inovadores a vilões
Vários anos atrás, a Burger King quase foi a falência quando descobriram que boa parte da carne servida nos seus restaurantes vinha de pastos construÃdos sob florestas tropicais devastadas na Costa Rica. A Nike já sofreu danos gigantescos por causa das acusações de exploração de mão de obra infantil na Ãsia, o McDonald´s já sofreu todo tipo de acusação e assim como o Wal-Mart.
Agora, o alvo da vez são as empresas da internet, como Yahoo, Google e a Microsoft pela acusações de censura e de colaboração com o governo chinês. Se por um lado, o fechamento de sites e controle de palavras nas páginas de busca pode ser uma decisão normal dentro do aspecto da propriedade privada, entregar dados pessoais de proprietários de webmail para governos opressores é uma coisa completamente atroz(caso do Yahoo), sobre qualquer lógica. Peter Roitberg faz uma crÃtica violenta ao Yahoo no site da revista The Nation.
Considerando que empresas como o Google e o Yahoo! tem em suas imagens e marcas quase todo seu patrimônio, será que elas adotarão alguma posição com relação à questão? Até que ponto essas crÃticas afetarão o nome dessas empresas, que de inovadoras estão sendo vistas como colaboradoras da censura e da opressão? E será que estas empresas terão que escolher entre o promissor mercado chinês e a certeza de negócios mundo afora?
Afinal, a posição dessas empresas tem atraÃdo crÃticas bastante amplas da sociedade, inclusive de conservadores, o que não costuma ocorrer com empresas que já sofreram bastante com boicotes, como a Nike e a Nestlé.
Brasil…
Enquanto José Serra não se decide se larga a prefeitura ou não, surge uma greve(Ou locaute, sei lá) de advertência dos motoristas e cobradores em São Paulo. Certo, foram apenas duas horas e meia de paralisação, mas a questão é delicada numa cidade em que tanto sindicatos quanto empresários adoram fazer greves para atrair uma quantidade maior de subsÃdios por parte da prefeitura. Sem uma ação forte da prefeitura em torno da questão os tempos em que greves de ônibus eram coisa corriqueira em São Paulo podem voltar.
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Considerando a alta nas pesquisas de Lula, aliás(Vale lembrar que largar a prefeitura no meio do mandato seria um ato arriscado mesmo se estivesse na frente das pesquisas), Serra já deveria ter categoricamente desistido da candidatura. Faria um bem violento à sua imagem.
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A ocupação das favelas cariocas pelo Exército em busca dos dez fuzis FAL e da pistola roubadas cumpre um dos sonhos da classe média/alta da cidade. Fica a questão: é somente um jogo eleitoral ou o Exército pretende responder de forma dura qualquer roubo de arma em suas guarnições?
Por mais que seja aviltante um roubo desses, fica a dúvida: até que ponto os riscos provocados â população civil compensam onze armas? E até que ponto isso inibirá novas ações desse tipo?
O pesadelo de Bush
John Paul Stevens completará 86 anos em 20 de abril deste ano. É juiz da Suprema Corte Americana há mais de trinta anos, tendo sido indicado na administração Gerald Ford. Apesar da idade avançada, têm mantido uma boa saúde e uma participação ativa nos assuntos da Suprema Corte.
Duma certa forma, Stevens é a grande barreira para o controle quase que total por parte dos republicanos dos três poderes dos Estados Unidos. Caso Stevens morra ou se aposente, os republicanos teriam caminho para fazer a ala conservadora da Suprema Corte(Roberts, Scalia, Thomas e Alito) superar a ala liberal-centrista(Souter, Ginzburg, Breyer, Kennedy e Stevens). Nesse caso, o grande risco para os republicanos seriam os conflitos internos(Como, por exemplo, entre a ala mais conservadora do partido, ligada aos evangélicos, e os pro-choice).
Por outro lado, Bush está mais acuado que parece. Segundo Robert Novak, os altos representantes do Partido Republicano, em reunião em Washington, teriam decidido que era problema de Bush se livrar dos embaraços causados pela compra dos portos americanos por parte de Dubai. Cada vez mais Bush enfrenta oposição dentro do seu próprio partido.
O pior: as chances de que os democratas retomem o controle de uma ou das duas casas do Legislativo são grandes. Os dias em que Ted Kennedy liderava um Senado hostil aos republicanos podem voltar. Inclusive, caso John Paul Stevens ou outro juiz da Suprema Corte morra, Bush se veria no pesadelo se ver acuado entre a ala mais radical do seu partido de um lado, e um Senado democrata de outro na escolha do sucessor. Acuado pela opinião pública estrangeira, com Ãndices de aprovação cada vez mais baixos(34%, com indices de rejeição positivos na grande maioria dos estados), acuado dentro do próprio partido, enfrentando duas guerras coloniais sem perspectiva de vitória, Bush adentra um final de mandato particularmente cruel, para ele e para seu partido.
O mundo gira
Jacques Chirác, na Arábia Saudita, pediu a união dos dois paÃses na luta contra o fanatismo(seja lá o que for isso), ao mesmo passo que diz que as recentes reformas no paÃs dão um espÃrito democrático ao regime local, uma das piores ditaduras da região.
Francamente, parece Bush conversando com Ariel Sharon, um dos piores criminosos de guerra vivos do mundo.
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José Luis Zapatero, primeiro ministro espanhol, está levando a cabo uma rÃgida legislação anti-discriminação no trabalho, que prevê até 90 mil euros de multa para as empresas que discriminarem os empregados por causa de raça, sexo, idade ou religião. A intenção parece ser de igualar os ganhos entre ambos os sexos, apesar de ser bem sabido da dificuldade em se fazer isso(Mulheres, por causa da famÃlia, tendem a preferir ocupações que demandem menos tempo ou viagens extra-jornada de trabalho).
Resta a dúvida do tipo de reação que irá ocorrer quando a população imigrante do paÃs, em especial a de ascendência bérbere, começar a entrar com processos contra empresas por causa de discriminação.
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Segundo o site do Telegraph, um grupo de fãs do cantor Clay Aiken está querendo processar a gravadora RCA/Sony. Elas alegam que foram enganadas: atrás da imagem de galâ, o cantor teria tido uma vida pessoal totalmente fabricada, inclusive com acompanhantes pagas para acompanhá-lo por eventos. O estopim teria sido a publicação de duas revistas de relatos de homens que teriam se encontrado com Aiken por meio de sites de encontros gays.
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Um garoto de 14 anos foi acusado de ter matado uma criança de onze anos em Bury, Grande Manchester, Inglaterra, com punhaladas. Com o rÃgido controle de armas do paÃs, as facas tornaram-se os instrumentos favoritos em assassinatos.
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Peter Lewis, que ganhava um milhão de libras esterlinas dentro do HSBC em Londres, está processando a sua antiga empresa. Peter, que é gay, foi demitido depois de ter sido acusado de assédio sexual por um colega, que alegou que este o paquerava dentro da academia da empresa. Ele entrou na Justiça exigindo 5 milhões de libras em indenização, reclamando de discriminação.
Chega a ser engraçado um caso de discriminação por causa de assédio sexual…
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Um soldado escreveu ao popular site polÃtico Wonkette reclamando da censura nos computadores dp Pentágono no Iraque. Não só de sites de pornografia, mas webmails e sites polÃticos, como o próprio Wonkette.
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Laura Berg, enfermeira do Departamento de Estado para Assuntos de Veteranos em Albuquerque, Novo México, teria sido investigada pelo crime sedição por ter crticado a administração Bush numa carta a uma revista, tendo seu computador apreendido. Parece que a guerra dos republicanos contra a Constituição continua a pleno vapor…
Quem elege o presidente dos Estados Unidos

Rua do Country Club Plaza, Kansas City, estado do Missouri. Foto por Tim Samoff
Os mapas das eleições de 1992, 1996, 2000 e 2004 nos oferecem um bom panorama geográfico para as eleições americanas. Depois de três eleições(1980, 1984 e 1988) com fáceis vitórias republicanas, esses quatro anos foram marcados por disputas razoavelmente equilibradas(Talvez com exceção de 1996). Em 1992, boa parte da dianteira de Clinton foi ofuscado pela participação de Ross Perot, em 2000 a eleição foi decidida por um único estado(Flórida), assim como em 2004(Ohio).
Nas quatro eleições, os democratas venceram nos seus rincões tradicionais: a costa continental do PacÃfico(Califórnia, Oregon e Washington) , uma faixa no corredor nordeste que vai da Pensilvânia ao Maine** e o entorno da região dos Grandes Lagos(Michigan, Illinois, Minnesota, Wisconsin), com exceção de Iowa(que votou em Bush em 2004), Ohio e Indiana(Uma ilha ultra-conservadora nesta região) e o HavaÃ. Por outro lado, os republicanos conseguiram uma adesão fixa no corredor que vai da Virginia ao Mississipi(Com exceção da Georgia, que votou em Clinton em 1992) , uma grande faixa nas chamadas grandes planÃces no centro-oeste do paÃs, de Oklahoma à Dakota(Com exceção de Montana), além de Idaho, Texas, Alasca e Utah.
Quem oscilou entre Clinton e Bush foram os estados na região oeste setentrional do paÃs(Como Nevada, Colorado e Novo México), uma extensa faixa na região centro-sul do paÃs, do Missouri à Lousiana, além de claro, a Flórida. São justamente esses estados que decidem as eleições americanas.
São estados de economia rural que ao mesmo tempo concentram centros urbanos importantes com parques industriais, omo Knoxville, Jacksonville e Saint Louis. São estados ainda conservadores politicamente, com pena de morte, um forte sentimento anti-sindicatos em alguns lugares(Como o Kentucky), uso dos vouchers em estados como Ohio(Vouchers amados pelos republicanos, odiados pelos democratas) e aonde a instalação de uma loja da rede Wal-Mart pode ser exaltada ou barrada pela população.
DaÃ, quando o Tiago diz que os democratas teriam chance com um candidato ultra-esquerdista, tenho minhas dúvidas. Claro, isso depende da definição de “esquerda”. Pode-se brincar que os EUA, aonde a infra-estrutura é subsidiada, a escola pública responde por uma parcela grande dos alunos e aonde a Santa Igreja Católica é vista como um antro de pedófilos e colaboradores do nazismo na Segunda Guerra seria um paÃs esquerdista. Mas falando de forma séria, ao meu ver, o próximo presidente será mais estatista economicamente, mas conservador do ponto vista social. É praticamente certo que teremos ações mais firmes nas questões ecológicas(considere-se que mesmo evangélicos mais radicais do Partido Republicano estão pedindo medidas drásticas contra o aquecimento global), medidas protecionistas mais fortes(Num momento em que a General Motors perde seu posto de maior fabricante de automóveis para a Toyota) e um aumento de gastos na educação(embora, numa provável crise causada pelo estouro da bolha do mercado imobiliário teria efeitos imprevÃsiveis).*
E sim, provavelmente os republicanos darão um chega para lá na ala liderada por Bush e Dick Cheney. Os desentendimentos, primeiro pela tentativa da nomeação de Harriet Miers para a Suprema Corte e pela lei contra tortura proposta por John McCain, agora a questão da venda dos portos para os Emirados Àrabes e a venda de florestas para pagar pela manutenção de escolas em zonas rurais, entre outros, indicam uma forte tendência nessa questão.
PS: Adicione o Colorado, a VÃrginia, a Georgia e talvez Oklahoma aos democratas no mapa de 1996 e você teria o máximo de estados em que os democratas venceriam, sob qualquer situação.
* Mas vale lembrar, Bush é uma mistura de Reagan e Nixon em termos de gastos públicos, não um liberal estado mÃnimo.
** Ao contrário do afirmado aqui anteriormente, a Virginia Ocidental votou em Bush em 2000 e 2004.
Harry Browne(1933-2006)
Harry Browne, duas vezes candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Libertário, morreu ontem, após ter ficado preso a uma cadeira de rodas ano passado. Perde-se um grande combatente da liberdade, um inimigo ferrenho da guerra ao terror, da Guerra ao Iraque, da guerra às drogas e um grande defensor do livre-mercado.
Browne, um excelente orador, e um dos primeiros a pregar por paz quando todos pediam por vingança. Que sua alma descanse em paz, após uma vida dedicada ao combate pela liberdade.
Quem será o próximo presidente dos Estados Unidos?
Muitos comentam que a próxima nomeação dos democratas seria Al Gore ou Hillary Clinton. Acho que a realidade é dura, e os democratas tem que encarar: desde de Kennedy, todos os presidentes americanos vieram do sul ou do oeste do paÃs. Tanto Gore quanto Hillary são polÃticos de tradição nortista, cujo o discurso mais lefty-liberal não tem muita simpatia entre os eleitores mais conservadores. Além do mais, com um candidato vindo do Sul, os democratas iriam conseguir votos de estados republicanos(Uma vez que quase sempre os candidatos â presidência conseguem votos no seu estado de origem) . Bill Richardson(Do Novo México) e Mark Warner da Virginia(O que daria aos democratas treze votos no Colégio Eleitoral de um dos principais rincões republicanos do paÃs) são os maiores representantes dessa leva.
Isso, claro, se os democratas quiserem ganhar.
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Do lado dos republicanos, John McCain, apesar do seu estado de saúde, pode ser um candidato forte, apesar da rejeição entre a ala mais à direita do partido. Dick Cheney e Condoleeza Rice são relacionados demais à administração Bush, cada vez mais impopular. Por outro lado, Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York, apesar da saúde, é uma das melhores opções dos republicanos. Ele tem bom trânsito tanto entre republicanos quanto parte dos democratas, e traria aos republicanos 31 votos no Colégio Eleitoral de um dos principais rincões democratas.

