O que nem todo mundo sabe sobre o vazamento do WikiLeaks
Ao contrário de que certos espertinhos estão dizendo, não é tudo que está nos documentos vazados pelo WikiLeaks é coisa que todo mundo saberia:
As vulnerabilidades de segurança da Inteligência Americana: Se o que parece ser um analista de inteligência de vinte e dois anos consegue vazar dezenas de milhares de páginas de dados você tem um sistema vulnerável. E bastante.(Embora, segundo Adam Weinstein, na Mother Jones, esse tipo de relatório seria coisa trivial no Iraque e Afeganistão).
A disponibilidade de misseis Stinger na mão dos insurgentes: Um dos fatores que definiu a derrota dos soviéticos nos anos oitenta foi o uso desses mísseis que funcionam por detecção de calor, presente de Ronald Reagan aos grupos que formariam o Taliban. Esta seria uma vantagem estratégica e tanto para os insurgentes, já que no Afeganistão você é dependente de dois modais de transportes: helicópteros e comboios em estradas precárias (Facilmente alvo de explosivos).
Esse tipo de arma na mãos dos talibans é uma vulnerabilidade e tanto para os americanos, como apontou a correspondente de guerra Lara Logan na CBS ontem. Sejam estes mísseis restos dos anos 80, sejam estes fornecidos pelos iranianos.
O suposto apoio dos iranianos aos insurgentes: Os xiitas iranianos nunca se deram bem com os sunitas pashtuns do país vizinho, quase iniciando uma guerra em 1998. E há uma certa vontade entre círculos militares e de inteligência dos EUA com relação ao Irã(Que não perdoam pelos fatos de 1979-1981). Além do mais, qualquer armamento iraniano fornecido aos insurgentes afegãos poderia ser usado contra os iranianos.
Por outro lado, a negativa de Ahmadinejad em entrevista ao CBS Evening News de ontem soou pouco convincente: a de que os iranianos apoiariam não o Taliban, mas o povo afegão. Sei.
O WikiLeaks em si: O suspeito do vazamento, Bradley Manning, só foi capturado por causa de uma conversa por chat que ele teve com um hacker na Califórnia. Se qualquer pessoa com acesso a determinada informação pode publicá-la anonimamente e sem medo de retaliação, qualquer organização de segurança tem um problema e tanto em mãos.
Claro, o grande problema de todo o caso é justamente o que todo mundo sabe: os americanos estão perdendo no Afeganistão. As baixas nas últimas semanas giram no entorno de dezessseis mortes por semana, e como Patrick Buchanan apontou na MSNBC os mais de cento e cinquenta mil soldados da OTAN no máximo conseguem um empate com o Taliban. Sem esses soldados, Kabul seria tomada pelo Taliban em instantes. Assim como no caso dos documentos do Pentágono que vazaram em 1971, os documentos confirmam algumas das piores suspeitas sobre a guerra: um Paquistão (armado com mísseis e armas nucleares) que não é bem um aliado, pontos em que se mostra claramente a falta de efetivos.
E sim, o ponto mais importante? Se você gosta de acompanhar o noticiário internacional e não sabe uma segunda língua, você precisa urgente aprender. Depender da imprensa nacional para isso definitivamente não dá.
Wikileaks, o vazamento e o casamento esquisito
Durante a Guerra Fria, os americanos tinham no Paquistão como seu principal aliado na região do Oceano Indico, com uma Índia bastante indefinida, tendo tentado liderar um bloco de países nãoaliados. Nunca foi um casamento particularmente doce, mas funcionou. Ao menos funcionou até que a Índia se industrializasse e fosse transformada numa das mais importantes economias do planeta e aliada natural dos Estados Unidos. O casamento ficou bastante esquisito porque os paquistaneses nunca deixaram de ver a Índia como sua principal inimiga, e ficaria ainda mais esquisito depois da ascensão do Taleban, um grupo inicialmente patrocinado pelos paquistaneses. Seria com a invasão americana do Afeganistão(Possível apenas por causa da conivência dos mesmos paquistaneses) que a coisa ficaria ainda mais esquisita.
A coisa ficaria esquisita porque os membros da Al-Qaeda e do Taleban, depois da invasão do Afeganistão passariam a andar entre as fronteiras dos dois países. Os americanos não poderiam invadir o Paquistão, então passaram a adotar uma solução pior ainda: planadores militares (Pilotados por controle remoto desde de Nevada, vale lembrar, pela CIA, não pelo Exército) que logo se mostrariam bastante brutais no tocante à baixas civis. Logo, num país com armas nucleares (E mísseis de longo alcance) os americanos logo se mostrariam impopulares como a odiada Índia(Os americanos despejariam bilhões em ajuda ao país como modesto calaboca).
Os documentos que o pessoal do WikiLeaks, junto com os jornais The Guardian e The New York Times e a Der Spiegel, ajudaram a vazar, demonstra um cenário deprimente, confirmando o que todo mundo sabia: do apoio velado do Serviço Secreto paquistanês ao Taleban, inclusive fornecendo material para atentados, uma relativa frieza com relação à mortes de civis, planadores militares que perdem o link com satélite e se mostram descontrolados(!), de que o Taliban contaria com mísseis de detecção por calor, o que deixaria helicópteros particularmente vulneráveis(O pior: estes mísseis seriam sobra de material distribuído pela CIA durante a invasão soviética nos anos 80).
O momento é de estrelato não só para o pessoal do Wikileaks como para esses órgãos de imprensa antiquados, os jornais.
Aonde está Bin Laden?
Jere Van Dyk, um freelancer a serviço da CBS News, que esteve prisioneiro do Taleban no Afeganistão por quarenta e cinco dias, enquanto caçava por Bin Laden nas áreas tribais do Paquistão. Van Dyk conta agora que ele acha de que Bin Laden não está naquela região - que é o lugar que todos os serviços de segurança do mundo acredita que ele esteja - todos os líderes tribais que ele contactou acham que Bin Laden é muito grande para ser escondido numa área despovoada. Muito grande no sentido de que a comitiva e os seguranças de que Bin Laden carrega é tão grande que ele dificilmente pode ser escondido.
A Guerra contra o Afeganistão começou em grande parte como uma forma de retaliação contra os ataques de onze de setembro. Para Michael Scheur, que liderou a unidade de Bin Laden na CIA, sucesso seria unica e exclusivamente matar Osama bin Laden, Ayman al-Zawahiri, Mulá Omar e o máximo de seus soldados e correlegionários civis e dar o fora o mais rápido possível, cientes de como Mao uma vez disse, insurgências sempre se reconstroem e o processo teria que ser reiniciado. Na prática, ninguém sabe direito o que os americanos fazem num dos países mais inóspitos do planeta. Como George Will apontou uma vez, os EUA estão no país para impedir que o país se transforme num Iêmen ou numa Somália do ponto de vista de base para terrorismo. É um processo que teria que ser repetido eternamente.
Bin Laden observa um Estados Unidos substancialmente mais pobre que em 2000, observa um imenso buraco no lugar do World Trade Center, observa seu país mais odiado enfiado em duas guerras e em uma dívida pública crescente. E tanto ele quanto Al-Zawari e Omar dormem sem a menor presença de soldados de americanos. Nada mal para quem era visto como signatário de uma declaração de morte nove anos atrás.
Para os americanos, existe a certeza de que com Bin Laden vivo não há certeza de vitória. Embora, com os custos da empreitada, as baixas e o estresse para os soldados ninguém parece se preocupar mais com isso.
A mais longa guerra americana
A Guerra no Afeganistão se transformou recentemente na guerra mais longa da História Americana. É mais longa que o tempo que o país se envolveu com as duas guerras mundiais. É mais longa que a Guerra da Secessão ou da Independência. É mais longa que a Guerra do Vietnã. A História certamente se perguntará se esta guerra terá o mesmo impacto que a Guerra do Vietnã teve na psique americana, a primeira guerra em que os Estados Unidos foram efetivamente derrotados.
Para boa parte da esquerda mundial a Guerra contra a Iraque foi uma atrocidade não pela quantidade de gente que matou, mas pelas motivações que transpareciam todo o egoísmo do mundo. Era uma guerra pelo petróleo, dizia-se na época. Não é este o cenário no Afeganistão, ainda mais com o exmessias da esquerda mundial, não aquele texano lacaio das empresas de petróleo no comando. Mas potencialmente o Afeganistão sempre foi um cenário ainda pior que o Iraque, historicamente um dos pontos mais prósperos do Golfo Pérsico, com suas cadeias de montanhas intransponíveis e divisões tribais. Um pequeno detalhe pouco notado na imprensa internacional é que a quantidade de baixas estourou. Recentemente, os americanos passaram a marca das mil baixas. A quantidade semanal de baixas anda na casa das 17, algo muito próximo do Iraque nos seus piores dias.
Um dos motivos que levaram a queda do General McChrystal é que na tentativa de conter baixas de civis afegãos McChrystal estaria colocando em risco vidas de soldados. que simplesmente ficavam de mãos atadas para reagir.. O general ficou famoso por ter dito que trabalharia com o “governo em uma caixa”, com um sistema que supostamente traria um Estado a uma das regiões mais inóspitas do planeta. Os americanos assistem estupefatos soldados na TV trabalhando em todo tipo de obra social no Afeganistão, de escolas a distribuição de brinquedos, e se perguntam sobre o que estão fazendo na região.
O mais curioso? A soma das baixas da OTAN nas duas guerras já gira em torno do dobro dos mortos no 11 de setembro.
Escolhas duras
O discurso de hoje em West Point foi talvez o primeiro discurso de Obama em que ele de fato soou como presidente, não como candidato. Ele soou um tanto mais sóbrio, sem frases de efeito, e havia uma linha clara de argumentação. Mas o discurso também mostrou as dificuldades que Obama em vender a guerra. Cada parte do discurso parece que tentava vender alguma coisa a alguém: a primeira parte tentou justificar a razão pela qual o país estava no Afeganistão, citando ostensivamente o 11 de setembro. Depois, ele citou o Estatuto da OTAN, atentados ocorridos em países membros da organização, como se tentasse mandar uma mensagem a seus aliados. Por fim, citou sua preocupação com o déficit - ponto cada vez maior em pesquisas, e fonte crescente de preocupação entre democratas mais moderados no Congresso. E claro, Obama elogiou o papel dos Estados Unidos no mundo e os militares em geral, como se tentasse fugir das críticas mais comuns nesse sentido a liberais em geral. Bônus: os cadetes tirando fotos do presidente como adolescentes num show do Jonas Brothers.
Claro que há vários problemas nisso tudo. Obama ainda é um senador que não está acostumado a lidar com toda a cadeia de decisões que um presidente deve lidar: governadores, mesmo que em escala bem menor, são obrigados a fazê-lo. Talvez por isso queira agradar a todo mundo ao mesmo tempo - por isso que combinou a promessa irrealista de retirar soldados em 2011 ao mesmo tempo que anunciava uma escalada militar. Também não endereçou devidamente a questão do déficit, que exigiria medidas duras, como cortes drásticos em programas como Medicare ou aumento de impostos.
Toda a questão de apoio da OTAN é irrealista. Como Michael Ware da CNN colocou a grande parte das tropas da OTAN estão nas províncias ao norte do país, sendo que o sul, na fronteira do Paquistão, que concentra os problemas. Politicamente, fora do Reino Unido, não há apoio popular para a empreitada(Parte do problema, aliás, é que a França, disparado o principal Exército da Europa é também o mais refratário a essas aventuras militares dos americanos), e muitos dos países da OTAN não tem efetivos nem pessoal devidamente treinado para isso. E o grande problema de segurança para os europeus não está no Afeganistão, está na África. São os problemas de pirataria no corredor pelo qual trafega a maior parte dos navios que saem do continente que ocupam os jornais europeus.
Isso sem contar que tudo indica que a al-Qaeda tem concentrado suas operações não no Afeganistão, mas no Yemen, norte da África e Paquistão, local aonde provavelmente Bin Laden se encontra. É irrealista invadir todo país que conta com operações da al-Qaeda, e resta a pergunta sobre se perseguir a al-Qaeda no Afeganistão é o mais inteligente. E parte do problema é justamente como perseguir a al-Qaeda no Paquistão, um país em que os Estados Unidos não estão oficialmente em guerra. Já o Afeganistão é problemático porque como o senador nonagenário senador Robert Byrd(D-Virginia Ocidental) lembrou semanas atrás, o Afeganistão historicamente não se sustentou por uma economia própria, mas por saques e extorsão de exércitos e comerciantes da Rota da Seda que cruzavam o continente.
O grande problema para Obama é que ele pode não ter começado nem definido os rumos da guerra, mas agora é um problema dele. Talvez por ele tivesse se concentrado uma grande quantidade de soldados e conseguido prender Osama Bin Laden no Afeganistão. Por outro lado, Nixon não começou a Guerra do Vietnã, que via como mais um problema criado pelos democratas. Mas não queria que os americanos fossem derrotados militarmente pela primeira vez(Nem que ele fosse o primeiro presidente a carregar o fardo) e com o tempo a guerra de Kennedy e Jonhson se transformariam na Guerra de Nixon. Obama se vê na mesma situação, numa guerra com implicações geopolíticas bem maiores - há a rivalidade entre Índia e Paquistão, com boa parte do Exército paquistanês temendo mais uma improvável ocupação indiana do Afeganistão que o Taleban, e rivalidade entre Afeganistão e Irã, que por pouco não entraram em guerra nos anos 90.
Manter tropas no Afeganistão dentro de um prospecto limitado de vitória não é muito agradável, por outro lado, a retirada total seria uma vitória direta de Bin Laden. Algo não muito melhor. E resta a dúvida se é possível manter a segurança no Iraque sem mais de cem mil soldados americanos. No Vietnã, apesar da quantidade maior de soldados alistados a força com menor treinamento e sem insurgentes com apoio indireto da União Soviética, a economia estava em melhor forma, geograficamente não se contava com tantos riscos e não havia o risco de uma vitória direta para alguém que tinha liderado um atentado que havia matado três mil pessoas em solo americano.
E o Vietnã é Vietnã.
Ilusões de guerra, a hora da decisão

Domingo, o senador Carl Levin(D-Michigan), que preside a Comissão das Forças Armadas, apareceu no programa Face The Nation, da CBS. Levin insistia o tempo todo em basicamente dois pontos para solucionar o problema no Afeganistão: que o resto da OTAN mandasse mais tropas(Risível, por motivos óbvios) e no treinamento de afegãos para servir o Exército(Problemático, já que não raros esses afegãos pulam para outro lado e já foram registrados casos de afegãos fuzilando seus instrutores gringos). As bases americanas na Europa sempre causaram um tanto de malestar não somente entre europeus, mas também entre americanos que acham que isso é um subsídio desnecessário à defesa do continente. Por outro lado, talvez por falta de gente que acompanhe a imprensa européia as expectativas sejam irrealistas.
Ou talvez o problema seja outro. Meses atrás, Brian Williams, o âncora mais carismático e popular dos Estados Unidos, no Nightly News da NBC, apresentou uma reportagem que o correspondente Richard Engel havia feito com soldados no Afeganistão. Suas palavras soaram como um trovão: “Se você tem um garoto nesta guerra é isto que seu garoto está enfrentando”. Nas cenas seguintes se via um grupo de soldados isolados sem luz, sob fogo cruzado no meio das montanhas. Nada melhor saber o verdadeiro inferno que seu garoto está, certo? Numa situação destas, é confortável imaginar que tudo possar ser resolvido sem maiores sacrífcios, ou seja apenas com soldados nãoamericanos.(Embora tenha gente que exagere: o senador Bernie Saunders, do Vermont, no This Week with George Stephanopoulos, da ABC, disse que não somente a OTAN deveria enviar mais soldados, os chineses e russos deveriam fazer o mesmo).
Terça Obama anuncia sua nova estratégia para o Afeganistão. Os relatos indicam que ele vai de fato aumentar o número de soldados no país em trinta mil. A comparação com a relação de Nixon com Vietnã nunca foi tão apropriada.
P.S: Ao contrário do escrito anteriormente, já se confirmoui o envio de trinta mil tropas.
Custos da Guerra
De 2003 para cá se ouviu todo tipo de especulação sobre os motivos que levaram Bush a invadir o Iraque: petróleo, a idéia de que o país abandonaria o dólar como lastro da moeda, influência dos tais neocons e proteção a Israel. O que, claro, ignora o principal fator: Bush invadiu o Iraque pelos mesmos motivos motivos pelo qual uma criança tortura um inseto - tudo parecia fácil, realizável sem grandes consequências ou sacríficios. Isso ficou claro no voto de certas figurinhas a favor da guerra, como de John Edwards, John Kerry e Hillary Clinton, todos futuros candidatos presidenciais e estranhamente ídolos de muitos liberais de esquerda. (Mesmo opositores da guerra na época, como Edward Herman, achavam que ela seria um massacre).
Guerra invariavelmente significa sacríficio. Todo mundo conecta a Segunda Guerra a racionamentos de alimentos e materiais, das fábricas de automóveis que passaram a fabricar aviões de guerra, aos jardins que passaram a fornecer alimentos. A Guerra contra o Afeganistão e contra o Iraque não são tão diferentes. Claro, a população e três quartos do Senado não apoiariam a Guerra se imaginassem que a brincadeira fosse custar mais que um trilhão de dólares e mais de três mil baixas.
O problema é que a situação está bem mais complicada que parece. Obama se viu numa sinuca de bico quando Stanley McChrystal, o general que ele mesmo colocou para liderar a guerra no Afeganistão pediu por mais quarenta mil soldados. O problema é que isso colocaria praticamente todas as brigadas do Exército em combate, o que deixaria o país sem tropas para lidar com ataques externos(Ou, ainda mais provável, ter que enfrentar desastres nacional sem o auxílio da maior parte da Guarda Nacional). Guerras nesta escala exigiriam, bem, o alistamento obrigatório.
O que, seria, claro, sacrificio.
Hillary vai ao Paquistão
Desde de que assumiu o Departamento de Estado Hillary Clinton se viu um tanto quanto ofuscada. Em parte por sua experiência e falta de experiência, ela viu o Conselheiro de Segurança Nacional Jim Jones e o Secretário de Defesa Robert Gates como os principais assessores de Obama em política externa, enquanto todo o trabalho com relação às areas mais dificeis(Afeganistão/Paquistão e Oriente Médio) era feito por assessores especiais(Richard Holbrooke e George Mitchell). Foi seu marido que libertou duas jornalistas na Coréia do Norte(Enquanto Bill Richardson, o governador do Novo México, aparecia em todos os telejornais noturnos falando sobre o ocorrido, ao invés de Hillary Clinton).
No entanto, é possível ver que quando Hillary resolve colocar a mão na massa, bem, os resultados não são bons. Um dos países mais importantes para a Casa Branca é o Paquistão. É um país com capacidade não só de produzir bombas atômicas em larga escala, mas mísseis de longa distância. Também é um país vital para o esforço de guerra no Afeganistão, aonde atentados terroristas e o uso da CIA por planadores teleguiados(drones) para matar membros do Talebã dentro do Paquistão causam insatisfação popular(Os EUA foram alvos de forte manifestação depois do atentado em Peshawar). Os drones, aliás, não raro matam civis e tem legalidade um tanto contestada por juristas.
Seria de esperar que uma Secretária de Estado soubesse colocar os panos quentes. Que nada. Hillary Clinton desconversava ou dava respostas evasivas claramente irritada quando estudantes e jornalistas comparavam atentados com drones com atos de terrorismo e quando criticavam as exigências americanas para o recebimento de um forte pacote de ajuda militar. Hillary chegou a sugerir, em off, que altos oficiais paquistaneses sabiam da localização do alto comando da AlQaeda.
Considerando que muitos analistas consideram que a mesma classe média paquistanesa que apareceu nesses eventos é justamente o que impede a tomada de poder pelos fundamentalistas no país isso parece notável. Se há algo que pode ser o que o Irã representou para a presidência de Jimmy Carter este algo é o Paquistão.
(Se alguém se interessar, a visita de Hillary Clinton ao país também significa uma trégua em outro front: Greta Van Susteren, da Fox News entrevistou Hillary Clinton no país. É o primeiro oficial da Administração Obama a aparecer na emissora desde de agosto. De qualquer forma, isso não significa problemas nenhum. Não conheço entrevistadora mais café com leite).
Firme e forte
Domingo: Sequências de explosões a carrobomba em Bagdá matam 147 pessoas.
Vai de mal a pior. Parece um esforço concentrado da AlQaeda, e sempre fica a dúvida se será de fato possível uma retirada total de tropas do Iraque sem maiores percalços. As únicas formas de se locomover pelo interior do Afeganistão são por meio de helicópteros(alvos fáceis de guerrilheiros) ou por meio de comboios em estradas de terra pelas montanhas, locais perfeitos para emboscadas ou para armadilhas com explosivos. A AlQaeda parece estar firme e forte.
O Vietnã de Obama
Esta semana, Hamid Karzai, o presidente do Afeganistão, aceitou concorrer ao segundo turno com Abdullah Abdullah, após um terço dos seus votos terem sido descartados por fraude. Isso vai significar gastos adicionais com segurança e com logística de votação, no meio do inverno. Há uma certa má vontade dos americanos com Karzai. Muito se fala sobre a necessidade de um parceiro eficiente e há um consenso de que Karzai é inepto e corrupto.
Uma pesquisa da ABC mostra desaprovação popular frente á condução de Obama da guerra, que enfrenta divisões entre seus oficiais civis(Biden) e altos senadores(John Kerry, Carl Levin) de um lado e dos seus generais do outro. Os generais pedem mais soldados, a cúpula civil teme uma repetição do Vietnã. É fato que um exercito profissional e um exercito com alistamento obrigatório mas muitos soldados estão fustigados apos várias viagens ao Afeganistão e ao Iraque. Muitos ficam aleijados, outros perdem o casamento e se afogam em dívidas quando voltam. É uma guerra com um legado terrível.
Também causa rixas entre a OTAN. Os americanos querem que os europeus e os canadenses contribuam com mais soldados, que já perceberam que isso tudo é fria e querem dar o fora. Manter o mínimo de ordem no Afeganistão é complicado. E claro, uma coisa é um país no meio das montanhas no nada, outra coisa muito mais complicada é um país como o Paquistão, com armas nucleares e misseis intercontinentais. País que anda as turras com os guerrilheiros, e com territórios inteiros controlados pelo Taliban.
