Lula está em parte certo sobre a Colômbia e a Venezuela
Uma velha piada, um tanto quanto batida, dizia que a única utilidade do Exército em país Latinoamericano é a de dar porrada na população. Não é o caso do Exército Colombiano atual, que conta com vários batalhões de elite (Ao ponto do país enviar comandos ao Afeganistão) e que demonstrou disciplina e poder de fogo no combate às FARC. Aliás, para se ter uma ideia, em número de soldados, numa estimativa grosseira, a Colômbia tem quase que três vezes mais soldados que a Venezuela. Os colombianos poderiam tranquilamente lavar o chão com a Venezuela num combate direto , e em caso de uma eventual declaração de guerra você teria soldados colombianos marchando por Caracas em questão de dias, sem envolvimento de Washington. E Chávez SABE disso, o que explica suas recentes compras de armamentos e suas bravatas.
É um ponto corretíssimo criticar a política externa brasileira, que se mete aonde não deveria e ignora problemas reais. Por outro lado, a histeria da imprensa brasileira no tocante às declarações de Lula sobre o episódio não se justificam, porque por mais atrapalhadas que elas possam parecer elas tem um fundo de verdade. Chávez faz jogo psicológico com a Colômbia porque não teria chance num confronto militar direto.
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O fator Russomanno
Durante o período em que Serra foi governador, adotou-se uma postura de uma certa forma oposta no tocante a segurança pública de Alckmin. Havia uma presença menos ostensiva da rua, e ao invés do governo ostentar os mortos pela Polícia Militar na TV tentava punir de forma rigorosa os policiais tanto envolvidos como nem tanto envolvidos em casos famosos de mortes(Embora que esquadrões da morte tenham perdurado). Isso enquanto os números na área de segurança sofriam bastante. Ou seja, abriu-se um flanco gigante à direita de Serra que tornava tanto ele quanto Serra bastante vulneráveis. Mercadante poderia atacar apartir deste setor se tivesse o Deputado Estadual Major Olímpio de vice. Sem esta opção, o trabalho fica mais dificil.
Por outro lado, a entrada do Deputado Celso Russomanno tem o potencial de mudar completamente o jogo. Não só porque ao contrário de Mercadante ele pode atacar com bastante facilidade Alckmin pela direita como numa sequência de elitistas completamente bocejantes oriundos da capital Russomano é um autêntico populista de cunho conservador, como cai no gosto paulista como uma luva. No verdadeiro pesadelo que se transformou a campanha de José Serra ele correria o risco de ver um Geraldo Alckmin encurralado por todos os lados, e fugindo da única forma possível: competindo contra a atual administração do estado.
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O que nem todo mundo sabe sobre o vazamento do WikiLeaks
Ao contrário de que certos espertinhos estão dizendo, não é tudo que está nos documentos vazados pelo WikiLeaks é coisa que todo mundo saberia:
As vulnerabilidades de segurança da Inteligência Americana: Se o que parece ser um analista de inteligência de vinte e dois anos consegue vazar dezenas de milhares de páginas de dados você tem um sistema vulnerável. E bastante.(Embora, segundo Adam Weinstein, na Mother Jones, esse tipo de relatório seria coisa trivial no Iraque e Afeganistão).
A disponibilidade de misseis Stinger na mão dos insurgentes: Um dos fatores que definiu a derrota dos soviéticos nos anos oitenta foi o uso desses mísseis que funcionam por detecção de calor, presente de Ronald Reagan aos grupos que formariam o Taliban. Esta seria uma vantagem estratégica e tanto para os insurgentes, já que no Afeganistão você é dependente de dois modais de transportes: helicópteros e comboios em estradas precárias (Facilmente alvo de explosivos).
Esse tipo de arma na mãos dos talibans é uma vulnerabilidade e tanto para os americanos, como apontou a correspondente de guerra Lara Logan na CBS ontem. Sejam estes mísseis restos dos anos 80, sejam estes fornecidos pelos iranianos.
O suposto apoio dos iranianos aos insurgentes: Os xiitas iranianos nunca se deram bem com os sunitas pashtuns do país vizinho, quase iniciando uma guerra em 1998. E há uma certa vontade entre círculos militares e de inteligência dos EUA com relação ao Irã(Que não perdoam pelos fatos de 1979-1981). Além do mais, qualquer armamento iraniano fornecido aos insurgentes afegãos poderia ser usado contra os iranianos.
Por outro lado, a negativa de Ahmadinejad em entrevista ao CBS Evening News de ontem soou pouco convincente: a de que os iranianos apoiariam não o Taliban, mas o povo afegão. Sei.
O WikiLeaks em si: O suspeito do vazamento, Bradley Manning, só foi capturado por causa de uma conversa por chat que ele teve com um hacker na Califórnia. Se qualquer pessoa com acesso a determinada informação pode publicá-la anonimamente e sem medo de retaliação, qualquer organização de segurança tem um problema e tanto em mãos.
Claro, o grande problema de todo o caso é justamente o que todo mundo sabe: os americanos estão perdendo no Afeganistão. As baixas nas últimas semanas giram no entorno de dezessseis mortes por semana, e como Patrick Buchanan apontou na MSNBC os mais de cento e cinquenta mil soldados da OTAN no máximo conseguem um empate com o Taliban. Sem esses soldados, Kabul seria tomada pelo Taliban em instantes. Assim como no caso dos documentos do Pentágono que vazaram em 1971, os documentos confirmam algumas das piores suspeitas sobre a guerra: um Paquistão (armado com mísseis e armas nucleares) que não é bem um aliado, pontos em que se mostra claramente a falta de efetivos.
E sim, o ponto mais importante? Se você gosta de acompanhar o noticiário internacional e não sabe uma segunda língua, você precisa urgente aprender. Depender da imprensa nacional para isso definitivamente não dá.
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Wikileaks, o vazamento e o casamento esquisito
Durante a Guerra Fria, os americanos tinham no Paquistão como seu principal aliado na região do Oceano Indico, com uma Índia bastante indefinida, tendo tentado liderar um bloco de países nãoaliados. Nunca foi um casamento particularmente doce, mas funcionou. Ao menos funcionou até que a Índia se industrializasse e fosse transformada numa das mais importantes economias do planeta e aliada natural dos Estados Unidos. O casamento ficou bastante esquisito porque os paquistaneses nunca deixaram de ver a Índia como sua principal inimiga, e ficaria ainda mais esquisito depois da ascensão do Taleban, um grupo inicialmente patrocinado pelos paquistaneses. Seria com a invasão americana do Afeganistão(Possível apenas por causa da conivência dos mesmos paquistaneses) que a coisa ficaria ainda mais esquisita.
A coisa ficaria esquisita porque os membros da Al-Qaeda e do Taleban, depois da invasão do Afeganistão passariam a andar entre as fronteiras dos dois países. Os americanos não poderiam invadir o Paquistão, então passaram a adotar uma solução pior ainda: planadores militares (Pilotados por controle remoto desde de Nevada, vale lembrar, pela CIA, não pelo Exército) que logo se mostrariam bastante brutais no tocante à baixas civis. Logo, num país com armas nucleares (E mísseis de longo alcance) os americanos logo se mostrariam impopulares como a odiada Índia(Os americanos despejariam bilhões em ajuda ao país como modesto calaboca).
Os documentos que o pessoal do WikiLeaks, junto com os jornais The Guardian e The New York Times e a Der Spiegel, ajudaram a vazar, demonstra um cenário deprimente, confirmando o que todo mundo sabia: do apoio velado do Serviço Secreto paquistanês ao Taleban, inclusive fornecendo material para atentados, uma relativa frieza com relação à mortes de civis, planadores militares que perdem o link com satélite e se mostram descontrolados(!), de que o Taliban contaria com mísseis de detecção por calor, o que deixaria helicópteros particularmente vulneráveis(O pior: estes mísseis seriam sobra de material distribuído pela CIA durante a invasão soviética nos anos 80).
O momento é de estrelato não só para o pessoal do Wikileaks como para esses órgãos de imprensa antiquados, os jornais.
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O que fazer com os desempregados dos EUA?
Países da América Latina e da Europa Ocidental sempre se sentiram razoavelmente confortáveis com taxas de desemprego caminhando pela faixa dos dois dígitos porque esses países contaram tanto com uma rede de proteção social bastante boa quanto com índices de poupança interna maiores(Certo, em muitos casos na América Latina era simplesmente porque se tinha desemprego e não se sabia o que se fazer com ele). Não é o caso dos Estados Unidos, que sempre contaram com uma estrutura social relativamente pálida e índices baixos de poupança interna, ao menos recentemente. Perder o emprego é o suficiente para jogar uma família de classe média para um trailer, como as TVs exbiram
O país se vê com seu novo dilema, com uma taxa de desemprego perto dos dois dígitos, sem sinal de melhora. Isto fica claro a cada punhado de semanas, quando o prazo do SeguroDesemprego de um punhado de pessoas se esgota e o Congresso se reúne para votar para estender os benefícios. Republicanos tentam posar de caridosos com o déficit, e defendem que os democratas achem alguma coisa provisionada para pagar a conta. Os democratas, claro, aproveitam a ocasião para pintar os republicanos como monstros sem coração.
No entanto, economistas reclamam que o SeguroDesemprego serve de contraincentivo para que as pessoas procurem emprego e não faltam casos de pessoas desempregadas há mais de dois anos. E isto não é por falta de opção. O que fazer? Pagar indefinidamente o SeguroDesemprego? Os Estados Unidos se vêem no terrível dilema sobre o que fazer com seus desempregados.
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O Judiciário definindo quem pode ou não pode ser candidato
A Lei da Ficha Limpa foi ostentada pelos mesmos suspeitos de sempre como a grande redenção da política brasileira. No entanto, há um pequeno probleminha: quem exatamente define qual político tem a ficha limpa? Os americanos permitiram que a Suprema Corte decidisse uma eleição presidencial, mas os brasileiros desenvolveram um sistema eleitoral intricado, em que toda hora o Poder Judiciário – um dos três poderes – é convocado a decidir questões triviais, como se determinado artigo é propaganda eleitoral irregular ou se determinado político que mudou de partido deve perder o mandato por infidelidade partidária. Repetindo: o poder Judiciário, que tem interferência reduzida por meio políticos – a indicação ao STF é exatamente o único controle político que o Judiciário recebe – na prática interfere e decide os eleitos pelos outros dois poderes. A Ficha Limpa só piora o processo, com promotores e juízes decidindo sobre quem pode ou não pode ser candidato.
Claro, há o pequeno problema de que processos judiciais podem ser usados para fins políticos. A grande polêmica sobre os procuradores federais durante a Administração Bush foi justamente sobre o uso do Departamento de Justiça para coibir oponentes políticos (Don Spiegelman, o exgovernador democrata do Alabama foi preso num processo para lá de irregular movido pelo Departamento de Justiça, uma funcionária estadual no Wisconsin foi condenada e depois libertada num processo que mesmo Frank Easterbrook, um juiz federal bastante conservador nomeado por Reagan considerou uma fraude). Mesmo sobre o que talvez seja o político americano mais famoso a acabar na cadeia, James Traficant, também sempre restaram as mesmas suspeitas(Embora os grandes defensores de Traficant fossem gente tão esquisita quanto seu famoso penteado).
Até agora, os tribunais impugnaram centenas de candidatos pela Ficha Limpa, e para se ter uma ideia da coisa, em Alagoas TODOS os candidatos ao governo do estado tiveram sua impugnação pedida pelos procuradores. Eu não gosto do Collor nem do Ronaldo Lessa, mas esta não é uma decisão que deve ser feita pelo Judiciário. De qualquer forma, no bizarro sistema eleitoral brasileiro colocar ainda mais poder do Judiciário sobre a eleição do outros dois poderes não é nenhum progresso, além de ser brutalmente antidemocrática, num processo que não pode ter fim. Imaginem o Judiciário impugnando um candidato popular a presidência ou ao governo de um estado grande, por exemplo.
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Vontade popular? Para quê?
O blogueiro Leonardo Sakamoto nos brinda com a verdadeira pérola num longo diatribe reclamando que os candidatos à presidência não defenderem assuntos como casamento gay, acesso ao aborto, eutanásia, entre outras coisas :
”Parece que, para ser candidato nesta eleição, é necessário se despir de
qualquer opinião própria e desistir de ser si mesmo para seguir um
gabarito a fim de que a maioria dos eleitores se reconheça nele e dê seu
voto. Mas é isso o que se espera de um bom candidato, que seja alguém à
minha imagem e semelhança e não uma liderança política que possa
governar o país? Devo dar meu voto a alguém que pense exatamente como eu
ou que possa levar o país a um novo patamar de civilidade e de
qualidade de vida para todos? O que é democracia? Um governo totalitário
da maioria ou um governo da maioria em que as minorias são respeitadas? “
Hmmm. Na verdade, isso é mais complicado que parece. Um candidato que mude de opinião sobre um assunto como as pesquisas de opinião dizem vai ser tachado de inconstante ou sem princípios(Ou ainda flip flopper, como os americanos dizem), o que efetivamente custou a Casa Branca para muitos candidatos. Por outro lado, o princípio básico de uma eleição é justamente que os eleitores querem, tchadã, candidatos que sigam plataformas que lhe agradem. A não ser que o Sakamoto esteja falando nas eleições egípcias ou do Iraque de Saddam Hussein. Por todo mundo é justamente isso que os candidatos que vencem as eleições fazem(Imagem e semelhança é bobagem, uma vez que a biografia dos dois principais candidatos são distantes demais da média da população).
Sim, há um regime que coloca a “liderança” acima da vontade popular. Ele se chama fascismo. Pode-se defender o casamento gay dentro dos princípios de igualdade, por outro lado alegar que dentro de um sistema eleitoral a vontade da população deva ser rejeitada é um tanto quanto absurdo. E sim, alegar que dentro do sistema legal brasileiro os homosexuais sejam “oprimidos pela maioria” é pegar pesado(Uma das razões pela quala bandeira do casamento gay é bem menos popular no Brasil que nos EUA é que muitos dos direitos do casamento são estendidos aos gays de uma forma ou outra).
E de uma certa forma é irrelevante se o presidente defende direitos como o do aborto(não que ninguém que defendesse abertamente o aborto tivesse grandes chances de ser eleito) ou do casamento gay porque isso teria que passar pelo Congresso, e ao contrário da Argentina, não é possível se valer da máquina partidária e de pura pressão para forçar o Congresso a aprovar medidas fortemente impopulares.
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O referendo do desarmamento e as eleições
Um raro momento em que o brasileiro saiu da sua já tradicional apatia por política foi em 2005, durante o referendo sobre o desarmamento. Eu na época defendi o voto nulo porque em grande parte era um referendo que não alteraria o que na prática era um quase banimento de armas, mas era possível ver pessoas discutindo estatísticas sobre o assunto e até faixas sobre o assunto. O referendo tinha uma grande diferença sobre as eleições: a população sentia, ironicamente, que o que seria votado de fato teria alguma diferença e de que uma vitória do “Sim” produziria um país substancialmente diferente de um em que o “Não” vencesse.
Um dos pontos mais criticados sobre o eleitorado brasileiro são os eleitos para o Legislativo, em que sempre figuram celebridades, pessoas com alguma condenação ou alguma coisa bizarra, de Netinho de Paula a Enéas. Só que, convenhamos, alguém entende a forma em que os deputados são eleitos no Brasil? Mesmo uma pessoa com alguma formação política não entende porque diabos um sujeito é eleito deputado, e outro sujeito com mais votos não é. Sempre que o listão sai em novembro tudo é uma surpresa mesmo para quem acompanha política, o que dirá o cidadão comum.Isso sem contar as disparidades regionais e a lambança que são as eleições para deputados nos estados maiores(Aonde qualquer cacareco obtém mais votos que um candidato com base regional).
Isso sem contar o total distanciamento dos candidatos dos eleitores, que não podem nem escolher os candidatos por primárias e aonde os eleitores a cada dois anos assistem os candidatos arruinarem a paisagem urbana com faixas e carros de som, ao passo que quase todo tipo de manifestação própria dos eleitores sobre o assunto é coagida. O povo não vota consciente pela mera razão de que ele não pode participar do processo, e qualquer um interessado no assunto deveria revisitar o referendo de 2005.
3 CommentsTuesday, July 20th, 2010...11:44 pm
Uma campanha muito esquisita
A campanha presidencial brasileira está um tanto quanto bizarra. Primeiro, que Dilma Rousseff parece mais uma versão feminina do típico candidato pemedebista de uns dez anos atrás. Dilma Rousseff andou até flertando com uma versão brasileira dos vouchers, só que para Ensino Médio, o que é um tanto bizarro para uma candidata dita da esquerda. O mais bizarro é que dentro dos sempre militantes trotkistas, stalinistas e todos os istas da esquerda brasileira não surgiu ninguém patrocinando nenhum outro candidato realmente forte.
E tem a ainda mais bizarra campanha de Serra, que parece misturar uma versão mais agressiva e escancarada da campanha de John McCain com o da sua própria campanha de 2002. Duas campanhas vencedoras, como se sabe. O ponto é fazer promessas vagas, fazer as acusações mais absurdas possível(como relações com as FARC ou sabe-se lá o quê) e ainda se pintar como vítimas de dossiês e sabe-se lá o quê. É uma estratégia vencedora, como se sabe. Logo Serra vai acusar Dilma Rousseff de envolvimento com a Al-Qaeda.
(O pessoal lá anda tão fora da realidade que andaram anunciando uma carta de compromisso social ou algo que o valha. Provavelmente, apenas para lembrar os eleitores disto)
E sim, tem o bizarro companheiro de vice de Serra. O Cavalo Louco . Aliás, aonde foi que acharam este cara? Ao menos ao contrário de Sarah Palin e Dan Quayle ninguém podera dizer que ele teria o maior arsenal nuclear do planeta à sua disposição caso Serra, se eleito, tivesse um ataque cardíaco…
3 CommentsMonday, July 19th, 2010...12:54 am
De Lincoln a Carter
Um ponto em comum entre as duas principais reformas que Barack Obama aprovou - as reformas da saúde e financeiras - é de que mesmo entre os especialistas haviam um consenso de que ninguém sabia explicar direito o que cada reforma faria. Alguns brasileiros chegaram a achar que Obama queria mesmo um SUS americano, embora não havia nada previsto em nenhum dos projetos. A reforma financeira vai pelo mesmo caminho, com mesmo Joe Biden concordando que quase ninguém entendia direito o que havia no projeto. São pontos que obviamente ajudam estas reformas a serem mais impopulares que deveriam ser - como alguém vai apoiar uma reforma que não entende direito? - e isso num ambiente de desemprego sempre rondando na casa dos dois dígitos.
Outro ponto foi levantado pela estrategista republicana Mary Matalin: Obama precisaria ser alguma coisa. Obama tenta agradar a todo mundo e não agrada a ninguém, tenta ser tudo ao mesmo tempo e acaba não sendo nada.Um dos ataques mais marcantes contra um político nos EUA é acusação de ser um flip flopper, um candidato que altera as posições o tempo todo por motivos políticos,como se estivesse manipulando os eleitores.Poucas coisas tiraram mais votos de John Kerry que as imagens dele numa prancha de windsurfe, ao som de Tchaikovsky, enquanto o locutor dizia que ele havia votado contra a guerra, a favor da guerra e contra novamente, e que ele votaria de acordo com a direção ao vento.
Não é uma imagem boa para um presidente eleito. Obama, que era comparado a Lincoln e Roosevelt nos primeiros meses de mandato precisa provar agora que não é Jimmy Carter.
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Diga-me como blogas…
A pesquisa com linguagem falada já indicava uma forte relação entre a lingua e a personalidade. Por exemplo, neuróticos tem predileção por palavras negativas, tipos agradáveis com palavras ligadas à socialização, e por aí vai. Tal Yarkoni, do departamento de Psicologia da Universidade do Colorado, fez um estudo sobre a linguagem utilizada em blogs e descobriu que ao invés das pesosas se projetarem com uma imagem idealizada, como se imagina, havia uma forte correlação com a personalidade dos autores.Blogueiros neuróticos usavam mais palavras associadas com emoções negativas, blogueiros extrovertidos usavam mais palavras ligadas a emoções positivas, blogueiros com alto placar em agradabilidade evitavam palavrões, e usavam mais palavras relacionads a cordialidade.enquanto blogueiros mais meticulosos mencionavam mais palavras com conotações de realizações.
Segundo o estudo, uso ironia também era relacionada com neuróticos e extroversão com a categoria de palavras “bebidas”. hmmm
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A pandemia acabou
Margaret Chan - que como Presidente da OMS teve a definição final sobre os alertas sobre a Gripe H1N1 - admitiu que a agência cometeu vários erros durante a dita crise da dita gripe e de que uma comissão será criada para avaliar de “forma franca e crítica” a atuação da agência durante a “crise”. A OMS já havia sofrido fortes críticas de conflitos de interesse ao declarar a epidemia.
Bem, ao menos Chan admitiu as suas falhas, apesar de ainda ser desonesta. Seria interessante escutar as mesmas desculpas das autoridades de saúde no Brasil - que tomaram medidas muito mais violentas que as vistas em outros países- e em especial da imprensa brasileira, particularmente histérica durante a “crise“, fizessem o mesmo.
Comments OffThursday, July 15th, 2010...1:21 am
Petrobrax

Ontem, telespectadores do “Nightly News with Brian Williams” na NBC americana puderam ver a seguinte cena, tirada de um porto na Lousiana. Sinal de que quem trabalha na Petrobrás americana ou não sabe escrever direito o nome da empresa ou não se importa.
Thursday, July 15th, 2010...12:59 am
Federalismo de cavalo doido
Uma das defesas que se costuma fazer do federalismo nos Estados Unidos é de que não é justo que o contribuinte em Ilinois ou em Nova York paguem por rodovias ou escolas no Wyoming ou em Idaho. Certo. Agora, respiremos, bebamos um gole d´água. Imaginem dizer que não é justo que São Paulo ou Minas Gerais paguem por rodovias e escolas no Acre ou no Maranhão. A coisa muda um tanto de figura: há sempre os círculos em que se diz que São Paulo ou o Sul do país seriam potência sem o resto do país, mas isso inevitavelmente soa um tanto quanto egoísta e frio.
O Brasil não só conta com gritantes diferenças regionais como conta com a Amazônia, que é a Amazônia. Logo, qualquer aplicação pura do federalismo na prática poderia simplesmente ampliar estas diferenças. Então, no Brasil, claro, preferiram fazer o federalismo de cavalo doido, aonde o governo federal repassa grandes quantidades de dinheiro para estados e prefeituras. Isso sempre destruiu a essência do federalismo, porque prefeitos e governadores poderiam apontar para a suposta falta de repasses do governo federal para qualquer coisa que dê errado. E claro, com dinheiro da União ninguém tem incentivos para ser fiscalmente responsável. Claro, que nem se tocou no problema da estrutura política centralizada e ineficiente das prefeituras, no qual federalismo em si se aproxima mais do feudalismo.
Logo, qualquer um que fale sobre federalismo deveria explicar sobre como ele poderia ser aplicado num país de fortes desigualdades regionais, sem bizarrices como Fundo de Participação dos Municípios. O que quase ninguém fez, apesar da defesa quase unânime do sistema no Brasil.
12 CommentsWednesday, July 14th, 2010...2:28 am
México: os novos imigrantes
Chula Vista, uma cidade no entorno de San Diego, na Califórnia, sempre foi considerada como uma cidade pobre. Até que o lugar foi invadido por mexicanos de classe média alta, que fogem da violência no país de origem. A região já é conhecida como Nova Tijuana, em referência a cidade ao sul da fronteira na Baja Califórnia. Empresários não levam apenas suas famílias, mas seus restaurantes não só à Califórnia mas ao Texas e ao Novo México, do outro lado da fronteira, fugindo não apenas dos sequestradores, mas de policiais corruptos.
A relação deste imigrantes cria um contraste duro com os imigrantes tradicionais de motivação economica, de origens mais humildes, vindos de estados mais ao sul, como Oaxaca, Guajuanato e Guerrero. São imigrantes que não sofrem com a discriminação nem com o serviço de imigração, e se integram com facilidade ao resto da sociedade. É mais um capítulo da destruição pela Guerra contra as Drogas da região que era uma das mais promissoras da América Latina.
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O TAV em dúvida
O Brasil sempre teve um histórico pouco animador na construção de ferrovias. A coisa nunca foi boa - há a Madeira-Maimoré e os planos para se ligar tanto Rio de Janeiro e São Paulo a Belém do Pará nunca foram para frente -mas dos anos 60 a coisa ficou bem mais escabrosa. Os planos para se construir ferrovias elétricas de carga durante o choque do petróleo - o Corredor de Exportação da Fepasa e a Ferrovia do Aço - nunca foram terminados, a Norte-Sul foi outro poço de dinheiro que ainda não foi concluído, e claro, tem a Ferronorte, que foi empacada quando Mário Covas passou a atrasar dinheiro para a ponte no Rio Paraná. Os sucessos na época - a EF Carajás? Ferroeste?-são sobrepujados por vários fracassos.
Então, se você quiser acreditar no TAV entre Campinas a Rio de Janeiro é preciso acreditar que o país ultrapasse esta maré de azar. Claro que há outros problemas: um trem desses costuma ser particularmente caro, e a grande demanda de tráfego na região não é de trem por alta velocidade. As rotas mais interessantes seriam as que ligariam Campinas a São Paulo, assim como o Vale do Paraíba a capital, rotas que seriam subutilizadas em alta velocidade. É aí que está a demanda do trecho. E com os confortos do trem, uma previsão mais que realista de três horas de viagem para o trecho São Paulo ao Rio por trem convencional seria mais que o suficiente para competir com a Ponte Aérea.
O custo inicial giraria na casa dos 33 bilhões. Há aquela citação atribuída ao senador americano Everett Dirksen, de que um bilhão aqui,um bilhão ali e logo estamos falando em dinheiro de verdade. Mas aqui são muitos bilhões de uma vez. Isso é um pouco menos que a Alemanha gasta em subsídios ao seu sistema ferroviário por ano(11 bilhões de dólares), mas estamos falando de uma das redes de transporte mais avançadas do planeta, não uma linha ligando um curto espaço. Sabendo de que país nenhum consegue sustentar uma rede ferroviária de passageiros sem subsídios e que linhas de alta velocidade são particularmente dificeis de se colcoar no azul o governo colocou um monte de subsídios para a operadora privada que vai ficar com a tarefa.
Também é dificil acreditar quem vai assumir a tarefa, sem que o estado brasileiro subsidie a brincadeira. O Acela Express, que liga Boston-Nova York-Filadélfia-Baltimore-Washington, a região de maior densidade populacional do continente, com 45 milhões de pessoas num corredor 700 quilômetros de comprimento. Estamos falando de uma região com bem mais dinheiro, note-se. Pois bem: as receitas da Amtrak com o trem seriam de 468 milhões em 2008. Mesmo se a rota entre as três cidades fosse mais lucrativa que a rota do Acela Express, quanto tempo que levaria para se recuperar o investimento? Trinta? Sessenta anos? Ou isto seria um papagaio que seria jogado para o contribuinte?
E subsidiar um trembala para as madames na Faria Lima e no Recreio dos Bandeirantes seria mais importante que o resto do país, sem estrutura ferroviária de passageiros nenhuma?
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México: Tan lejos de Dios
A guerra dos carteis no Vale de Juárez, no norte do México, está criando cidades e vilarejos fantasmas. Os moradores, assustados com a sequência de mortes e da violência, fogem. Muitos tentam asilo nos Estados Unidos, a maioria sem sucesso, outros vão ilegalmente. Outros simplesmente não tem lugar para ir. Em Práxedis Guerrero, estado de Chihuahua, o desemprego está na casa dos 40%. O prefeito não mora na cidade. Por todo o vale, há cidades em que 40% ou 50% da população teriam fugido.
Cem anos depois que a Revolução Mexicana expulsou muitos mexicanos do país, outra guerra muito mais vergonhosa cria feridas permanentes.
1 CommentTuesday, July 13th, 2010...1:11 am
Duvida boba
Um dos grandes desafios das democracias modernas é o de equilibrar as contas da Previdência Social, o grande peso no déficit nos EUA e pela Europa. Uma das soluções aventadas é o de se ampliar a idade para se aposentar, enquanto se contraargumenta que em muitas profissões, em especial aquelas que exigem muito esforço físico e braçal-operários, trabalhadores da construção civil, etc, é praticamente impossível se continuar trabalhando por muito tempo além dos sessenta e cinco anos.
Se as mulheres costumam ser subrepresentadas neste grupo de trabalhadores, por que elas se aposentam substancialmente mais cedo que os homens no Brasil?
17 CommentsMonday, July 12th, 2010...2:34 am
O índio do Serra
O Estadão publicou uma entrevista com Cavalo Doido, digo o Índio da Costa:
Mas ela é apresentada como a coordenadora de um governo aprovado pela opinião pública.
O Lula é muito preparado politicamente e o povo aprova o Lula, mas o governo coordenado pela Dilma é muito ruim. Basta ver a dificuldade que se tem para acessar os serviços públicos, as filas nos hospitais, a má qualidade da educação. Além disso, a máquina inchou e o custo dela é muito mais alto do que deveria ser.
Mas o povo gosta. Para mais de 70% o governo é bom e ótimo.
Na hora que você pergunta ao povo como funcionam a saúde, a educação, o resultado é diferente. E é aí que está a chave para a gente ganhar a eleição. Mostrar que o Lula está bem avaliado e o governo tem a força do nome dele, mas não oferece bons serviços quando se fala em hospital, nas escolas, no transporte
Hmmm…Verdade, isto tudo é particularmente verdadeiro em São Paulo. Ei, espera aí: esses serviços são de responsabilidade do governo estadual,e não é a Dilma que é governadora? Quem era mesmo o governador até pouco tempo atrás?
(Sério mesmo, o que esse pessoal quer com este tipo de gente?)
Comments OffSunday, July 11th, 2010...11:29 pm
Aonde está Bin Laden?
Jere Van Dyk, um freelancer a serviço da CBS News, que esteve prisioneiro do Taleban no Afeganistão por quarenta e cinco dias, enquanto caçava por Bin Laden nas áreas tribais do Paquistão. Van Dyk conta agora que ele acha de que Bin Laden não está naquela região - que é o lugar que todos os serviços de segurança do mundo acredita que ele esteja - todos os líderes tribais que ele contactou acham que Bin Laden é muito grande para ser escondido numa área despovoada. Muito grande no sentido de que a comitiva e os seguranças de que Bin Laden carrega é tão grande que ele dificilmente pode ser escondido.
A Guerra contra o Afeganistão começou em grande parte como uma forma de retaliação contra os ataques de onze de setembro. Para Michael Scheur, que liderou a unidade de Bin Laden na CIA, sucesso seria unica e exclusivamente matar Osama bin Laden, Ayman al-Zawahiri, Mulá Omar e o máximo de seus soldados e correlegionários civis e dar o fora o mais rápido possível, cientes de como Mao uma vez disse, insurgências sempre se reconstroem e o processo teria que ser reiniciado. Na prática, ninguém sabe direito o que os americanos fazem num dos países mais inóspitos do planeta. Como George Will apontou uma vez, os EUA estão no país para impedir que o país se transforme num Iêmen ou numa Somália do ponto de vista de base para terrorismo. É um processo que teria que ser repetido eternamente.
Bin Laden observa um Estados Unidos substancialmente mais pobre que em 2000, observa um imenso buraco no lugar do World Trade Center, observa seu país mais odiado enfiado em duas guerras e em uma dívida pública crescente. E tanto ele quanto Al-Zawari e Omar dormem sem a menor presença de soldados de americanos. Nada mal para quem era visto como signatário de uma declaração de morte nove anos atrás.
Para os americanos, existe a certeza de que com Bin Laden vivo não há certeza de vitória. Embora, com os custos da empreitada, as baixas e o estresse para os soldados ninguém parece se preocupar mais com isso.
Comments OffSunday, July 11th, 2010...4:56 pm
O superprefeito do mundo imaginário
Uma proposta que anda circulando por aí, criada por uma conhecida revista sensacionalista, é a da criação dos dito superprefeitos, que teriam o encargo de administrar as regiões metropolitanas. A proposta é de uma bobagem tacanha, e demonstra um dos principais problemas da administração pública brasileira: a centralização do poder. É fato de que nos EUA existem os county comissioners, que são os grupos de oficiais, geralmente eleitos, que administram os condados, unidades administrativas acima das cidades(Townships e as towns), em especial nas regiões mais rurais. Mas são comissões, e não há concentração de poder.
E a gente cai em outro problema. Algumas das maiores regiões metropolitanas dos EUA ficam na fronteira entre estados. Chicago é um caso emblemático: a cidade em si é dividida em dois estados, com subúrbios que estendem a região metropolitana para dentro de Indiana e Wisconsin. A região não é lá um exemplo de boa governança, por motivos óbvios(Para se ter uma idéia, Richard Daley, filho do outro Richard Daley, governa a cidade desde de 1988). Mas ninguém morreu. A cidade inclusive conta com um sistema de trens de subúrbio que vai a três estados. Não existe a figura do superprefeito, embora Cook County, que concentre a maior parte da cidade de Chicago, tenha uma comissão de condado. Com 17 membros. E isso não inclui os subúrbios em outros condados.E há várias cidades, como Kansas City, por exemplo, que ficam em mais de um estado(Tipo, um lado do centro da cidade, mesmo, fica em Kansas, o outro lado no Missouri).
E claro, quem inventou a idéia não explicou os poderes deste superprefeito(No caso de São Paulo, em especial, não seriam poderes desprezíveis: ele teria uma população superior a de países como Bélgica, Portugal e Chile a sua mercê) nem as suas relações com os prefeitos. E claro, como isso bastaria para colocar ordem no sistema, que é uma zona porque os prefeitos tem o costume de dizer “dane-se” a quem mora em outras cidades(A decisão da Prefeitura de São Paulo em limitar o tráfego dos ônibus fretados é exemplar). Mas bem, de revistas sensacionalistas não podem surgir boas idéias de políticas públicas mesmo.
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A voz da razão que vêm de Kansas City
O Fed americano decide suas taxas de juros por uma votação que inclui os presidentes das regionais dos bancos, sediados em cidades como Filadélfia, Nova York e San Francisco(Basicamente por isso que a decisão de Obama de nomear Timothy Geithner, que presidia o Fed justamente de Nova York, para o Tesouro é assustadoramente inana). Um destes presidentes, Thomas M. Hoenig, de Kansas City, tem defendido de forma enfática um aumento gradual dos juros. Os juros artificialmente baixos do Fed se transformaram num presentão para os bancos, que emprestam dinheiro de graça do governo, apenas para cobrar juros altos no cartão de crédito e investir em países emergentes. Mas também se transformaram num tormento a poupadores, que viram os seus rendimentos cair de forma violenta, transformando-se num estorvo financeiro a muitos aposentados.
Hoenig, até agora, é o único voto por um aumento de juros no Fed. Mas defende um aumento gradual, e relativamente grande - para 3%. E claro, é a voz da razão que tende a ganhar força. E claro, se os chineses por algum motivo ou outro não puderem comprar títulos da dívida americana(Os sinais da existência de uma bolha imobiliária no mercado chinês é pouco animadora) os americanos seriam forçados a aumentar
os seus juros para atrair investidores. Isso seria o suficiente para jogar a Dow Jones e a Nasdaq para baixo, retirar bilhoes de dólares do mercado dos países emergentes(Isso transformaria as crises cambiais do final dos anos 90 em bolinho) e estourar a bolha que Geithner e Bernanke criaram para retirar a economia americana da Depressão.
Mas isso demonstra um cenário mundial bem mais pessimista que o que se costuma ver, uma administração Obama bem mais amigona de Wall Street que parece e um cenário em que os países emergentes estariam bastante vulneráveis.. O Brasil definitivamente deveria estar melhor preparado para este cenário. Depois, obviamente, vai ter gente, como em 1998 culpando os especuladores ou algo que o valha.
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Supremo: Limitando o acesso ao clube
A Associação de Magistrados Brasileiros anda patrocinando, com toda a cara de pau do mundo, uma emenda constitucional muito espertinha: a que exigiria que Ministros do Supremo Tribunal Federal tivessem experiência judiciária, inclusive como juiz, o que estranhamente beneficiaria diretamente os seus próprios associados. Pessoalmente, não entendo as críticas. Meu problema pessoal com o Supremo é que ele se envolve com muitos assuntos que não deveria, que deveriam ser da alçada do Legislativo ou do Executivo. Não deveria ser da alçada do Supremo fazer coisas como julgamentos de mensalão, demarcar reservas indígenas, decidir sobre o uso ou nãouso de algemas, entre outras coisas. Por outro lado, limitar o escopo das escolhas para o Supremo não melhoraria este ponto. Poderia piorar, tornando o processo ainda mais antidemocrático.
O processo político brasileiro como um todo tende a ser bastante hermético à participação popular - por exemplo, qualquer pressão popular sobre o Legislativo tem efeito limitado com as famigeradas listas partidárias e o Congresso pode aprovar emendas constitucionais ao seu belprazer - mas é o Judiciário, com sua aristocracia interna de desembargadores e juízes, que costuma funcionar de forma mais antidemocrática neste aspecto. Nos últimos anos, os brasileiros como um todo ficaram chocados com inacreditáveis sequências de sentenças judiciais com interpretações bastante criativas da Constituição no tocante ao escopo da liberdade de expressão, com direito à quase que censura prévia de livros. Que num arrombo de corporativismo a AMB queira fechar ainda mais o clubinho é assustador.
A grande inspiração do Supremo brasileiro, que é a Suprema Corte americana, historicamente caminhava pelo lado oposto. Pela AMB, Lyndon Johnson jamais poderia ter nomeado Thurgood Marshal, herói dos direitos civis e primeiro negro naquela corte, que nunca foi juiz. Aliás, pela AMB as escolas americanas provavelmente ainda estariam segregadas porque a Suprema Corte que derrubou a segregação era presidida por um ex-governador da Califórnia(Earl Warren), tinha dois exsenadores(Sherman Minton, Hugo Black), um exprefeito de Cleveland(Harold Burton), um professor de Harvard(Felix Frankfurter), um expresidente da Comissão de Valores Imobiliário(William Douglas).
Na verdade, a grande discussão tanto na nomeação dos sucessores de David Souter e John Paul Stevens foram sobre a necessidade de se nomear pessoas com experiência além do judiciário. justamente o que a AMB quer impedir porque havia o entendimento de que era necessário ter juízes que não só tivessem a compreensão sobre os efeitos das suas ações, mas como que refletissem as pessoas que serão afetadas por elas. A emenda proposta pela AMB tornaria muito mais dificil a seleção de Ministros negros e mulheres. Nada melhor que mais um pouquinho de elitismo. Eventuais Thurgoods Marshalls ficarão de fora, claro. O mais bizarro é que apesar da tacanhice da idéia não há a menor discussão sobre o assunto, que é nada mais que limitar o acesso a um clube elitizado e com mais influência que deveria ter.
De qualquer forma, natural. O Congresso nunca precisou consultar a plebe para alterar a Constituição.
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O trem do Mercadante
Aloizio Mercadante anda prometendo reativar os trens de passageiros no interior em São Paulo. Faria bem o candidato detalhar melhor a questão. Trens de passageiros são problemáticos sobre o ponto de infraestrutura porque exigem trilhos em estado de conservação muito melhor que trens de carga, além do classico problema da diferença de velocidade. Esta complicada relação entre trens de carga e de passageiros é uma das razões pela qual a maioria das linhas da Amtrak americana conta com atrasos sistemáticos e a razão pela qual tanto a CSX quanto a Union Pacific tentam há anos acabar com este tipo de serviço(Ou mesmo sabotar na cara dura). Não há razão para achar que as empresas brasileiras, sem obrigação de abrir espaço para este serviço pelo contrato da privatização, pensariam diferente. E sim, vale a pena pensar se vale a pena pagar os milhões de reais necessários para manter os trilhos entre Araraquara e São José do Rio Preto, por exemplo, apenas para ver a passagem de um ou outro trem por dia.
Claro que há outros problemas: o trecho entre Campinas a Jundiaí da antiga Cia Paulista, essencial para se atingir a região norte do estado, está longe do ideal para trens de carga, quiça para trens de passageiros. A malha da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, aonde percursos de cerca de trezentos quilômetros sendo percorridos em mais de dez horas eram comuns, precisaria ser basicamente refeita, com atualização do traçado e alargamento de bitola. E também tem casos como da Antiga Cia Mogiana de Estradas de Ferro, que foi reconstruída nos anos 70, tem traçado moderno, mas que não passa próxima de nenhuma cidade.
O pior problema é que num raio de cerca de 150 km da capital há demanda de sobra - com apenas os usuários de ônibus no eixo São Paulo-Jundiaí-Campinas já seria o suficiente para preencher a demanda de uma linha de trem e certamente um debate sobre como atender esta demanda não faria mal a ninguém(Dica: o tal do TAV não cumpre este papel). Não ajuda que Mercadante tenha prometido um TAV para Ribeirão Preto. Se completado, não existiria nenhuma outra linha de trem nestas especificações tendo uma região de densidade populacional tão baixa em uma das pontas.
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A mais longa guerra americana
A Guerra no Afeganistão se transformou recentemente na guerra mais longa da História Americana. É mais longa que o tempo que o país se envolveu com as duas guerras mundiais. É mais longa que a Guerra da Secessão ou da Independência. É mais longa que a Guerra do Vietnã. A História certamente se perguntará se esta guerra terá o mesmo impacto que a Guerra do Vietnã teve na psique americana, a primeira guerra em que os Estados Unidos foram efetivamente derrotados.
Para boa parte da esquerda mundial a Guerra contra a Iraque foi uma atrocidade não pela quantidade de gente que matou, mas pelas motivações que transpareciam todo o egoísmo do mundo. Era uma guerra pelo petróleo, dizia-se na época. Não é este o cenário no Afeganistão, ainda mais com o exmessias da esquerda mundial, não aquele texano lacaio das empresas de petróleo no comando. Mas potencialmente o Afeganistão sempre foi um cenário ainda pior que o Iraque, historicamente um dos pontos mais prósperos do Golfo Pérsico, com suas cadeias de montanhas intransponíveis e divisões tribais. Um pequeno detalhe pouco notado na imprensa internacional é que a quantidade de baixas estourou. Recentemente, os americanos passaram a marca das mil baixas. A quantidade semanal de baixas anda na casa das 17, algo muito próximo do Iraque nos seus piores dias.
Um dos motivos que levaram a queda do General McChrystal é que na tentativa de conter baixas de civis afegãos McChrystal estaria colocando em risco vidas de soldados. que simplesmente ficavam de mãos atadas para reagir.. O general ficou famoso por ter dito que trabalharia com o “governo em uma caixa”, com um sistema que supostamente traria um Estado a uma das regiões mais inóspitas do planeta. Os americanos assistem estupefatos soldados na TV trabalhando em todo tipo de obra social no Afeganistão, de escolas a distribuição de brinquedos, e se perguntam sobre o que estão fazendo na região.
O mais curioso? A soma das baixas da OTAN nas duas guerras já gira em torno do dobro dos mortos no 11 de setembro.
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Cada classe média tem o stand up comedy que merece
A classe média brasileira sempre adorou importar modismos americanos. Temos, claro, as redes de fastfood, em que a nossa vibrante classe média consome como se fosse gourmet cuisine - a inauguração do Starbucks e do Burger King gerou verdadeiras caravanas alguns anos atrás em São Paulo. Há modismos nem de todo ruins - como o público que segue a NFL, mas há também uma tradição de distorcer completamente o original. O Spelling Bee, uma competição com traços de linguística para crianças virou uma competição de soletração decorada aqui no Brasil. A última onda de exportação é o stand up comedy. E assim como quando o traste do Luciano Huck importou o Spelling Bee, o stand up comedy foi completamente emporcalhado em terras nacionais.
Ao que parece, a grande expressão do stand up comedy nacional seria o Danilo Gentili, do programa televisivo CQC. Do ponto de vista interpretativo, Gentili é limitado como uma porta. Piadas elaboradas? Necas. Aliás, o Gentili é o primeiro humorista que precisa justificar piadas comparando negros com macacos. Imaginem Jon Stewart ou Woody Allen precisando justificar o uso do termo “niggers” ou mesmo “kike”.(Gentili reclama que o politicamente correto estaria matando o humor, mas grande parte dos humoristas mais celebrados são politicamente corretos até o osso. O já citado Jon Stewart é um exemplo). Gentili, obviamente, reclama da necessidade de poder fazer piadas com minorias e outros estereótipos porque é limitado demais para fazer o que stand up comedians fazem, aquele misto de critique social com humor.
E claro, o Gentili é o primeiro humorista que precisa tomar porrada de policial para mostrar seu talento. Mas cada classe média tem o seu stand up comedy que merece.
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A sucessora de Lula
Uma das razões pela qual a oposição atacou de forma violenta José Dirceu e Antônio Palocci é pelo impressão corrente na época de que Lula era tão dependente de seus auxiliares que atacar seus cavaleiros leais era a melhor forma de destruí-lo. Nesse jogo todo, Dilma Rousseff recebeu o bastão da sucessão que em outros cenários poderia caber a Palocci, Dirceu ou mesmo Celso Daniel. É um ponto interessante porque Dilma provavelmente nunca pensou em ser presidente, e claro, tem um background que é o oposto de Lula. Ela é articulada de forma mais intelectualizada, argumentando com bastante densidade e precisão, por mais que(felizmente) não tenha um background acadêmico.
Por outro lado, Dilma Rousseff de uma certa forma seja o melhor símbolo do pequeno vale entre petistas e lulistas. Dilma Rousseff, num partido que sempre privilegiou o seu establishment, não começou sua carreira política no PT. Isto num partido em que a palavra “membrofundador” tinha o peso de honra. E claro, o discurso de Dilma é bem menos norteado pelo vocabulário de esquerda clássico que qualquer figura de destaque de PT. Dilma fala mais em desenvolvimento e crescimento que em distribuição de renda. O que leva também ao bizarro ponto da estranha união da esquerda em torno da candidata de Lula. O candidato do Psol, Plínio Arruda Sampaio, ainda não conseguiu levantar grandes vôos, e Marina da Silva tenta se vender como mais ao centro que Dilma Rousseff(Sei, coisas de Brasill).
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Tomando porrada
Eu não sou nem um pouco fã do CQC e em especial do Danilo Gentili, pelo simples fato de que ambos emporcalham a nobre tradição do stand up comedy. Pode parecer surpreendente para o gosto médio brasileiro, mas comédia exige mais que fazer caretas na frente das câmara, isso exige todo um trabalho de interpretação -uma das mais sofisticadas sitcoms do mercado americano, 30 Rock, foi montada com um elenco formado apartir de comediantes. E o CQC é classe média brasileira demais para o meu gosto. De qualquer forma, obviamente, como libertário civil também não apoio o espancamento de ninguém por forças de segurança, em especial de pessoas fazendo trabalhos jornalisticos, independente da qualidade destes.
Por isso mesmo que me intriga a sequência de espancamentos no qual o moço foi submetido - primeiro em São Bernardo do Campo, depois em Analândia. Michael Moore sempre trabalhou com este jornalismo de emboscada, e não me consta de ter sido espancado. Bill O´Reilly, da Fox News, tem o costume de mandar um produtor para fazer emboscadas contra todo tipo de pessoa, e não me consta de ninguém ter sido espancado também. Tem alguma coisa errada. Ou é o Danilo Gentili, que faz alguma coisa para ser alvo de porrada, ou com as prefeituras municipais. Ou mesmo com ambos.
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O inferno astral de Nicolas Sarkozy
Nicolas Sarkozy prometeu uma reforma ministerial para outubro. Esse tipo de coisa nunca é um bom sinal - quase sempre indica problemas gerais na administração ou impopularidade geral. Para Sarkozy, é um misto de ambos. O presidente francês passa por um verdadeiro inferno astral, com pedras vindas de todos os lados.
Sarkozy acabou levando pedra, mesmo que indiretamente, inclusive pelo desempenho da seleção francesa na Copa de Mundo de futebol - o luxuoso hotel que abrigou os jogadores antes do início dos jogos foram fortemente criticadas pela imprensa - e há no fundo o L’affaire Bettencourt, como foi chamado pela imprensa francesa, é no fundo um imenso tacape contra Sarkozy(Eric Woerth, o Ministro encarregado da mais dura reforma orçamentária de Sarkozy - o aumento da idade para se aposentar - foi acusado de ter favorecido Liliane Bettencourt, a octogenária e ziliardária herdeira da L´Oreal, que é acusada de evasão fiscal*).
Se no início do seu mandato Sarkozy pode se beneficiar de trunfos na parte de política externa hoje o que sobra é administrar um déficit público na casa dos dois dígitos do PIB e uma equipe ministerial apática. Nada bom para o que já foi considerado um dos líderes mais promissores da Europa.
*-O assunto na verdade é digno de um filme, com Liliane Bettencourt sendo acusada pela própria filha de não ter plena capacidade mental para administrar a fortuna, um fotográfo espertinho que conseguiu ganhar bilhões de euros em “presentes” da dita com uma “amizade platônica” e um mordomo, claro, um mordomo, que gravou tudo dizendo que não aguentava mais ver a patroa sendo explorada por todos que a cercam.
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O índio do Serra
A justificativa da escolha do deputado Touro Sentado, digo Índio da Costa como vice de Serra é um tanto quanto bizarra:
“Segundo a cúpula dos partidos, os critérios para a escolha do parlamentar levaram em conta o fato de ele ser jovem, ter uma boa presença no Congresso Nacional, ter sido um dos relatores do projeto Ficha Limpa e, principalmente, por ser do Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do País. “
Serra está encrencado se o pessoal da sua coalizão segue este racicínio. Primeiro, porque como ocorre com a maioria dos deputados, muita pouca gente conhece o deputado Raoni, digo Índio da Costa, como bem ironizou a própria campanha adversária. Segundo, os votos do Estado do Rio de Janeiro como um todo - onze milhões - podem ser impressionantes, mas a cidade do Rio de Janeiro em si é na casa dos quatro milhões. E politicamente a cidade do Rio de Janeiro costuma dançar uma música totalmente diferente do resto do estado. Foi uma das razões pela qual César Maia nunca chegou perto do governo estadual. E claro, geograficamente uma chapa Ponte Aérea é definitivamente genial.
Também não entendi a justificativa da juventude. Um dos pontos fracos de Serra é que seria extremamente fácil usar seu vice para atacá-lo, uma tática bastante antiga, embora de eficiência contestada. No entanto, Serra, por ter largado a prefeitura de São Paulo com Kassab seria particularmente vulnerável a este tipo de ataque. Se a campanha da Dilma ou de algum correlegionário poderia simplesmente perguntar: “Mas quem é este sujeito que o Serra quer deixar a um pulo da presidência? O país tem direito em saber, em especial considerando seu histórico em largar mandatos pela metade.” Um ex-governador, um senador seria a melhor maneira de brindar contra estes ataques.
Por fim, se Serra acha mesmo que o Ficha Limpa vai fazer tanta diferença não entendeu direito o país que quer governar, aonde o eleitorado está mais preocupado com questões econômicas que com esta metafísica política. Acha que ainda está dependendo da classe média e da imprensa paulistana. Isso sem contar que não seria dificil demolir a imagem de “ética” de alguém coligado com o antigo PFL.
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De bolha em bolha
Chrystia Freeland, editoraglobal da Reuters, apontou um ponto interessante esta segunda no programa Morning Joe, da MSNBC. Os bancos americanos são bastante criticados por causa do TARP, o programa de resgate de 700 bilhões aprovado pelo Congresso americano em 2008, ainda hoje um dos pontos mais detestado pelos eleitores americanos. Pois bem: isso é dinheiro pequeno. O dinheiro graúdo de verdade é o dinheiro emprestado a juros nulos do governo americano, resultado das taxas de juros artificialmente baixas do Fed.
Fica a dúvida até quando que Ben Bernanke ficará fazendo isso.
****
Um dos grandes motivos para a crise foram os juros artificialmente baixos do Fed americano, que criou uma bolha de crédito por boa parte do Hemisfério Norte. Mas há um detalhe pouco conhecido: o presidente do Fed não escolhe as taxas de juros sozinho, que na verdade são definidas por um grupo de presidentes dos bancos regionais do Fed. O que Obama fez quando assumiu a presidência?
Colocou um destes presidentes, do Fed de Nova York, como Secretário do Tesouro(!). E agora, os juros baixos do Fed não estão criando bolhas no mercado imobiliário da Irlanda ou da Espanha, mas nos países emergentes em geral.
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País com elite instruída é outra coisa
Um ponto pouco notado sobre a demissão na semana passada do General Stanley McChrystal do comando das Forças Americanas após um artigo na Rolling Stone com citações pouco engrandecedoras a vários oficiais civis, incluindo o vicepresidente, é a relativa falta de polêmica. Mesmo republicanos, como John McCain e Lindsey Graham, apoiaram a saída de McChrystal, por entenderem a necessidade de controle civil sobre o Exército(E vale lembrar, tirando o General Jim Jones, que é apontado como “palhaço” pelo artigo da revista, a maioria das citações não lidam com insultos diretos e as citações mais pesadas são atribuídas a assessores).
Pois bem: é assim em que um país com uma elite instruída funciona. Em países em que se permite que qualquer imbecil ganhe espaço em revista impressa, permite-se que uma decisão assinada pela presidência seja retratada como “crise militar”,como uma espécie de apocalipse, como se o Presidente obedecesse aos generais, não o contrário. Chinelagem é isto, infelizmente.
Comments OffMonday, June 28th, 2010...11:07 pm
Robert Byrd(1917-2010)
O senador Robert Byrd era o último membro do Senado(E provavelmente a última figura pública de renome) com histórico de ligação com a Ku Klux Klan. Era infamamente conhecido por ter sido o único senador a votar contra os dois únicos negros nomeados para a Suprema Corte, o liberal Thurgood Marshall e o ultraconservador Clarence Thomas. Eleito pela primeira vez ao Senado em 1958, quando Eisenhower era presidente dos Estados Unidos, morreria na madrugada desta segunda num hospital em Falls Church, Vírginia, depois de ter apoiado o primeiro negro na presidência. Também ficaria famoso pela enorme quantidade de projetos e verbas federais que canalizaria para seu estado da Virginia Ocidental, um dos mais pobres dos EUA. Há desde de rodovias a telescópios com seu nome pelo estado.
É uma perda maior do que se quer admitir porque talvez pela sua legendária reputação Byrd era um dos poucos senadores com fibra em assuntos militares. Foi o único senador a propor um filibuster na votação pela Guerra contra o Iraque(Enquanto os queridinhos dos liberais de esquerda, John Edwards, John Kerry e Hillary Clinton apoiavam a empreitada), comparando a resolução com a Resolução do Golfo de Tonkin, que deu amplos poderes a Lyndon Johnson para usar a força militar no Vietnã.
(Byrd foi o senador com maior tempo de serviço, mas não o mais velho. Strom Thurmond morreu com cem anos em 2003, poucos meses depois de se aposentar).
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Sobre a Copa
- Não tem seleção mais cagona que o Brasil em sorteio de Copas do Mundo. Desde de 1990 que o país não pega nenhum campeão nas fases iniciais do torneio. Os únicos campeões que o país corre o risco de pegar seria o Uruguai nas semifinais, e Argentina ou Alemanha na final. Claro que nem Portugal nem a Holanda são exatamente um time frágil, mas é um adversário melhor que, digamos assim, a Alemanha.
- Na infindável discussão política que ocorreu nos EUA sobre o soccer um ponto que foi levantado é que americanos não conseguem acompanhar um jogo em que empates são uma possibilidade. Bem, empates não precisam ocorrer com tanta frequência, em especial porque eles são comuns quando o score dos gols são baixos. A baixa qualidade técnica dos jogos, com muitos jogos com poucos gols, com seleções particularmente fracas(Como Coréia do Norte) que ora serviam de saco de pancada, ora se impunham com um jogo retrancado e feio, criavam jogos bastante bocejantes. Que o ponto mais comentado desta copa seja a Vuvuzela é bastante revelador.
Tanto o sistema de chaves para o torneio como as regras poderiam ser revistas. Aumentar o tamanho da área das traves dos gols era um medida simples e bastante salutar.
-Outra marca registrada da falta de ação da FIFA deu suas caras: os consecutivos erros de juízes e decisões contestadas. O futebol não precisa disto. Três dos principais postulantes ao título, Brasil, Argentina e Alemanha foram beneficiados, e isto ainda na primeira metade do torneio.
- Todo ano é a mesma coisa: a Argentina mostra um jogo lindo de morrer, mas inconsistente, enquanto a seleção brasileira é plenamente consistente na mediocridade. A primeira vai para casa cedo, o segundo caso ganha o torneio.
Pessoalmente? Uma vitória argentina faria um bem gigante para o futebol, que amarga vinte anos de copas medíocres(Com direito a DUAS finais decididas nos pênaltis). O time tem uma certa personalidade, dentro e fora de campo, inclusive com o bufão Maradona. Coisa que o time brasileiro, com a infindável frat party infiltrada com os evangélicos mais certinhos possíveis não consegue.
- Por que diabos a cada quatro anos a imprensa brasileira fica bravinha com alguma coisa publicada pelo Olé? Pode-se alegar que o tablóide argentino pega pesado as vezes, mas é um tablóide esportivo de ar descontraído.
Não é preciso ser tão careta assim.
3 CommentsSunday, June 27th, 2010...1:24 pm
O futuro do esquisito falso multipartidarismo brasileiro
Muito se diz na atual eleição presidencial sobre a relação entre Lula e Dilma, e sobre a capacidade do primeiro em alavancar a segunda. É uma relação mais complexa, em parte porque Dilma Rousseff não se mostrou a monstra arrogante/incompetente que nossos sempre estúpidos comentaristas políticos diziam que ela era(Note-se como a maioria das coisas que se dizia sobre a eleição há uns seis meses se mostraram falsas). E não se tocou no ponto que eu considero mais cruel: o imenso telhado de vidro(E bem fino) que Serra têm - o desempenho na área de educação e em especial de segurança pública no seu tempo de governador.
No entanto, minha curiosidade será como ficará a relação dentro do multipartidarismo de mentirinha no Brasil, que sempre foi um bipartidarismo do mundo bizarro - no Rio de Janeiro os dois ditos principais partidos são minúsculos, e nenhum deles tem chances de ser o maior partido no Congresso. O PSDB deve sua promeniência na hora de escolher candidatos à presidência pela sua força em São Paulo, mas esta não é uma força que o partido mantém sozinho. Por que o partido deve liderar a oposição, em especial nas eleições presidenciais?
Em caso de uma possível vitória de Dilma Rousseff, como ficaria o futuro da oposição? Teríamos uma nova oposição, ou a continuação da oposição dividida em feudos e movidas por interesses diretos? O que talvez seja natural considerando a zona que é o Congresso brasileiro…
1 CommentThursday, June 24th, 2010...11:36 pm
O fim do sonho
Em 1998, a vitória da seleção francesa, com um escrete formado na sua maioria por magrebinos e descendentes de imigrantes caribenhos era o retrato da França multiracial e tolerante, mesmo que ídolos como Zidane vez ou outra recebessem tiradas racistas. O fracasso da seleção francesa doze anos depois, após uma saga patética que incluiu uma greve de jogadores durante o treino, duras críticas da TV francesa pelo luxo excessivo das acomodações e que foi atacada de todos os lados, tanto pela imprensa quanto pela população, vai pelo lado contrário. É um tanto quanto impossível notar um certo desconforto com franceses brancos vociferando na TV contra uma seleção composta quase que inteiramente por jogadores negros, por mais que isto possa parecer justificado(Para complicar, Rama Yade, a imigrante senegalesa de origem muçulmana, é Secretária de Estado do Esporte).
O sonho de 1998, que nunca foi lá muito convincente, acabou de forma amarga.
3 CommentsMonday, June 21st, 2010...10:47 pm
Por que São Paulo não merece um novo estádio?

A idéia de um novo estádio em São Paulo tem sido atacada como uma excentricidade, e um gasto desnecessário de dinheiro público. Bobagem. Nenhum dos estádios da cidade se enquadra em padrões internacionais modernos. O grande destaque do ramo, o Morumbi, se destaca mais pelo tamanho que pela qualidade das instalações em si. E construir estádio sem injeção de dinheiro público é uma tarefa quase impossível nos dias de hoje. Tanto o estádio novo do New York Yankees quanto o novo do Dallas Cowboys(Este na verdade é propriedade de Arlington, um subúrbio de Dallas) receberam dinheiro público, naquele paraíso socialista, os Estados Unidos. Se o Texas Stadium e o Yankees Stadium foram substituídos por instalações mais modernas, por que São Paulo tem que se contentar com o Morumbi? O estádio poderia ser usado para todo tipo de uso, como shows e outros eventos esportivos(Em 2000, São Paulo perdeu a Copa do Mundo de Tênis por falta de instalações, e o Cowboys Stadium, de Dallas, originalmente projetado para jogos da NFL foi usado para a NBA All-Stars Weekend deste ano). Por fim, é um estádio que poderia ser um ponto turístico de verdade, ao contrário daquela ponte estaiada horrível. Dificilmente seria um elefante branco.
Com uma fração do dinheiro que gastaram concretando as margens do Rio Tietê seria possível construir algo no nível do novo estádio do Wembley ou do Cowboys Stadium. Aliás, o que é desperdício de dinheiro são essas obras viárias que provocam orgasmos nas redações paulistanas. Claro, há as políticas das torcidas, o que é ainda mais incompreensível: francamente, as reclamações dos sãopaulinos no tocante ao Morumbi fazem com que as brincadeiras das torcidas adversárias pareçam bastante plausíveis….
7 CommentsSunday, June 20th, 2010...1:55 am
Serra no Roda Viva
O apresentador do programa, Heródoto Barbeiro, questiona os altos preços dos pedágios em São Paulo. “Você está apenas retransmitindo o que diz a oposição”, responde Serra. Ele argumenta que, em sua gestão como governador, ele baixou os preços dos pedágios no Estado. “Esse é o trololó petista que tem muito pouco a falar sobre o Estado de São Paulo”, ataca Serra.
Nope. Serra não baixou os preços dos pedágios. Ele simplesmente retrabalhou o processo de concessão de um lote de rodovias concedidas durante a sua gestão(Dom Pedro e o sistema Carvalho Pinto/Ayrton Senna) para que os vencedores da licitação o fossem pelo menor preço da tarifa ao invés do valor pago pela concessão. Mesmo assim, não ficou mais barato que nos tempos em que estas rodovias eram administradas pela Dersa. A rodovia Dom Pedro I, que tinha dois pedágios, ganhou mais um, em Atibaia. No resto da rede, inclusive por contrato, não se alterou em nada.
E sim, tem o trecho: “São Paulo é o Estado em que a população se sente mais segura no País”. Só se ele tiver falando por ele e sua família.
****
E continua:
“O ex-governador paulista promete criar um ministério da Segurança Pública, com o objetivo de barrar o contrabando de armas e drogas. “Tem lugares que a segurança é melhor do que outro”, continua. “Quais são os motivos? Muitas vezes, é a ação da polícia. Então vamos espalhar as políticas que deram certo em alguns lugares para outros. Esse é o papel do governo federal”
Hein? Como se mais um ministério não fosse totalmente desnecessário, como o governo espalharia ações que “deram certo” numa área de abrangência estadual? E aonde que a Constituição diz que isso é papel do governo federal?
Comments OffFriday, June 18th, 2010...1:01 am
A Folha de São Paulo e o incesto
Uma coisa que considero particularmente curiosa sobre a imprensa brasileira é a extrema distância dela com relação às posições clássicas da maioria do eleitorado. É uma imprensa obcecada com temas como privatização como salvação de todos os problemas enquanto a população em geral costuma ser bastante reservada quanto a isso. Ela tende a ser favorável à liberação de drogas, do aborto(talvez o tema mais tóxico entre a população brasileira), ser contra a pena de morte, entre vários outros pontos. Um presidente popular entre a população é odiado pela imprensa, isso sem contar o bias favorável à Israel, com uma torrente de jornalistas judeus com uma perspectiva isralocentrica do mundo. Claro, eu concordo mais com as posições da imprensa em diversos destes assuntos que com a população brasileira(Em especial em temas ligados à segurança), mas não deixa de ser curioso isto(E sim, isto de uma certa forma demonstra como a imprensa brasileira está longe da realidade).
Hélio Schwartsman, da Folha, resolve ir um passo além, e defende o direito ao incesto. Não que eu defenda a prisão de dois irmãos que façam a prática, mas considerando que dificilmente isto por si só é motivo de prisão o único motivo de se defender a idéia seja por provocação pura e simples. Ou para soar moderninho. No entanto, há um pequeno lapso. Schwartsman cita:
“Vamos a um outro experimento mental. Somos cerca de 7 bilhões de terráqueos, e, nos últimos cinco anos, a imprensa mundial registrou não mais do que meia dúzia de casos como o de Pereira, sendo o mais ilustre deles o do austríaco Joseph Fritzl (aliás, todos ganharam o apelido de “o Fritzl + nacionalidade”). A título de comparação, se fôssemos computar todas as ocorrências de crimes contra a liberdade sexual envolvendo não parentes publicadas na mídia planetária ao longo do último quinquênio, teríamos material para preencher vários catálogos telefônicos.”
Errr… Por onde começar? Casos como do Joseph Fritz e do lavrador brasileiro são casos que ganharam a atenção da imprensa justamente pela sua brutalidade, não tanto pelo incesto em si(O caso de Jaycee Duggard e Phillip Garrido, que manteve a jovem sequestrada por dezoito anos ganhou destaque da mesma forma na imprensa americana). Mas não são os únicos, obviamente. Um naco considerável dos estupros são cometidos por parentes das vítimas(No Rio, o número circula por volta de 30%). Pode ser alegar, com razão, que uma coisa não tem a ver com outra. Por outro lado, é possivel entender quem aponta a aceitação da prática como um incentivo a este tipo de violência, e claro, neste ponto a argumentação assume patamares ridículos, francamente.
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A Copa de 2014 vai longe
A Copa do Mundo de 2014 vai longe, pelo visto. Em 1986, quando o México abrigou a Copa, os jogos foram distribuídos basicamente na região central do país(Em especial no entorno da Ciudad de Mexico e Puebla) e no Norte do País(Monterrey em especial). Em 1994, nos Estados Unidos, os jogos foram distribuídos por uma área geograficamente razoavelmente ampla, mas vale lembrar, aproveitou-se a estrutura dos times da NFL e mesmo assim os jogos foram distribuídos por nove sedes, a maioria delas na Costa Nordeste. Na Copa do Mundo do Brasil planeja-se doze sedes, distribuídas por TODAS as regiões geográficas do país, mesmo em cidades de relativa baixa população. O que fazer com um estádio que possa abrigar a Copa quando a Copa acabar em Cuiabá, em Campo Grande ou mesmo Manaus? Boa pergunta.
Agora, a cidade de São Paulo entra no espetáculo de bizarrices que marca a organização do evento. É um caso único de cidade em que a nomenclatura das estações de metrô foi renomeada totalmente para homenagear os times de futebol da cidade(Para ter a idéia da sandice da coisa, uma das estações homenageia um time que NEM SE LOCALIZA NA CIDADE). Apesar do ufanismo paulistano, o fato é que nenhum dos estádios da cidade se aproxima de nenhum estádio esportivo e que em São Paulo, qualquer estádio de futebol teria pouca vocação para elefante branco.
O problema é que isso de uma certa forma se encontra com as rixas entre as três principais torcidas da cidade: a do Corinthians(Que nunca teve estádio próprio), a do São Paulo(Cujo o Morumbi não foi aceito para a Copa) e a do Palmeiras(Que planeja construir um novo estádio). Por mais que um novo estádio seria bastante justificável(Mais que a Fórmula Indy), a prefeitura e o governo estadual desconversam. E claro, pergunta-se se Lula, o corintiano mais famoso do país, irá utilizar a situação para finalmente conseguir o estádio para seu time.
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O aeroporto de Caieiras
O Brasil é um país aonde aeroportos costumam assumir importância estratégica: afinal, uma hora a mais que os pobres e a classe média baixa percam no trânsito ou no metrô é irrelevante. O que não pode são as atores perdendo shows por causa da Ponte Aérea nem as madames esperando por horas no saguão do aeroporto. Isso é um assunto trivial: qualquer espera a mais em aeroportos e a imprensa entra em polvorosa.
É fato que no caso paulista os aeroportos foram prejudicados pela grande chaga brasileira, a falta total de planejamento urbano, mas a solução encontrada, que seria do terceiro aeroporto na Grande São Paulo parece um remendo um tanto quanto doido. Há gente falando num aeroporto em Caieiras, o que me parece um tanto quanto dificil(A cidade é cercada de montanhas por todos os lados, e apesar da proximidade com a Rodovia dos Bandeirantes e o Rodoanel haveria problemas de acesso, além de poluição).
Aliás, falando em rodoanel, minha impressão é que ele vai ter o mesmo efeito do Rodoanel mais famoso do mundo, a Interstate 495, o Beltway de Washington DC: vai se tornar uma rodovia congestionada em relativo curto espaço de tempo e vai incentivar a ocupação da periferia da capital. Claro que a ocupação da Cantareira é bem mais complicada que de Bethesda, Arlington e Tyson´s Corner, mas paciência.
(E acreditem que o novo aeroporto seria custeado pela iniciativa privada. Sei).
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Nem nos EUA

Pois é. E pensar que era possível fugir do futebol nos Estados Unidos.
(Foto da sala de correspondentes da Casa Branca, via TV Newser)
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Juan Manuel dos Santos, ora pois
Domingo ouvi o debate entre Juan Manuel dos Santos e Antana Mockus no programa de rádio espanhol Hora 25 Global com Angels Barceló. Definitivamente, achei que o primeiro se saiu melhor. Mockus caiu na velha armadilha do candidato de esquerda inconsistente e indeciso, Juan Manuel dos Santos mostrou maior liderança. Ele me pareceu mais interessante quando assumiu o compromisso de terminar a Rodovia Panamericana(Entre o Panamá e a Colômbia a rodovia nunca foi completada, o que torna impossível atravessar o continente apenas por terra), enquanto Mockus acenava para problemas ecológicos.
Mas o que eu gostei é quando Santos disse que torceria para o Brasil na Copa, acenando afinidades regionais. Não que eu seja fã da seleção de Dunga, mas desde de Bolívar que o continente sofre com líderes com síndrome de Napoleão: alguém com o mínimo de visão regional parece ser no mínimo interessante.
Comments OffSunday, June 13th, 2010...11:55 pm
Serra: sem trunfos na manga
José Serra sempre dependeu de basicamente três fatores para seus trunfos eleitorais: a classe média alta paulistana, a boa vontade da imprensa paulistana(ele escreveu para a Folha de São Paulo) e a incompetência do PT paulistano. Os dois primeiros são insuficientes por si só para vencer uma eleição em nível federal, e não contará com uma Marta Suplicy no lugar da sua concorrente. A classe média alta paulistana é um tanto quanto obcecada com corrupção e assuntos de natureza moral. Infelizmente, os eleitores em geral costumam ser menos sensíveis ao assunto que parece(Não somente aqui, vale lembrar).
Infelizmente, ou não, para Serra este é o tipo de ambiente que ele conhece. Talvez por isso que tenha tanta obssessão por dossiês, esquadrões de militantes e outras asneiras do gênero. É a tática de pintar o PT como uma versão tropical do Baader Meinhof alemão ou alguma coisa do gênero. Não vai funcionar, em parte porque Serra, que rompeu uma promessa selada em cartório, tem o telhado de vidro(E dos mais finos), em parte porque ataques políticos funcionam quando são convincentes. E depois de oito anos de Pedrinho gritando Lobo nada mais no gênero o é.
Claro, o único outro caminho seria de Serra, que enfrentou problemas como enchentes e ondas de assalto, pintar a si próprio como o tecnocrata eficiente.
***
Uma dessas revistas sensacionalistas, que a gente tem até vergonha de usar como forro de gaiola de passarinho, fala alguma bobagem como “o cenário inédito de empate”. O único detalhe que ninguém notou nestas pesquisas é que no segundo turno nenhum candidato chega a 50% dos votos - ou seja, basicamente, o eleitor não se decidiu ainda. O problema é que qualquer partido que tenha um incumbente com alta aprovação vai ter vantagem, mas claro, depois de meses da imprensa brasileira tentando provar de que a Terra era quadrada - lembram-se quando diziam que 20% era o máximo de votos que Dilma poderia obter de Lula?- eles tentam remendar o estrago.
1 CommentThursday, June 10th, 2010...11:17 pm
Presalitícas
Responda rápido: qual país conseguiu entrar para o dito mundo dos países desenvolvidos utilizando suas reservas de petróleo? Hmm…Vamos lá…. México e Venezuela, tentaram, ou acharam que suas ricas reservas de petróleo eram um passaporte para a prosperidade. Não deu certo, como um passeio por Caracas ou por Campeche demonstram bem. Antes que algum engraçadinho cite Chávez os seus antecessores tiveram décadas para façanha: nenhum deles conseguiu. Tem Gana, que segundo dizem tem um índice de desenvolvimento social superior ao de seus vizinhos. De qualquer forma, as reservas em Gana ainda não foram exploradas, Nigéria? Não. Tem a Líbia, que segundo dizem tem um padrão de vida superior aos seus vizinhos. Também não conta. Podemos tentar algum país do Oriente Médio, como Qatar, Emirados Arabes Unidos ou Arábia Saudita? Dificil também.
Espere: estou ouvindo alguma coisa aí do fundo. Como é mesmo? No.. Noruega? Verdade, tem esse país africano que conseguiu se valer do petróleo para… espera aí, a Noruega fica na Europa, e sempre teve padrões de vida razoavelmente sofisticados. Em - etermos de renda percapita, a outra grande beneficiária do petróleo no Mar do Norte - o Reino Unidos está basicamente na mesma situação que a Alemanha - que explora em quantidade bem menor as mesmas reservas - e a França, que não tem reservas. Em termos de qualidade de vida, bem, há dúvidas bem maiores.
Se basicamente nenhum país conseguiu entrar no clube dos países desenvolvidos com o petróleo, porque tanta gente - do Presidente Lula aos estrupícios que inventaram a Emenda Ibsen - acham que o Brasil conseguiria?
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Aliás, eu achava que o desastre na Lousiana ofereceria um exemplo didático e claro sobre a diferença entre impostos e royalties, mas os congressistas brasileiros são bem mais burros que eu achava. Claro que a imprensa brasileira, de tão ocupada com temas importantes como declarações de famosos no Twitter e declarações de atores de seriados não consegue dar atenção a um tema tão trivial. Paciência.
Infelizmente, como o desastre no Golfo do México demonstra, as coisas não seriam tão simples. Há os estrupícios que podem alegar que no caso de desastre o governo federal pode simplesmente indenizar as áreas atingidas, mas isto não é tão simples. Vazamentos não se restringir a estas coisas catastroficas, e na prática é muito dificil calcular os prejuízos. Digamos que você more em Memphis, no Tennessee, e goste de ir a praia pegando o carro pela Interstate 55. Não mais. Aliás, em boa parte do Deep South as pessoas vão perder o acesso à praia. Um ponto pouco notado é que nem se a BP fosse liquidada ou vendida você poderia cobrir todos os danos diretos do vazamento. E isto sem considerar a hipótese do petróleo se espalhar pela Flórida ou chegar à costa da Vírginia, como já foi cogitado.
Ora, bolas, a idéia de que o mar é um território nacional é asinino. Não será a fazenda do Ibsen Pinheiro que será prejudicada no caso de um vazamento, por exemplo. Tambem gostaria de saber se a mesma lógica vale para o minério de ferro da Vale lá na Minas Gerais do Humberto Souto.
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Também não entendi direito se o argumento é de que os oceanos aonde se localiza o présal são de propriedade federal, não dos estados, porque diabos que o governo federal está sendo prejudicado em prol daquela aberração chamada de Fundo de Participação dos Municípios? E que diabos de federalismo é esse aonde os gastos são localizados, mas a arrecadação não? Federaliza-se apenas a parte boa?
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O caso todo também exemplifica bem a grande razão pela qual eu simplesmente ODEIO a Constituição de 1988, que na prática foi uma gigantesca tomada de poder por quem escreveu a dita. Obviamente, quando Ulysses Guimarães teve a genial idéia de permitir que os mesmos congressistas que deveriam ser regulados pela Constituição escrevessem a dita, na prática, obviamente, a Constituição não faria nada com relação ao poder destes mesmos congressistas. Que podem rabiscar o quanto quiserem a Constituição sem nenhum controle.
Mas, felizmente, o velho Ulysses está no fundo do mar. Que este tenha feito bom proveito.
6 CommentsWednesday, June 9th, 2010...11:47 pm
O pior momento da presidência de Obama
Esta semana, Matt Lauer, do programa Today da NBC, entrevistou Obama em Kalamazoo, Michigan, aonde uma escola seria agraciada com um discurso do presidente na formatura - uma escola foi premiada de acordo com resultados no programa federal Race to the top. Lauer, dificilmente o entrevistador mais duro da TV, encurralou um visivelmente abatido e apático Obama. O jornalista falou o tempo todo sobre o vazamento de petróleo do Golfo do México, perguntando sobre a resposta e as ações do governo frente ao desastre. E para piorar, o discurso de Obama na escola em si acabou recebendo pouca atenção.
Para Byron York, o desastre revela o principal tema da campanha de 2008: a inexperiência de Obama no Executivo. Para Froma Harrop, Obama está sendo criticado por não ser Deus. Os telejornais tem dedicado cada vez mais atenção ao desastre, com cenas de pelicanos encobertos de petróleo e pescadores desolados. A comparação com a Crise de Reféns em Teerã parece menos absurda, como uma situação que então Carter detinha pouco controle, mas que o desgastava profundamente a cada instante.
Politicamente, é pior que o Katrina, que afetou basicamente dois estados pequenos de relativa pequena importância numa eleição presidencial. O vazamento afeta a Flórida, talvez o estado mais importante eleitoralmente no Colégio Eleitoral, aonde a aprovação de Obama caiu violentamente. É o pior momento da presidência de Obama.
Comments OffWednesday, June 9th, 2010...1:18 am
Meet the new boss, the same as the old boss
O Brasil é um país tradicionalmente com acesso bastante limitado a banda larga, e a banda larga disponível não é bem lá banda larga em grande parte dos casos. Então, não deixa de ser curioso o anúncio de um debate presidencial exclusivo pela internet, já que eu confesso que nunca vi nada parecido em países com acesso e qualidade de banda larga infinitamente maiores.
Debates, não raros, são organizados por grandes organizações de mídia(A ITV, a Sky News e a BBC, representantes dos maiores grupos de mídia do Reino Unido, organizaram os debates entre os candidatos ao cargo de primeiroministro). O fato de que os portais, apoiados por grupos estrangeiros e por empresas de telefonia, estejam organizando um debate de uma certa forma formaliza o papel destes portais como pequenos impérios de mídia. O que não deixa de ser interessante e preocupante ao mesmo tempo.
Comments OffWednesday, June 9th, 2010...12:28 am
PIB: Os problemas no “motor”
Um dos problemas do uso de metáforas é que as pessoas passam a analisar o objeto da metáfora como se fosse um objeto concreto. Por exemplo, a economia: a metáfora da economia de um país como um motor faz com que as pessoas pensem num motor, uma máquina com um funcionamento centralizado e que ficará inevitavelmente queimará se mover de forma mais veloz. Claro que a economia não é exatamente um motor(Em parte porque as ferramentas para se acelerar e desacelerar o “motor” são limitadas), mas também porque a economia é bastante mais centralizada e complexa.
Dito isso, é preocupante sim o ritmo do crescimento do PIB brasileiro. Não, como muitos dizem, porque o “motor” da economia poderia não aguentar o ritmo, mas puramente porque não se vê atividade produtiva que justifique tal investimento. Se vê bastante investimento em consumo, mas não uma produção industrial ou agrícola que justique tais números. O Brasil foi beneficiado em grande parte pelos juros artificialmente baixos de Ben Bernanke(O que faz com que investidores prefiram investir no Brasil a investir nos títulos da dívida pública americana), mas obviamente, com a dívida pública americana chegando em dois anos a 100% do PIB e com déficits anuais na casa do PIB do Brasil ou do México a brincadeira não irá durar para sempre.
Pior, há muitos sinais de uma bolha no mercado imobiliário, com imóveis numa faixa de preço irrealista, outros obviamente não conseguem ser vendidos. São estes fatores preocupantes a longo prazo.
Comments OffTuesday, June 8th, 2010...1:06 am
Uma química interessante
A eleição de 2002 para o governo do Estado de São Paulo marca uma pequena virada na política estadual. A imprensa paulista é tão alienada e fora da realidade que nunca notou o óbvio - Mário Covas, que havia sido eleito por pouco ao segundo turno em 1998, era basicamente um lame duck pela maior parte do seu mandato. Foi a campanha eleitoral desastrosa de José Genoíno naquele ano, e o uso habilidoso de dois temas bastante caros ao eleitor paulistano - seguança e rodoviarismo - que fizeram Alckmin virar o barco. Pouca gente se lembra, mas Alckmin se orgulhava de um massacre cometido pela polícia militar contra um ônibus na entrada de Sorocaba e dizia fazer “guerra” contra o crime.
Serra e seu sucessor postiço, Alberto Goldman, claro, partem de um caminho oposto, inclusive com a prisão de um semnúmero de policiais militares e afastamento dos seus comandantes. O curioso é que, caso a chapa Mercadante/Major Olímpio seja confirmada, o PT teria sua maior chance contra os tucanos, basicamente concorrendo à direita do partido no assunto.
Serra, quando assumiu o governo, deixou de lado vários programas iniciados por Alckmin(Exemplo, o Escola de Tempo Integral, Escola da Família), tivemos a eleição de 2008 e claro, enquanto Serra deve seu capital político à classe média alta da capital, Alckmin montou sua coalizão com antigos malufistas e quercistas.
Com Serra concorrendo a presidência, e precisando de um palanque(Com um Alckmin notoriamente preguiçoso) será interessante ver como está química entre grupos tão distintos funcionará.
1 CommentSunday, June 6th, 2010...10:28 pm
Um balde cheio de catarro quente
John Nance Garner, que foi vice de Franklin Roosevelt, costumava dizer que o cargo de vicepresidente era o equivalente a um balde cheio de catarro quente. Claro, essa foi uma comparação anterior a Harry Truman(Que fortaleceu o cargo após notar que havia caído de paraquedas após a morte de Roosevelt em 1945), e que pessoas como Richard Nixon e o Primeiro Bush dificilmente teriam sido eleitas presidentes sem este belo empurrãozinho. Mas este é um cargo cerimonial em grande parte(Em grande parte das democracias ocidentais este cargo não existe) e quando se é apenas candidato a ele sua situação fica ainda pior(Não raro vices em chapas derrotadas tem sua carreira política abreviada).
Por isso mesmo que no Brasil o cargo sempre acaba nas mãos de políticos desconhecidos, ou em decanos da política mais interessados no lado cerimonial da coisa. Por outro lado, o dito companheiro de chapa pode ajudar a compensar alguma deficiência visível no candidato principal, além de unificar um partido - é por isso que é lugar comum nos EUA um candidato nortista, jovem e democrata escolher um parceiro de chapa mais conservador e experiente do Sul. O problema é que as pessoas não votam em vices, e vices muitas vezes servem de contraste não muito agradável com o candidato principal.
O que nos leva a escolha dos vices da eleição presidencial deste ano. Marina da Silva formou a chapa com o dono de uma fábrica de perfume, e Dilma Rousseff parece ceder alegremente a vaga a quem que o PMDB indicar, em troca de espaço no horário eleitoral gratuito. Só Serra que parece meio perdido: ora ele namora o Aécio Neves, ora o Tasso Jereisatti. Não a toa, um mineiro e um nordestino: o primeiro é a principal força do seu adversário, o segundo o swingstate definitivo. Serra está tentando um vice que compense suas deficiências visíveis.
O que mostra que sua situação é mais problemática que parece.
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