Thursday, January 26th, 2012...3:02 am
-São Paulo-
Os 0,4%

Por meses, blogs como este discutiram assuntos relacionados à USP, como se a Polícia Militar deveria policiar ou não a região entre as Marginais Pinheiros, a Avenida Alvarenga, a Avenida Escola Politécnica e o corredor da Avenida Vital Brasil/Corifeu de Azevedo Marques. Há um ponto de vista bastante importante sobre o assunto, que nas discussões sobre maconha ou estigmatização dos estudantes de humanas foge do ponto crucial.

A receita tanto da USP quanto das outras duas universidades estaduais é vinculada ao ICMS, cerca de 9% de todo o ICMS do Estado. Por este dinheiro são providas a educação em nível superior a cerca de 160 mil alunos. Isso é o equivalente a cerca de 0,4% da população do estado. Ou seja, 9% da principal fonte de arrecadação em nível estadual para se educar o que seria menos que os 1% do pessoal de Occupy Wall Street. Certo, há pesquisa, mas sempre resta a dúvida se isso compensaria os 9% do ICMS. Pela quantidade de trabalhos dentro das universidades estaduais sobre temas como “Idade Média” e “Escola de Frankfurt” eu diria que não.

O papel das universidades públicas nunca foi bem definido. A USP nunca conseguiu se definir entre ser uma universidade estadual ou universidade de elite, em especial. Na prática, as públicas sempre significaram uma grande quantidade de gastos de verbas públicas para atender um número ridículo de pessoas. Quando a população chama os universitários da USP de “maconheiros” e “filhinhos de papai” há o cálculo implícito de que esses 9% do ICMS não estão sendo bem gastos. Há um assunto que precisa ser debatido aí, e este assunto não é maconha, não é a PM dentro da USP nem o reitor da universidade.

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Friday, January 20th, 2012...1:04 am
Economia, Indústria e Comércio
O sócio do FMI

Ontem, Steve Liesman, da rede CNBC revelou que o FMI estaria precisando levantar a bagatela de 500 milhões de dólares para combater a crise da divida européia. Tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido os governos já se pronunciaram que não dispostos a colaborar com a brincadeira, o que explica em parte o fato do FMI negar este tipo de informação. Eu nunca fui fã da idéia de se utilizar o FMI para um fim que fugiria totalmente dos propósitos criados em Bretton-Woods(Não há problemas de fluxo de caixa na zona do euro, que tende a ser uma moeda valorizada), acho um tanto preocupante um fundo financiado em grande parte por países em desenvolvimento ser utilizado para resgatar países de alta renda per capita alta.

Por outro lado, quando os petistas dizem que o Brasil é “sócio”* do FMI é justamente disso que eles estão falando.

  • Isso é uma falácia. Todos os países membros do FMI são “sócios”, posto que o Brasil tem desde de 1946.
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Friday, January 13th, 2012...3:39 pm
Midia
Túlio Vianna e a PM na USP

Túlio Vianna, num artigo para a revista Fórum, argumenta contra a permanência da PM dentro do Campus da USP da seguinte forma:

“A USP, assim como grande parte das universidades públicas brasileiras, é uma autarquia. E dentre as atribuições constitucionais das Polícias Militares não está a de fazer a segurança de autarquias. A imensa extensão de muitos campi universitários, em especial o da USP, poderia levar à falsa percepção de que se trata de locais públicos como outros quaisquer e, portanto, sujeitos ao policiamento da PM, mas isso não é verdade.”

Não, isso é mais complicado. Há uma pequena diferença entre USP como universidade e a USP como Cidade Universitária, ou seja, na prática um bairro da cidade. Ninguém está defendendo que a Polícia Militar possa entrar nos prédios do campus, mas sim patrulhar as ruas. Há ônibus que servem bairros e distritos vizinhos que passam por dentro do campus, há locais aonde o limite entre universidade e bairro são tímidos(A Favela, ou Comunidade San Remo é um exemplo) e a Cidade Universitária é um naco tão grande daquela região que ela não pode ser lidada como um mundo aparte. É fato que você não vê policiais militares dentro do INSS ou do Banco Central, mas você os vê circulando por avenidas nas proximidades (Ou deveria vê-los).

“A presença da Polícia Militar nos campi das universidades públicas brasileiras é uma aberração jurídica que só pode ser superada com a criação das guardas universitárias ou o seu fortalecimento onde ela já existe, como é o caso da USP. As guardas universitárias são de responsabilidade única e exclusiva dos órgãos de direção da universidade e eventuais abusos podem ser muito mais facilmente prevenidos e solucionados internamente. ”

Não, isso seria mais complicado. Eu nunca fui muito fã da idéia de se regionalizar as Polícias por cidades, por exemplo, porque haveriam problemas tanto para se coibir abusos quanto para se obter treinamento para esse pessoal(A idéia sempre foi bem mais comum entre articulistas bem mais à direita que Túlio Vianna). As Guardas Municipais se mostraram bastante pouco apropriadas para funções de policiamento, em parte porque esta não é a função delas. E uma coisa é a de se ter polícias universitárias no campus universitário típico dos EUA, que tende a ser distante das cidades e mais compacto. A USP é do tamanho de uma cidade, e precisaria ser policiada como tal.

E coibir eventuais abusos seria muito mais complicado justamente porque tudo seria feito “internamente”. A narrativa para se justificar a ocupação da reitoria seria de que o reitor Grandino Rodas seria algum tipo de parente do coisa ruim, chamado de autoritário para baixo, e obviamente esse pessoal deveria concordar que não seria razoável dar poder de polícia a ele. Em termos práticos isso ofereceria problemas também porque ninguém saberia ao certo sobre quais lugares poderiam ser patrulhados pela Guarda Municipal, e quais lugares poderiam ser patrulhados pela Polícia Militar.

A idéia de se simplesmente “fortalecer a Guarda Universitária” remete a um velho argumento de que isso seria a Alphavilezação da USP, com dinheiro do contribuinte. E sim, isso vai a um argumento muito mais complexo. A rigor, com a dependência de dinheiro público essas universidades são bem menos autônomas que devem ser, e a própria exigência de tratamento diferenciado por parte da polícia só reforça a idéia de “privilégio” para a população quando se pensa na USP.

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Wednesday, January 11th, 2012...12:29 am
Internacional
O que espera 2012

(Os jornais, revistas e redes de TV estão fazendo a retrospectiva de 2011. Ora bolas, retrospectiva é coisa de amadores. Aqui está uma descrição de tudo que estará ocorrendo para que vocês prestem atenção em 2012).

Eleições Presidenciais-Estados Unidos: A campanha presidencial nos EUA, que é um processo extremamente desgastante, tende a ser dividida em dois momentos: as primárias(Aonde cada estado faz a sua, em sucessão), aonde os candidatos disputam a nomeação do partido, e a eleição geral aonde os candidatos dos partidos disputam a presidência entre si. Desde de 1972, quando o atual sistema de primárias foi implementado o mote sempre foi dos candidatos se concentrarem no ano interior em Iowa e New Hampshire, os dois primeiros estados a decidirem seus candidatos, para depois levarem suas campanhas a outros estados: a idéia era de que mesmo candidatos sem reconhecimento nacional poderiam fazer campanha nesses estados para se elegerem(Foi isso que permitiu que Jimmy Carter fosse eleito).

Sem oposição à Obama dentro das primárias democratas isso significa que as únicas primárias relevantes estão do lado republicano. Este ano as primárias começaram absurdamente cedo(Dia três de janeiro). Os grandes estados sempre ressentiram o privilégio de Iowa e New Hampshire, que sempre receberam ganhos políticos com suas posições privilegiadas nas primárias partidárias. A Flórida antecipou suas primárias, o que fez com que Iowa e New Hampshire fizessem o mesmo. A corrida até agora foi marcada pela grande quantidade de debates na TV a cabo, que com cenas patéticas, como de Tim Pawlenty, ex-governador de Minnesota se recusando a fazer o mesmo ataque que tinha feito contra Mitt Romney, Rick Perry, o governador do Texas, se esquecendo de quais departamentos do governo iria eliminar. Romney, o ex-governador de Massachusetts, um dos estados mais liberais do país, que fez a carreira no mercado financeiro, é visto como o provável adversário de Obama(Desde de 1948 que um republicano da região Nordeste do país não ganha a nomeação).

O ano pode marcar a derrocada de vez da chamada Tea Party, que teria que engolir como candidato republicano um sujeito de histórico liberal como Romney, que ainda assinou em Massachusetts uma reforma da saúde que serviria de base para a reforma da saúde de Obama. E não há nada que indique o mesmo sucesso em expurgar senadores e candidatos com histórico moderado nas primárias que as tea party tiveram em 2010. Há uma campanha para retirar o Senador Richard Lugar(R-Indiana), há muito tempo visto como um moderado, mas não há nada no mesmo caminho contra Olympia Snowe(R-Maine), outra senadora detestada pela base republicana. O Senado, aonde os democratas mantém um controle frágil, pode ser um ciclo eleitoral bastante impotante também.

Espere por uma campanha eleitoral bastante suja. Com índices econômicos horrendos a única chance de Obama é basicamente destruir seu oponente republicano(Matthew Dowd, que dirigiu a campanha de Bush contra John Kerry em 2004 anda dizendo que se esta eleição for sobre Barack Obama ele vai perder). E uma decisão recente da Suprema Corte permite gastos ilimitados de grupos independentes. Em 2010 e nas primárias deste ano muita gente reclamou do excesso de anúncios, ao ponto de muitos canais não exibirem outro tipo de propaganda que não fosse política (!).

Eleições Presidenciais-França: Nicolas Sarkozy é talvez o chefe de governo mais impopular de toda a zona do euro. Sarkozy na verdade nunca foi extremamente popular, tirando um período de lua de mel ao assumir o governo em 2007 depois de dois sucessos na política externa(A libertação das enfermeiras búlgaras na Líbia e de Ingrid Betancourt na Colômbia). Na verdade, Sarkozy sempre deveu sua eleição mais a campanha horrenda de sua oponente socialista, Segolene Royal, que por seus méritos ou popularidade próprias.

O candidato escolhido pelos socialistas, François Hollande, não é nenhum chefe de executivo com carreira estelar. A grande fama em nível nacional do ex-marido da antiga oponente de Sarkozy, Segolene, é pelo seus dez anos na Presidência do Partido Socialista(Hollande foi prefeito de Tulle, uma cidadezinha de quinze mil habitantes no Departamento de Córreze e deputado pelo mesmo departamento). A grande estrela desta eleição não é nenhum dos dois principais candidatos, mas Marine Le Pen, filha de Jean Marie Le Pen.

Marine tende a ser descrita como uma política mais moderada em assuntos sociais(Ela é divorciada, pro-choice em temas de aborto) e uma política mais habilidosa e cautelosa que o pai. Ela também é carismática, qualidade que nem Hollande nem Sarkozy contam em abundância. A maioria dos analistas aposta que ela é plenamente capaz de repetir a façanha do pai em 2002 e chegar ao segundo turno. Ao contrário do resto da zona do euro não há indisposição com o Euro e com Bruxelas, mas há forte sentimento contra imigrantes no país com maior população magrebina do continente.

Com o ex-primeiro ministro Dominique de Villepin concorrendo e com a alta impopularidade de Sarkozy é aposta fácil de que ela enfrentaria Hollande, não Sarkozy no segundo turno. Espere por uma campanha pouco grandiosa, pela eleição do primeiro presidente francês socialista desde de François Mitterrand e por Marine Le Pen no segundo turno.

Eleições Presidenciais- México: Em 2000 Vicente Fox, do PAN, um partido mais identificado com o típico conservadorismo da América Hispânica(Que tende a combinar um ambiente favorável a empresas com políticas razoavelmente conservadoras do ponto de vista social) abria um novo ciclo na política mexicana ao derrotar o PRI, a grande presença da política mexicana desde da Revolução de 1910. O México no período teve todo tipo de presidente, de revolucionários anti-religiosos como Plutarco Ellias Calle, conservadores linha dura e impopulares como Gustavo Diaz Ordaz e os baluartes do liberalismo ortodoxo dos anos 90, Salinas Gortari e Ernesto Zedillo.

Felipe Calderon está basicamente encerrando este curto ciclo. Em 2007, Calderon abriria uma pequena caixa de horrores ao se valer do Exército para combater os cartéis da droga. Os mexicanos logo descobririam como suas forças de segurança eram desorganizadas e corruptas – os Zetas, um dos cartéis mais brutais, foram fundados por membros desertores do GAFE, o grupo de elite do Exército, que fazia segurança para os traficantes. O norte do país se transformaria numa zona de guerra, em especial os estados localizados perto da fronteira com os EUA, notícias de chacinas horrendas ocupariam os jornais. Ciudad Juarez, estado de Chihuauha, que formava com El Paso, Texas, uma promissora zona metropolitana, viraria zona de guerra. Monterrey, um oásis econômico no norte do país, seria afetado pelo tráfico, assim como Acalpuco, no estado de Guerrero, o balneário predileto dos turistas americanos. Isso imporia um forte dano econômico ao México, num período favorável ao resto da região.

Há ampla percepção no México de que Calderon não deveria ter aberto a caixa de horrores e que isso deveria ser problema dos gringos ao norte. Calderon ampliou a cobertura pública de saúde, assim como inaugurou um número recorde de universidades. Mas o tráfico e a violência são os únicos pontos que dominam o ciclo de notícias. Em grande parte porque isso afeta a economia. O grande beneficiário é o PRI, que vêm de uma leva sucessiva de vitórias eleitorias, e que conseguiu avançar no ponto forte do PAN, o norte do país. A esquerda mexicana, capitaneada pelo PRD, sofre com divisões internas(Não ajuda também que o PRD tenha governado seu grande foco eleitoral, o Distrito Federal, como se fosse San Francisco).

A maioria dos analistas dá como certa a eleição do priista Enrique Peña Neto, o popular e carismático ex-governador do Estado do México, o estado mais populoso do país, que concentra mais de 10% da população. O PRI conseguiu se unir rapidamente dentro da liderança de Pena Neto, ao contrário dos outros dois grandes partidos, fortemente divididos. Os panistas estão dividido entre três candidatos: Josefina Vazquez Mota(Ex-deputada por voto proporcional por Chihauahua), Santiago Creel(Senador eleito por lista nacional) e Ernesto Cordero Arroyo, ex-ministro das Finanças de Calderon. Todos os três estudaram nos Estados Unidos, todos os três participaram do gabinete de Calderón ou de Fox. A maioria das pesquisas dá vantagem a Vazquez Mota para as primárias panistas de fevereiro. Ela seria a primeira mulher a ser candidata por um partido grande à presidência do país. Ela também tem tentado levar a bandeira de Calderon adiante, apontando para linha dura contra o tráfico, apontando para o suposto molejamento que Pena Neto imporia ao crime organizado. Boa sorte nisso.

A esquerda alinhada com o PRD tende a repetir a aposta em Manoel Andrés Lopes Obrador, ex-chefe de estado do Distrito Federal, que derrotou Marcelo Ebrard, o atual ocupante do cargo, depois que pesquisas indicaram vantagem de Obrador, que quase derrotou Calderon em um pleito controverso 2006. Espere por uma vitória fácil de Pena Neto. O sistema eleitoral mexicano, com apenas um turno e três partidos fortes costuma favorecer pleitos concorridos, mas Pena Neto unificou o PRI em torno da sua figura, o PRD e o PAN estão enfraquecidos por disputas no poder e pelo fantasma de Calderon, no ultimo caso. Espere também pela primeira candidata a presidência do país e a mais nova membro do clube das supermulheres da política do continente, junto com Cristina Fernandez, Michelle Bachelet e Dilma Rousseff.

Eleições Presidenciais-Rússia: Vladmir Putin assumiu o cargo de Primeiro Ministro da Rússia em 1999, quando a Rússia estava desmoralizada pela inabilidade em conter os separatistas na Tchechênia, que na época haviam invadido a República vizinha do Daguestão e estavam promovendo atentados sistemáticos em Moscou. A resposta fulminante de Putin aos rebeldes, a relativa prosperidade graças às reservas energéticas do país, a política externa agressiva, o governo bastante forte e centralizado e eliminação de qualquer pessoa que pudesse liderar alguma oposição faziam com que ele fosse visto por observadores como dono de uma tranca sobre o poder no país. Putin assumiu o cargo de Primeiro Ministro em 2008, cedendo a presidência para Dmitri Medvedev, embora no fundo todo mundo soubesse que Putin ainda tomava a maioria das decisões. O fato de que ambos tenham quase que abertamente feito um trato para trocarem de cargo provocou a ira da população russa, que se reuniu em massa nas ruas de Moscou, São Petersburgo e outras grandes cidades.

Putin não tem votos, segundo as pesquisas, para vencer no primeiro turno. Mas também não há nenhuma figura realmente forte para peitá-lo na oposição. Mas é uma eleição bem mais interessante que parece que seria.

Eleições Presidenciais-Venezuela: Hugo Chávez é outro visto como tendo uma tranca no poder. No entanto, Chávez se encontra relativamente vulnerável, talvez mais vulnerável que desde da sua ascensão ao poder em 1999. Há problemas tanto com inflação quanto de insegurança(O pais, não o México, é o mais violento do continente) e a oposição parece decidida a se livrar de Chávez, inclusive com uma candidatura única, que será escolhida por uma primária a ser realizada em fevereiro. Todos os candidatos, com exceção de Diego Arria, ex-embaixador do país na ONU, tendem a ser bastante jovens. Maria Corina Machado, uma jovem ativista bastante popular em círculos republicanos nos EUA é uma candidata que chama a atenção.

A Primavera Árabe: O termo Primavera Árabe é um termo bastante incorreto porque primaveras duram três meses. O processo que ocorre atualmente no mundo árabe é bastante mais amplo e demorado: de uma certa forma, é certamente o evento político mais fascinante desde da Queda do Muro de Berlim em 1989. Com exceção da Mauritânia, todos os países do Magreb(Além do Egito) passaram ou irão passar por eleições, e foram registradas revoltas e protestos por todas as regiões. Governos estão sendo forçados a ceder poder ou a fazer concessões. Há um entendimento em prol de “democracia”, uma palavra nunca muito popular no mundo árabe.

O questionamento mais interessante é sobre a possibilidade de democracias islâmicas. Entre os observadores ocidentais a idéia de “democracia” num país árabe nunca foi muito popular porque isso significaria a ascensão de grupos islamistas que imporiam restrições à liberdade individual e adotariam políticas anti-Ocidente(O islã sempre trabalhou com uma separação mais tênue entre política e religião que as outras religiões abraamicas). A imprensa histérica brasileira fala bastante em “fundamentalistas”, mas por mais que esses movimentos todos não sejam ausentes de problemas(Os coptas do Egito que o digam) há uma movimentação bastante moderada entre os partidos islamistas que estão ganhando eleições. Muitos falam em concessões para outros grupos, e todos falam mais em termos econômicos que religiosos(O sucesso da Irmandade Muçulmana se deve em parte ao fato deles serem democratas superiores aos liberais). Recep Tayyip Erdo?an, líder de um partido islamista, conseguiu não só ser eleito Primeiro Ministro da Turquia, mas liderar um período de prosperidade econômica e ser um líder popular. É seguro acreditar que os islamistas árabes queiram seguir seu exemplo.

A outra dúvida é a possibilidade das revoltas se espalharem pelo resto da África, embora no caso faltaria o elo comum, tanto da rede Al-Jazeera quanto do Qatar, o grande apoiador financeiro de grande parte das revoltas.

Crise da Dívida Européia: A única certeza quanto a isso é que haverá uma crise. Mas é difícil de acreditar que o atual problema com o euro possa ser resolvido sem recessão ou problemas econômicos. Espere por uma recessão, mesmo que leve, na zona do euro. Apostas? Pode-se apostar que Cameron e Merkel conseguem manter seu gabinete, e de que Berlusconi ficará longe do cargo de primeiro ministro e de que a composição da zona do euro fica basicamente como está. São apostas que geralmente não se confirmam, mas é sempre divertido.

China: O colapso da União Soviética reforçou a idéia entre observadores ocidentais de que regimes democráticos não somente ofereciam melhor qualidade de vida, mas também eram mais eficientes, economicamente falando. A China com crescimento perto da casa dos dois dígitos por ano era o grande empecilho a associação entre democracia e progresso bastante comum entre liberais no Ocidente, o que sempre fez com que se levantasse profecias nebulosas quanto a possibilidade de crescimento chinês a longo prazo. Profecias nunca cumpridas, embora o risco de inflação e de uma bolha imobiliária tenham sempre preocupado os analistas.

A China, apesar de tudo, parece estar sendo capaz de desaquecer sua economia gradualmente. É possível que os países exportadores de commodities bastante dependentes da China (Austrália, boa parte da África e a América Latina inteira) possam assistir a freada gradual da economia chinesa sem grandes percalços. Mas nunca se sabe. O outro questionamento sobre a China é político: o país gasta mais para conter a sua população que em defesa em si, e sempre há dúvidas sobre o quanto tempo que o Partido Comunista irá conseguir fazer isso. Eventos recentes, como os protestos por causa do acidente com o trem-bala, a ajuda velada que o artista plástico e dissidente Al-Weiwei recebeu enquanto permaneceu preso e os protestos na vila rural de Wukan, na província de Guangdong(Uma das mais ricas do país) indicam uma certa indisposição da população quanto a seus líderes.

(Sim, faltou a antiretrospectiva doméstica. Se houver paciência, tento fazer alguma coisa neste sentido).

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Thursday, January 5th, 2012...11:10 pm
As eleições presidenciais, Estados Unidos
Sem esperança aqui

Em novembro, no programa Meet the Press da NBC, o senador democrata por Nova York, Chuck Schumer, elogiou Newt Gingrich, que havia tido uma conturbada passagem na presidência da Casa de Representantes do Congresso e que na época liderava as pesquisas pela nomeação republicana. Schumer disse que Gingrich era um cara esperto, e que havia mostrado coragem em imigração(Num debate recente, Gingrich havia proposto que imigrantes ilegais com famílias e que fossem a igreja deveriam poder ficar no país), ao invés de simplesmente de manter uma opinião de acordo com o vento, e de que as pessoas estavam procurando por coragem e liderança. Schumer estava fazendo um cutucão discreto em Mitt Romney, que para muitos analistas(E para democratas em geral) seria o provável candidato republicano.

Assessores diretos de Obama não são tão sutis. Robert Gibbs, o porta-voz que virou conselheiro de campanha diz que Romney é como o clima. Se você não gosta de uma opinião de Romney é só esperar até o dia seguinte que a opinião dele já vai ter mudado. David Pfouffe, conselheiro-sênior de Obama, diz que Romney não tem consistência. Explica-se: Romney fez carreira em Massachusetts, um dos estados mais liberais do país. Sim, a Massachusetts de Michael Dukakis, Ted Kennedy e John Kerry. É muito dificil um sujeito ter uma perfomance razoável numa eleição contra o Senador Ted Kennedy em 1994, depois ser eleito governador do estado em 2002 e vencer as primárias republicanas em seguida(Romney resolveu tudo de uma das piores formas possíveis, que foi mudando de opinião em tudo quanto é assunto). Para piorar, Romney assinou uma reforma da saúde que serviria de base para a reforma da saúde de Obama.

Obama foi eleito em 2008 com lemas como esperança, mudança. O seu caminho para a reeleição parece passar por uma campanha negativa brutal. Vai ser uma campanha bem diferente desta vez.

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Tuesday, December 27th, 2011...11:20 pm
Midia
Marco Antonio Villa e a Stasi

Marco Antonio Villa é um professor de uma universidade federal brasileira. Isso, naturalmente, pressupõe alguém que conheça as sutilezas de coisas como História e Ciência Política. O que implica, por exemplo, saber que analogias a regimes ditatoriais nunca são uma boa idéia, tanto pela inexatidão como pelo risco de se trivializar eventos brutais. Por exemplo, Villa consegue nos brindar com a seguinte linha, num op-ed particularmente pedestre:

“A máquina petista virou uma Stasi tropical, tão truculenta como aquela que oprimiu os alemães-orientais durante 40 anos.”

Mesmo se aceitarmos a premissa de que os petistas tenham se valido de escutas e outros métodos ilegais para montar dossiês sobre oponentes políticos (O que seria a única forma de se produzir um dossiê ser ilegal), a Stasi era uma polícia secreta que torturava, executava pessoas em larga escala e que mantinha forte controle sobre todos os aspectos da vida na Republica Democrática Alemã. Pode-se aceitar qualquer premissa de qualquer idéia mais delirante das correntes de email mais malucas: a tal da máquina petista nunca pode ser comparada à Stasi, e qualquer comparação neste sentido é um chute na cabeça de todos os dissidentes da Alemanha Oriental, e de todas as pessoas que perderam a vida ou entes queridos à Stasi.

Esta é uma analogia infantil. Não deveria ter espaço num jornal, e muito menos dentro de gente de dentro de uma universidade.

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Monday, December 26th, 2011...1:08 am
Midia
Cynara Menezes, cartacapitalesca

Cynara Menezes publicou um texto bastante cartacapitalesco no site da Carta Capital:

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.

Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”.

Cynara não menciona nenhum dado para corroborar que o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano” seja uma espécie de Bíblia do pensamento conservador do continente(Dificilmente é o livro mais citado no meio), que, aliás, nunca foi uma coisa muito bem definida. Os partidos ditos de direita no continente(PAN no México, Partido da União Social Nacional na Colômbia, etc) sempre penderam mais para um liberalismo de livre-mercado em linhas latino-americanas, assim como os intelectuais públicos(Hernando de Soto no Peru ou Enrique Krauze no México). Aliás, fale-se o que quiser, mas a direita na América Hispânica ao menos tem um tanto de amor próprio, tanto pelos seus países quanto pelo continente, e respeitam os direitos de imigrantes(Krauze escreveu, por exemplo, um monumental trabalho sobre a História do México). Não se pode dizer o mesmo da direita brasileira, ou ao menos de quem se identifica como tal.

Pode-se chamar Alvaro Vargas Llosa de americanizado e de neoliberal, mas não há nenhuma associação possível dele com o politicamente incorreto. Ele participa de um bloco do programa de rádio espanhol La Ventana, em que também participa Boris Izaguirre, que é homossexual assumido, e nunca há atritos nem piadas com isso(Na verdade, quem costuma bancar o politicamente incorreto no programa é justamente Izaguirre). O último livro de Alvaro Vargas, aliás, se chama “Lições dos Pobres: O triunfo do espírito empreendedor”. Não sei como ser mais politicamente correto.

Oh, sim, o jornalista brasileiro Leandro Narloch lançou uma série de livros com o título “Guia Politicamente Incorreto”. Mas a inspiração de Narloch não veio do livro de Alvaro Vargas Llosa, Carlos Alberto Montaner e Plinio Mendoza, mas de uma série da Regnery americana. Eu concordo em parte com Cynara Menezes no tocante ao culto do tal politicamente incorreto e do fato do humor brasileiro ser excessivamente dependente da idéia de se humilhar terceiros, mas a citação ao livro denota falta de informação e superficialidade(Há outros problemas também: não há nenhuma relação entre a posição da Igreja Católica quanto ao aborto – sendo que as alas mais liberais tendem a ser mais suaves com isso – e pedofilia entre padres).

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Tuesday, December 20th, 2011...11:53 pm
A Guerra ao Iraque
O fim da Guerra ao Iraque

Entre 2002 e 2003, quando o mundo inteiro debatia sobre a invasão ou não ao Iraque a questão era vista inevitavelmente do ponto de vista dos americanos. Mesmo opositores da Guerra, como Edward Herman, apontavam que a guerra seria na verdade um massacre, e o principal ponto do debate era inevitavelmente moral: os americanos, afinal de contas, teriam o direito de invadir o país? Pipocavam protestos sobre uma guerra que teria sido motivada por petróleo, tanto aqui quanto nos EUA se culpava um pequeno grupo de intelectuais, os neocons, que teriam manipulado o governo em prol da guerra.

Esta semana, a guerra acaba de forma melancólica. Tanto os soldados que aparecem na TV quanto Leon Panetta, o Secretário da Defesa, que discursou aos soldados no Iraque não falam em nada relacionados aos americanos. Eles falam na “liberdade conquistada pelos iraquianos”. Não há parada nas ruas pela vitória. No final, a guerra acaba com uma justificativa que teria muito a ver com os iraquianos, mas não com os interesses americanos. O que é, no mínimo, irônico. Mesmo aqueles que apoiaram a guerra com fervor não deram grandes justificativas para a guerra do ponto de vista dos americanos, e no fundo, tanto quem era contra e quem era a favor errou quanto a motivação americana para a guerra. Que, aliás, parece ser mais popular entre os iraquianos, felizes pela queda de Saddam, que entre os americanos.

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Sunday, December 18th, 2011...9:10 pm
Midia
Cristopher Hitchens(1949-2011)

Michael Gerson, que trabalhou com George Bush, escreveu que considerava Cristopher Hitchens(O polemicista que morreu na sexta), que morreu de câncer aos 62 anos, como o mais articulado incrédulo do mundo. Sei não. Uma das razões pelas quais eu nunca fui muito fã dos ditos “novos ateístas” era como isso era no fundo uma traição de tudo o que de melhor que a tradição intelectual ateísta tinha a oferecer. Desde de David Hume e Arthur Schopenhauer que o ateísmo tinha como missão libertar-se da religião: Hume e Schopenhauer desdenhavam abertamente Deus. Richard Dawkins, Sam Harris e Hitchens parecem enxergar o ateísmo como uma forma de missão, não de libertação. Como Charles Moore do Daily Telegraph notou anos atrás os ateístas militantes parecem adotar exatamente as características que os ateus tanto criticam em religião: - intolerância, dogmatismo, arrogância e desprezo moral por seus oponentes.

(Eu também nunca confiei em autores que passaram do esquerdismo ao conservadorismo, por considerar que eles manteriam o manto autoritário, mas agora sem nenhum escrúpulo).

Alexander Cockburn, um ex-amigo de Hitchens escreveu talvez o melhor obituário de Hitchens. Notando a obsessão de Hitchens com Madre Teresa de Calcutá, o escritor socialista apontou que sempre preferiu Madre Teresa. Afinal de contas, dos dois, era fácil saber de quem você teria mais chances de conseguir um prato de sopa se fosse um maltrapilho em Mumbai, já que Hitchens nunca havia sido generoso com mendigos. Touché.

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Sunday, December 18th, 2011...4:14 am
Midia
Não adianta olhar para o sistema educacional chinês

Uma dessas revistas semanais sensacionalistas publicou uma reportagem de capa apontando para a grande razão do sucesso chinês: um sistema educacional bem gerenciado (Esta é uma frase capciosa porque a rigor não existe um sistema educacional na China: há vários. O sistema educacional de Shangai é bastante diferente do utilizado em Gansu ou em outras províncias no oeste do país). A classe média brasileira sempre gostou de falar no sistema educacional dos países asiáticos, em especial do Japão e da Coréia do Sul, como se o Brasil poderia ser um Japão ou uma Coréia do Sul em tamanho família se investisse em educação da mesma forma que estes países supostamente teriam investido. O que é baboseira.

Os asiáticos não são as estrelas educacionais apenas quando estão em seus países de origem: a diáspora asiática pelo Ocidente também conta com resultados educacionais bastante bons. No Brasil há aquela placa de banheiro de cursinho que diria “Enquanto você está mijando tem um japonês estudando”, mas os asiáticos contam com resultados educacionais bastante acima da média, mesmo quando estudam nas mesmas escolas que os nativos. Nos EUA, os asiáticos contam com desempenho bastante superior a não-asiáticos com renda familiar mais alta, e são superrepresentados nas universidades de elite. Os asiáticos contam com uma cultura de estudo que tornam qualquer comparação difícil porque você poderia colocar alunos brasileiros nas escolas chinesas e colocar alunos brasileiros nas melhores escolas chinesas: os chineses ainda assim se sairiam melhor porque eles têm uma cultura que valoriza o estudo. Na verdade, há indícios de como um todo o sistema educacional chinês(Assim como da Índia) seja bastante problemático.

Pode-se debater sobre o papel da cultura no desempenho escolar: nos Estados Unidos, por exemplo, conservadores negros como Shelby Steele e Thomas Sowell tende a supervalorizar este aspecto enquanto que outros estudiosos mais à esquerda como Diane Ravich apontam que o maior determinante de desempenho escolar de uma criança é a pobreza, e que é preciso se eliminar a pobreza infantil para se eliminar os problemas na escola. Por outro lado é ilusão achar que qualquer país da Ásia pode servir de exemplo a qualquer país do Ocidente justamente porque com famílias e estudantes dedicados que se encontram naquele continente o trabalho de qualquer sistema educacional se torna fácil. Em reportagens é comum se ver salas de aulas caindo aos pedaços em algum lugar do interior da China, com todos os alunos assistindo à aula com atenção (Certo, não é o melhor parâmetro, mas mesmo assim).

Uma das razões pela qual os brasileiros costumam se encantar com sistemas educacionais estrangeiros é que muito mais conveniente acreditar que tudo pode ser resolvido num passe de mágica com “investimentos em educação” que assumir que nós, brasileiros, independente de classe social, lemos muito pouco, temos um conhecimento parco sobre o que ocorre no mundo e não dedicamos ao esforço intelectual. Sim, mesmo a nossas chamadas elites e a nossa classe média é inculta para dedéu. Não raro, jornalistas estrangeiros apontam que pouca gente no Brasil sabe falar inglês. (Um ponto que me chama a atenção é que as elites da Ásia são ávidas consumidoras de informação em inglês. A CNN Internacional e a redes internacionais da BBC tem entre os asiáticos um dos seus principais públicos, e é fácil encontrar asiáticos em caixas de comentários de site de notícias e de podcasts noticiosos em inglês). A própria revista em questão, supostamente uma revista semanal de informação(E supostamente centrada na classe média), é um exemplo banal porque mesmo naquele que talvez seja o ano mais movimentado no noticiário internacional desde de 1989 as capas se concentram em coisas como assuntos de beleza e personagens de novela.

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Thursday, December 15th, 2011...1:02 am
Brasil
O Brasil precisa banir o uso das tasers

Quando as tasers, uma de arma de eletrochoque bastante utilizada por forças de segurança nos Estados Unidos para imobilizar suspeitos começaram a se popularizar a premissa seria de salvar vidas. Um policial poderia imobilizar alguém sem sacar uma arma de fogo. O problema é que as tasers começaram a ser utilizadas para motivos espúrios, e um choque forte o bastante para imobilizar alguém com forte peso não é muito diferente de tortura. No Brasil essas armas começaram a ser utilizadas pelas Guardas Municipais, que com o passar do tempo se tornaram uma instituição bizarra(Há gente no Brasil que defende a transformação dessas guardas em polícias municipais, mas dois grandes países que se valem do sistema – México e França – nem de longe servem de exemplo construtivo) . As Guardas não raro tentam exercer funções que são da Polícia Militar, enquanto que não conseguem exercer sua função constitucional, que é proteger patrimônio.

Esta semana tivemos um exemplo da idéia de jerico que é entregar tasers às Guardas Municipais quando estas armas foram utilizadas contra manifestantes na Câmara de Vereadores de Campinas. Você corre o risco da mesma banalização dos usos destas armas que ocorreu nos EUA, sendo que no Brasil, aonde não existe a Primeira Emenda, o uso deste tipo de arma contra manifestantes é particularmente perturbador. O risco de abusos é bem maior que qualquer uso legitimo destas armas. Não precisamos esperar alguém morrer de ataque cardíaco num incidente com uma dessas armas para se movimentar neste sentido.

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Wednesday, December 14th, 2011...1:38 am
Europa
Desunião Européia

Nicolas Sarkozy, talvez o chefe de governo mais impopular dentro da zona do euro, está tentando um novo mote para a campanha de reeleição: a defesa do “fabricado na França”. Todos os principais candidatos para a eleição do ano que vêm defendem algum tipo de “patriotismo industrial”, mas Sarkozy está reforçando a idéia de que os franceses devem preferir produtos fabricados na França, mas não necessariamente de empresas francesas(Sarkozy cita o Toyota Yaris, fabricado em Pas-de-Calais enquanto que o Clio da Renault tende a ser fabricado em qualquer outro país). David Cameron vetou semana passada uma alteração num acordo proposta pela França e Alemanha que estreitaria os controles fiscais entre os países membros apontando abertamente para a fragilidade da chamada The City, o centro financeiro de Londres e do Continente(Vários países tentaram tirar esta posição de Londres, sem sucesso). Já os irlandeses, que tem impostos empresariais baixos, preferem todo tipo de plano de austeridade, mas não querem que mexam com isso(A maioria das grandes empresas americanas tem sede no país), enquanto que outros países, como a França, reclamam desses impostos(Mesmo que os franceses ofereçam deduções, que fazem com que estes impostos empresariais sejam na prática mais baixos que na Irlanda).

Isso tudo é parte de um grande problema estratégico da União Européia, que é a dificuldade dos países membros em equilibrarem interesses econômicos próprios com interesses continentais, o que cria uma união bastante frágil. É muito comum que regiões mais pobres de países se aproveitem da sua mão de obra mais barata para atrair investimentos de outras regiões mais ricas: seria natural que montadoras alemãs ou francesas se aproveitassem dos custos mais baixos para criar unidades na Polônia ou em Portugal. Na prática, os países que sediam estas montadoras se valem de todo tipo de subsídio para impedir este tipo de operação. Não é de se surpreender que existam na União Européia tanto países periféricos de base industrial quase que nula enquanto há países ditos centrais bastante dependentes de exportações. E claro, não é de se surpreender a ascensão de partidos de extrema esquerda no primeiro bloco e de extrema direita no segundo. (Parte do motivo pelo qual Sarkozy aponta para o “fabricado na França” é a ascensão de Marine Le Pen, a filha de Jean Marie e nova líder da Frente Nacional. Marine corre o risco de assim como seu pai ir ao segundo turno da eleição presidencial. Diferentemente do seu pai ela não derrubaria o candidato socialista para isso).

Há um panorama monetário horrendo na União Européia, em que não se vislumbra saída sem recessão e aonde mesmo os fundos de países como Alemanha e Suécia seriam insuficientes para fechar as contas. Por outro lado, os problemas políticos não são muito menores.

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Tuesday, December 13th, 2011...12:04 am
-São Paulo-
Faxina não é exclusividade feminina

Dilma Rousseff sempre foi associada à palavra “faxina” quando um ministro pede demissão acusado de corrupção. Creio que depois de décadas de feminismo as mulheres conquistaram os mesmos direitos e creio que cabe a divisão das tarefas domésticas entre pessoas de ambos os sexos. Geraldo Alckmin poderia promover uma pequena faxina no seu secretário, por exemplo. Alckmin colocou Saulo de Abreu de Castro na Secretaria de Transportes. A gestão de Saulo de Abreu de Castro de Segurança Pública nos dois primeiros mandatos de Alckmin pode ser avaliada basicamente de duas formas: o Secretário truculento, autoritário e abusivo que se valia de policiais militares para resolver conflitos em estacionamento de supermercados e em cuja gestão ocorreram vários massacres promovidos por policiais ou o Secretário incompetente que permitiu que o PCC paralisasse o Estado em maio de 2006.

Ninguém do alto comando da Segurança Pública mereceria qualquer prêmio depois do desastre que foram os eventos daquele ano. Colocar Saulo de Castro em outra secretaria adversa não me parece outra coisa além de apadrinhamento. Outro bom alvo de faxina é o atual secretário da Segurança Público, Antônio Ferreira Pinto. Espalhafatosamente, o governo do Estado anunciou a subordinação da Corregedoria da Polícia Civil ao secretário de Segurança Públican – que segundo o governo estadual, o jornal com mesma tiragem ao Kansas City Star sediado nas margens do Tietê e aquela revista semanal sensacionalista diriam que puniriam os maus policiais. Claro, isso antes da Polícia Federal anunciar que havia descoberto vários policiais civis extorquindo traficantes, apenas para o secretário reclamar de não ter sido avisado na TV. Também tivemos o massacre de seis assaltantes num supermercado na Parada de Taipais, zona norte da capital, em agosto(Fotos divulgadas posteriormente pela internet apontam para sinais de execuções. Se você tiver estômago não vai ter dificuldade para achar).

Faxina não é exclusividade feminina, e a imprensa não deveria tratá-la como tal.

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Sunday, December 4th, 2011...3:46 pm
Midia
O “gringo” da Fobres e Fátima Bernardes

O portal da Oi/antiga Brasil Telecom publicou uma nota bizarra sobre a saída de Fátima Bernardes da bancada do Jornal Nacional:

A saída de Fátima Bernardes do “Jornal Nacional” virou notícia internacional. O site da Forbes trouxe uma matéria especial sobre as mudanças na bancada do programa global. A página da revista norte-americana fala sobre a despreocupação dos brasileiros diante de crises financeiras e diz que, uma das provas disso, é que “enquanto a Europa luta com a crise da dívida soberana, para não mencionar o comportamento sempre estranho dos políticos em Brasília, a grande notícia esta semana no Brasil tem sido a dança das cadeiras em um dos mais populares noticiários do país”.

Claro que quem se deu ao trabalho de checar percebeu que a “matéria especial” é na verdade um post de um blog no site da revista, que conta com colaboradores diversos e independentes nos seus blogs(O faturamento dos anúncios é dividido entre a revista e o blogueiro). O blogueiro que escreveu a matéria, Anderson Antunes nos brinda com artigos sobre perspectivas diversas e brilhantes, como, por exemplo, se Gisele Bundchen tem desempenho melhor ou pior que a Dow Jones.

Por outro lado, convenhamos, se a notícia da saída do que seria basicamente uma dondoca* do Jornal Nacional atrai mais atenção que qualquer coisa relevante do noticiário isso diz mais sobre os brasileiros que sobre a Fátima Bernardes. E o que isso diz não é nada lisonjeador. Na verdade, a forma com que as ditas elites se afastam do noticiário aqui no Brasil é assustadoramente preocupante.

*- Quando Diane Sawyer assumiu o telejornal ABC World News ela logo no primeiro programa estava entrevistando Ahmadinejad, para depois apresentar o telejornal do Afeganistão e logo em seguida fazer o mesmo da região do terremoto no Haiti. Fátima Bernardes, que fica basicamente lendo as notícias da bancada, estaria “cansada”.

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Thursday, December 1st, 2011...12:17 am
Europa
Um mundo sem a Europa

Semana passada, George Will publicou uma piada na sua coluna de jornal: “Um espanhol, um italiano e um grego vão ao bar e bebem até o amanhecer. Quem paga a conta? Um alemão.” Para comentaristas do outro lado do espectro ideológico o esporte preferido é malhar a Alemanha, que se opõe à soluções tipicamente keynesianas para o problema(Como uma política monetária bem mais frouxa do Banco Central Europeu).

Claro que no fundo o problema é bem mais complexo que esta disputa entre a periferia do Euro e a Alemanha, como apontaram Simon Johnson e Peter Boone numa coluna para a Bloomberg esta semana. Boone e Jonhson apontam que a frugal Alemanha, antes vista como um refúgio para investidores, não conseguiu vender um terço de seus títulos num leilão da semana passada. O ponto é que investidores não estão interessados se a Alemanha é capaz de pagar os títulos(O país tem crédito impecável), mas sim de que eles não confiam na estabilidade do Euro, uma moeda que corre o risco de valer bem menos no futuro.

Não existem soluções fáceis para a Crise. Se o Banco Central Europeu assumir todos os riscos da dívida desses países ele corre o risco de criar inflação. Tanto países como Portugal e Irlanda como os bancos europeus tem tanta divida que eles não podem liquidá-la por baixo custo: na prática, esses países não vão conseguir empréstimos no mercado de capitais. Por décadas esses países só conseguirão empréstimos com juros violentos, o que seria recessivo(Os brasileiros já viram este filme). Em qualquer situação seria impossível não haver quebras de bancos ou fuga de capitais.(Outro ponto é que a Alemanha, que tem uma população de idade avançada e alto endividamento, não conseguiria carregar o continente nas costas sozinha).

E sim, simplesmente tirar alguns países da Zona do Euro ou dividir a moeda em duas não seria fácil. Os países com bom crédito e bom crescimento na Europa, como Alemanha, Holanda e Finlândia (Bastante dependente da Nokia) são países bastante dependentes de exportação. Uma moeda apenas com esses países perto do Euro apenas com países da periferia do euro seria ultravalorizado, o que destruiria as exportações desses países. E países como a Grécia e Portugal não suportariam a fuga de capitais de uma separação com o euro. A União Européia tem cerca de um QUINTO da economia mundial.

A questão, cada vez mais, é se os outros quatro quintos da economia mundial poderiam sobreviver à quebra do continente. Este é um assunto bem mais preocupante que parece aos brasileiros.

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Thursday, November 24th, 2011...12:49 am
Brasil
A corrupção honesta

Peter Schweizer, da Hoover Institution está causando debate nos EUA depois que o 60 Minutes da CBS dedicou um bloco inteiro a um livro seu,
Throw Them All Out. Tanto o livro de Schweitzer quanto a reportagem da CBS(Exibida domingo passado) apontam para que o Schweitzer chama de “corrupção honesta”, que são as diversas formas plenamente legais do ponto de vista da lei mas moralmente duvidosas que congressistas usam para se enriquecer. Uma delas é o uso de informações de reuniões confidenciais ou de informação privilegiada para fazer ganhos no mercado de ações. Um exemplo é de Spencer Bachus(R-Alabama) que era o principal republicano no Comitê da Casa de Representantes, que depois de uma reunião bastante confidencial(Em que celulares teriam sido confiscados antes da reunião) com o presidente do Fed Ben Bernanke e o então Secretário do Tesouro, Hank Paulson, teria se valido das informações para fazer aplicações financeiras, no auge da crise financeira de 2008. Tanto o senador Judd Gregg(R-New Hampshire) quanto Dennis Hassert(R-Illinois) conseguiram bastante dinheiro quando tiveram propriedades valorizadas depois da realização de obras com verbas por meio de emendas orçamentárias nas proximidades.

Schweizer faz um ponto interessante: se ele desse dez mil dólares numa caixa de sapato a um congressista os dois seriam presos. Por outro lado, se ele fizesse uma oferta pública inicial de ações que lhe rendessem cem mil ao mesmo congressista isso seria perfeitamente legal(Nos EUA, as empresas podem ofertar ações a convidados antes de lançá-las no mercado). Nancy Pelosi, que teria se beneficiado de um acordo do gênero com a Visa, é acusada por Schweizer de nunca ter colocado em votação legislação que colocaria limites na ação de empresas de cartão de crédito.

São pontos bastante relevantes ao Brasil. Primeiro, é uma demonstração cabal que corrupção na política não é exclusividade brasileira. O segundo, e mais importante, é que há amplos gritos no Brasil contra a corrupção dentro da política, por outro lado parte do problema é justamente definir o que é exatamente isso. A classe média brasileira é obcecada por corrupção porque é um tema que pode ser reduzido a uma dicotomia simples – algum político fez algo moralmente condenável – já que estamos falando de uma classe média com um grau de instrução ridiculamente baixo para entender as nuances políticas ou do noticiário. Por outro lado as nuances da manipulação do poder para beneficio próprio ou ainda as modalidades brasileiras de “corrupção honesta” precisariam ser melhor debatidas. No caso brasileiro, por exemplo, considerando-se a concentração de poder que prefeitos e governadores têm, é extremamente fácil para um prefeito construir obras pensando na valorização de propriedades próprias ou de correligionários ( É provável que a maior parte das obras viárias no Brasil sejam feitas com isso em mente. Já vi estrada municipal em que o asfalto acabava num condomínio recém-construído).

A forma simplória como tanto a mídia quanto a classe média preocupada lidam com a questão não ajudam.

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Monday, November 21st, 2011...1:33 am
Midia
Luis Inácio Krugman da Silva

Ano passado eu apontei para a comparação feita, no programa This Week, da rede ABC americana, entre Lula e Paul Krugman, que segundo o economista muita gente dizia que os dois eram parecidos. Hoje, ao ver o mesmo programa notei que Krugman havia engordado, e com isso ele estava ainda mais parecido com o ex-presidente. Até o olhar e o gestual estão mais parecidos. Bizarro.

(Note-se a diferença de tamanho entre Krugman e o estrategista republicano Matthew Dowd, à esquerda, e George Will, à direita).

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Sunday, November 20th, 2011...11:41 pm
Espanha
Espanha: é a vez de Rajoy

Como previsto, os socialistas sofreram uma verdadeira surra nas eleições parlamentares espanholas deste domingo. Eles perderam em todas as províncias, com exceção de Sevilha e de Barcelona. Durante o mandato de Jose Luis Zapatero, bastante amigável aos sindicatos, a Espanha enfrentou a ascensão dos los
indignados, em que sete milhões de pessoas ocuparam as ruas de várias cidades do país, além de várias greves gerais. Mariano Rajoy, o novo primeiro-ministro, havia pedido uma votação em massa para acalmar os mercados. É possível prever que ele apóie várias medidas de austeridade, o que motivaria ainda mais greves e confrontos.

Com desemprego na faixa dos 20% não há solução fácil para a Espanha, que não conta com nenhum setor exportador realmente forte. Rajoy, um raro chefe de Estado que fuma cigarros abertamente, vai ser um belo saco de pancada para a esquerda espanhola.

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Sunday, November 20th, 2011...10:09 pm
Oriente Médio & Norte da África
O verdadeiro significado da “Primavera Árabe”

 

Ted Galen Carpenter num artigo(Que já comentei aqui antes) sobre a Revolução Verde no Irã em 2009 comentou que os americanos sempre idealizaram revoluções e movimentos políticos que ocorriam em outros países, mesmo que isso basicamente signifique ignorar problemas nestas revoluções, como alto número de dissidentes, ou idealizar grupos políticos pouco idealizáveis (Reagan chamou comparou os afegãos que ajudariam a formar o Taliban anos depois com os pais fundadores do seu país, o senador democrata Frank Church fez o mesmo com grupos de esquerda na América Latina no final dos anos 70). É natural que a Queda de Ben Ali na Tunísia, seguida pela Queda de Mubarak no Egito tenham galvanizado multidões no Ocidente, que viam um novo 1776 no Mundo Árabe, com o próprio termo pomposo de “Primavera Árabe”. Este entusiasmo se esfriaria quando seria preciso apoio externo da OTAN para se derrubar Kadafi na Líbia(E numa forma mais próxima de um conflito tribal que de uma revolução), quando Bahrain e numa escala bem menor Yemen conseguiriam conter levantes populares e quando a tentativa de se derrubar Assad na Síria caminhou para uma repressão brutal e para uma quase guerra civil. Muitos apontam para o risco da ascensão de islamistas, outros para os riscos para as populações cristãs e judias da região(A vida dos coptas no Egito piorou bastante).

Por outro lado há uma outra revolução no mundo árabe e no mundo islâmico como um todo. Os árabes nunca deram muita bola para a palavra “democracia”, esta invenção ocidental, em parte porque o islamismo estabelece várias regras de convívio social e muitos muçulmanos sempre acharam que isso era suficiente. Mas tanto nas revoltas populares do primeiro semestre quanto em eventos mais recentes, como no Kuwait, você escuta esta palavra mágica – democracia - sendo proferida. Isto não quer dizer respeito à minorias ou na idéia de império da lei, mas sim na idéia de que um governo tem que responder ao povo. Mesmo na Turquia há Recep Tayyip Erdo?an, um populista bastante aberto, um contraste com a linha bem mais discreta que os governantes do país adotaram desde de Ataturk. Isto é diferente dos anos 70, quando os grandes movimentos políticos da região osclivam entre o islamismo e o ultranacionalismo de Sadat.

Por mais que isso não signifique que esses países adotem democracias fortes ou mesmo democracias representativas isso quer dizer que do Marrocos à Arábia Saudita mesmo os reis e ditadores da região sofrerão cada vez mais pressão para atender as demandas da população. Este é o grande significa da chamada “Primavera Árabe” e isto não pode ser ignorado. Isto vai significar governos menos propensos a apoiar Israel, por exemplo, que perdeu dois de seus maiores aliados no mundo muçulmano – Egito e Turquia – numa tacada só.

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Sunday, November 20th, 2011...5:07 pm
-Rio de Janeiro-
Chevron/Transocean: Não há muitas opções em vazamentos de plataformas de petróleo

Muita gente na imprensa têm apontado que o governo federal não estaria preparado para enfrentar desastres ambientais em plataformas de petróleo, apontando para o caso da plataforma da Chevron que motivou um vazamento de petróleo, ainda não controlado, num ponto da bacia de Campos. Não é tão simples assim, e é basicamente esta a razão pela qual este blog nunca foi favorável à divisão nacional dos royalties de petróleo. A exploração de petróleo em alto-mar enfrenta restrições na maior parte dos EUA por causa de um vazamento de petróleo numa plataforma de petróleo em Santa Barbara, na Califórnia, que provocou uma catástrofe pelas praias e cidades da região em 1969. Em 1979 petróleo vazou por nove meses de uma plataforma da Pemex que explodiu no Golfo do México perto do estado de Campeche, México(Ainda hoje é possível encontrar rastros de petróleo tanto no México quanto no Texas). Tanto no caso desta plataforma no México quanto de um vazamento similar na Austrália em 2009 quanto no caso do Golfo do México no ano passado o vazamento só foi contido por meio de um segundo poço para contenção. E com a profundidade cada vez maior dos poços este tipo de operação tende a ficar cada vez mais difícil.

É irrealista manter grandes tropas de navios para a conter manchas de petróleo pela costa brasileira, e a bem da verdade esse tipo de vazamento só pode ser contido se o vazamento for contido. Por outro lado sempre achei bizarro como esta hipótese nunca foi levantada aqui no Brasil. Claro que agora é fácil culpar o governo.

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Wednesday, November 16th, 2011...12:49 am
América Latina
A velha equação chinesa

Com exceção da Venezuela, a América do Sul passa por um momento de grande prosperidade. A Argentina, antes o grande pária depois da moratória da dívida em 2001, cresce bastante exportando soja para a China. Colômbia, Peru, Ecuador, Chile ou mesmo Paraguay estão conseguindo bons níveis de crescimento baseados na mesma receita que a América Portuguesa(Ou seja, o Brasil) conseguiu, que é a venda de commodities para a China.

Dependência de commodities em si não são um problema: isto permite a sustentação de outros setores, inclusive gerando capital para indústrias, e são uma atividade mais estável que possa parecer. Por outro lado isto reforça uma grande vulnerabilidade da economia brasileira: a dependência da China. Uma forte crise na China seria problemática ao Brasil porque jogaria não só a economia do país no freio mas também correria o risco de fazer o mesmo por todo o continente. Você teria dois dos principais parceiros econômicos do Brasil(China e Argentina) com problemas ao mesmo tempo.

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Wednesday, November 16th, 2011...12:26 am
-São Paulo-
Prefeitura de São Paulo: Uma eleição diferente

As disputas para a prefeitura de São Paulo sempre envolveram figuras espalhafatosas, como de Paulo Maluf, Marta Suplicy, Gilberto Kassab e José Serra. Então, é no mínimo interessante o contraste que os partidos desenham para esta eleição em contraste com as eleições passadas. Não há nenhum ex-senador da República na disputa e é difícil imaginar que os eleitores discorram sobre o divórcio de qualquer um dos candidatos. Tanto o candidato preferido dos tucanos (Andrea Matarazzo*) quanto o candidato preferido dos petistas (Fernando Haddad) nunca concorreram a nenhum cargo eletivo. Usando o vocabulário europeu, dois tecnocratas.

São Paulo politicamente é um paradoxo porque é uma grande cidade relativamente conservadora: o PRD mexicano tem seu centro eleitoral no Distrito Federal, nos EUA a força das cidades dentro do partido democrata é lendária(San Diego, Indianapolis, Fort Worth, Mesa, Albuquerque, Miami, Oklahoma City, Tulsa, Fresno e Colorado Springs são as únicas entre as cinqüenta maiores cidades administradas pelos republicanos). Claro que isso não é tão difícil de se explicar: um bom número da população de baixa renda de São Paulo mora nos subúrbios das cidades(O fato de nos EUA a classe média preferir os subúrbios explica a conta no sentido contrário).

Claro que a disputa representa na verdade a disputa de duas forças maiores: Lula e Serra. Os petistas de São Paulo se acostumaram com candidatos como Marta Suplicy, Aloizio Mercadante e José Genoíno, que mantiveram campanhas eleitorais ruins e se acostumaram a ver em Lula, o grande campeão eleitoral vindo daquele meio como alguém capaz de andar sobre a água. Para os tucanos Matarazzo foi a grande força na primeira gestão de Gilberto Kassab, quando ele ainda não era um desastre completo e é legitimo representante da ala paulista do PSDB de São Paulo. Vai ser uma disputa entre o taco político de Lula e identificação de Serra com uma classe média que ainda decide eleições na capital paulista, não entre dois tecnocratas que nunca disputaram eleições.

Kassab, aliás, corre o risco de ser o grande eleitor desta eleição: vai ser a capacidade dos petistas em concorrer contra o impopular Kassab, não o candidato oficial, que vai definir as suas chances de vitória. Há o outro lado da equação: o DEMO, o antigo PFL, sempre conseguiu poder desproporcional na política paulistana porque o horário eleitoral, distribuído de acordo com a bancada de cada partido no Congresso dava ao partido um espaço que não teria em condições normais. Ao criar o PSD Kassab efetivamente destruiu o resto do DEMO, absorvendo quase todo o partido, com exceção da cúpula que incluía a família dos Bornhausens, do César Maia e de ACM(Na prática, isso foi um belo golpe contra a cúpula do partido, que brincava com o DEMO como se fosse um parquinho pessoal).

Resta saber como que fica o tradicional casamento entre o DEMO e o PSDB em São Paulo.

  • Há outros candidatos do lado do PSDB, como José Aníbal, Ricardo Tripoli e Bruno Covas. Mas creio que Matarazzo ainda é o favorito, embora sempre é possível queimar o língua.
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Thursday, November 10th, 2011...11:52 am
-São Paulo-, Brasil
Os filhinhos de papai da USP

Um meme bastante comum entre estudantes e ex-estudantes da USP estariam sendo “demonizados” pela mídia e pela imprensa como “filhinhos de papai desocupados”. Infelizmente, há bem mais pontos aí que ambos os lados gostariam de admitir. O Brasil adotou a idéia de gratuidade dentro do seu sistema de ensino superior público para uma pequena quantidade de alunos enquanto que há relativamente poucos subsídios a alunos do sistema público. Isso, basicamente significa que se você tiver saco para decorar fórmulas que você nunca mais usará em Química e resumos de livros de José de Alencar para passar no vestibular você terá a possibilidade de se fazer o curso superior sem pagar mensalidades. Caso não tenha, faça fila na universidade particular.

É natural que isso crie ressentimentos. Com relação aos filhinhos de papai, bem, alunos universitários são pessoas invariavelmente com média de renda superior à média da população dos países em que moram: qualquer política de gratuidade no Ensino Superior que independa da renda do beneficiado vai ser brutalmente regressiva. No caso brasileiro isso é bem mais regressivo que a média. Não é algo que possa defendido por gente à esquerda de cara limpa.

É natural que quem fique fora do clube se ressinta de quem esteja dentro dele e não dê sinais de valorizar. Convenhamos, considerando-se muitas das demandas da USP e a gratuidade da instituição isso é algo que cai como uma luva. Na verdade, desconfio que Alckmin esteja com sucesso utilizando as mesmas táticas que Richard Nixon(E George Wallace) aplicaram com tanto sucesso com os hippies da época(A propaganda de Nixon na TV em 1968 estava repleta de manifestantes atacando a polícia). É uma armadilha que os estudantes caem quando aparecem em roupas espalhafatosas na TV no meio da PM.

A argumentação de que a USP mostraria o seu valor à sociedade pela sua pesquisa é um tanto que boba. As universidades americanas cobram mensalidades, e isso não impede que elas produzam a maior parte da pesquisa do planeta.  O outro meme comum é se comparar a data de fundação da USP, 1939, com de universidades como Oxford, que teria sido fundada em 998 e Harvard,  em 1636. Obviamente, Harvard e Oxford duzentos anos atrás eram instituições bem diferentes de hoje, e há várias instituições nos rankings internacionais com melhor colocação fundadas na mesma época que a USP(A UCLA de Los Angeles foi fundada em 1919, a maioria das grandes universidades americanas é do final do Século XIX. E nem citou-se a China, que inclusive enfrentou a Revolução Cultural e era um país rural até poucos anos atrás). Na verdade, pelo fato da USP ter o dobro das universidades médias nos EUA e na Europa é seguro dizer que ela é bastante beneficiada neste tipo de ranking.

No atual cenário as universidades estaduais e federais são alvo fácil de ataques demagógicos, e friamente é dificil de se justificar a idéia de gratuidade como ela é aplicada hoje(Seria interessante ao menos impor o pagamento de matérias que o alunos repetem, ou mensalidades para segundo cursos). Isso mereceria um debate melhor.

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Wednesday, November 9th, 2011...1:58 am
Internacional
Andre Forastieri, o maconheiro

André Forastieri nos brinda com um texto para lá de confuso sobre os confrontos entre policiais e estudantes na USP. Bem, na verdade é um texto bizarro e confuso mesmo para os elevados padrões forastierianos, o que não é uma façanha pequena. Vejamos esse pequeno trecho:

“Como qualquer universidade de primeira linha, deveria ser um espaço arejado, de diversidade e experimentação. O que inclui, sim, uma série de atividades socialmente questionáveis fora dos muros do campus.

Universidade não é para socar o máximo de informação nos miolos da juventude e produzir em série um exército de robôs tecnocratas. Trata-se de formar as melhores cabeças do país, o que é impossível sem liberdade e libertinagem.”

Isso é bastante bobo, basicamente, porque você pode questionar o quanto de fato ocorre da tal “diversidade e experimentação”, com “atividades socialmente questionáveis” no meio de universidades de primeira linha mundo afora. Harvard(Assim como a maioria das Ivy Leagues) e as Grande Écoles francesas são locais que Forastieri provavelmente classificaria de “caretésimo”. Por outro lado, por mais que ainda hajam dúvidas sobre os efeitos da maconha é muito difícil de se apontar alguma razão em específico pela qual o seu consumo se relacionaria com qualquer uma das atividades normalmente esperadas dentro da universidade. É difícil entender a relação entre formar as melhores cabeças do país e permitir o consumo de maconha para isto.

Há dois pontos problemáticos não só no Forastieri como na reação de vários comentaristas ao episódio. Eu sou favorável à descriminalização das drogas, mas não é este o ponto sendo levantado aqui. Na verdade, há um tanto de hipocrisia: os alunos da USP querem na verdade que a Polícia faça vista grossa ao consumo de drogas dentro do campus, o consumo continua proibido e a sociedade arca com as externalidades da proibição da mesma forma. Diria, com um pingo de cinismo, que num cenário como este não há incentivos para a classe média que consome maconha pressionar pela descriminalização.

Por fim, a USP não é apenas um lugar supermaneiro, com piscinão e minas cabeças para se namorar. A USP também é uma fatia considerável dos gastos do governo estadual em São Paulo. É natural que as pessoas de fora da faculdade, que apenas custeiam o lugar por meio do ICMS, questionem sobre o que os alunos estejam fazendo dentro do campus e obviamente, isso não é apenas inveja de se poder fumar um baseado sendo apoiado pelo contribuinte. O próprio depoimento de Forastieri, que descreve a USP com palavras mais apropriadas para descrever um clube e que assume ter iniciado dois cursos no lugar sem ter se formado em nenhum são bons motivos pelo qual críticos como eu nunca se sentiram muito confortáveis com a gratuidade nas universidades estaduais e federais. Na verdade, considerando a dependência da USP para a verba estadual é óbvio que qualquer idéia de autonomia tende a ser ilusória e essa discussão está reforçando a idéia que para muitas pessoas que a USP, assim como as outras universidades estaduais, não oferecem o devido retorno à sociedade pelos quase 10% de todo ICMS que elas recebem.

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Monday, November 7th, 2011...11:38 am
Brasil
Dilma e Eike: Lições de moral desnecessárias

Dilma Rousseff andou defendendo que “país que salva bancos” teria condições de garantir renda a famílias em extrema pobreza. Isso é demagogia barata. Os países não salvam bancos por pena dos banqueiros nem porque tenham dinheiro sobrando, mas sim por causa da necessidade de se garantir o dinheiro depositado aos correntistas. Banco nenhum pode suportar seus correntistas sacando dinheiro em massa, e banco quebrado não é capaz de garantir o dinheiro depositado aos seus correntistas. Foi basicamente isso que transformou uma recessão em 1929 numa depressão. Politicamente, isso é veneno puro, capaz de garantir grandes baques tanto a políticos  Mas talvez seja tão necessário quanto politicamente perigoso(Em tempo: sou a favor de se garantir depósitos, mas não de que o controle dos bancos permaneça os mesmos).

Na verdade, Dilma pode ter que engasgar suas palavras. Filiais brasileiras de dois bancos envolvidos até a testa com os problemas da dívida européia contam com um bom número de ativos no Brasil. Pode-se alegar que o HSBC e o Santander brasileiros são operações distintas de suas matrizes européias, por outro lado, nunca se sabe o quanto que esses bancos estariam de fato imunes a prejuízos em massa de suas matrizes. E claro, moralmente, ter que salvar fundos de pensão de estatais(O que inevitavelmente seria necessário se o mercado de ações quebrar) não seria muito melhor.

Por fim, há um hábito tanto de políticos brasileiros quanto de empresários de acharem que podem passar lição de moral para os europeus e americanos. Semanas atrás, Eike Batista, que deve grande parte da sua fortuna à negócios envolvendo o governo, disse a uma estupefata Crystia Freeland na Reuters que os americanos deveriam impor aos chineses uma cota de produção nacional, mesmo que isso significasse pagar mais por produtos(Ele desconversou sobre quando perguntado sobre os consumidores).

Isso pode soar bastante doloroso quando o Brasil enfrentar problemas.

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Sunday, November 6th, 2011...5:54 pm
-São Paulo-
Quatro milhões de metros quadrados sem policiamento

Raquel Rolnik, professora da FAU da USP escreve o seguinte:

“Um segundo aspecto diz respeito ao tema da segurança no campus em si. É uma enorme falácia, dentro ou fora da universidade, dizer que presença de polícia é sinônimo de segurança e vice-versa. O modelo urbanístico do campus, segregado, unifuncional, com densidade de ocupação baixíssima e com mobilidade baseada no automóvel é o mais inseguro dos modelos urbanísticos, porque tem enormes espaços vazios, sem circulação de pessoas, mal iluminados e abandonados durante várias horas do dia e da noite. Esse modelo, como o de muitos outros campi do Brasil, foi desenhado na época da ditadura militar e até hoje não foi devidamente debatido e superado. É evidente, portanto, que a questão da segurança tem muito a ver com a equação urbanística.”

Creio que é ponto de pouca disputa apontar que o modelo do campus da USP é horrendo, urbanisticamente falando e de que isso colabora com a insegurança do local. Por outro lado, é irrealista achar que esse modelo pode ser alterado com facilidade. Isso exigiria na verdade a demolição de vários prédios para a construção de prédios maiores e a transformação de áreas inteiras em parques(Ou áreas residenciais) separados do campus em si ou mesmo a mudança de local da cidade universitária. Se com policiamento uma área dessas não segura, o que dirá sem policiamento.

O problema é que um ponto que eu acho assustador é justamente que tanta gente dentro da USP não percebeu sobre o que significa manter a USP sem policiamento. Em termos de área quando se fala em “cidade” não está se exagerando, justamente porque a Cidade Universitária, com quatro milhões de metros quadrados é maior que a área urbana da maior parte das cidades brasileiras(A USP é maior que todos os distritos do centro da cidade). A USP tem um número bem mais alto de alunos(Mesmo só considerando o campus da capital) que qualquer universidade americana ou européia. E a USP fica numa região central de São Paulo. Os três distritos de São Paulo que fazem fronteira com a USP tem um alto grau de favelização. A Favela São Remo, por exemplo, que fica praticamente dentro da USP, tem histórico de presença de traficantes.

A solução de uma Polícia própria para a USP é problemática, em parte porque polícia não significa apenas espalhar gente armada pelo campus, mas envolve toda uma questão de treinamento (É em parte por isso que guardas municipais são menos eficientes que a PM para policiamento urbano). Mas também porque a USP não pode se transformar na versão do mundo bizarro de Alphaville. Na verdade, para a própria vizinhança da Cidade Universitária é perigoso ter uma área de quatro milhões de quilômetros quadrados sem policiamento. O que é assustador – e perigoso – é que poucas cabeças pensantes da maior universidade do país tenham notado isso.

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Friday, November 4th, 2011...11:35 am
Brasil
Os Estados Unidos não querem resgatar a Europa. O Brasil quer.

O First Read do site da MSNBC aponta que os Estados Unidos não estão alocando mais dinheiro para o FMI( O que significaria alocar mais dinheiro para os frágeis bancos europeus), apesar das notícias de um fundo internacional para a economia do continente. Isso seria, afinal de contas uma linha de ataque fácil para os republicanos. O curioso é que o Brasil parte do caminho oposto, que é o de aumentar a participar do fundo sem oferecer nenhuma contrapartida. Ontem mesmo um apresentador da Sky News perguntava o que o Brasil e a Rússia iriam exigir da Europa em troca de ajuda ao programa de resgate: a resposta, por mais assustadora que seja, talvez seja nada.

Os petistas mantém uma visão do Brasil como uma potência internacional, que poderia em tese fornecer pacotes de resgate para a Europa. Esta é uma visão perigosamente ingênua.Todos os países em crise da zona do Euro contam com renda percapita superior a do Brasil(Em várias vezes), que tem seus próprios problemas(O Brasil provavelmente tem a pior infraestrutura de transportes dos grandes países emergentes). Os petistas também parecem ignorar os requisitos necessários para se ser uma superpotência, como Forças Armadas fortes tanto em equipamento quanto em pessoal. Mesmo uma potência puramente regional como a Turquia(Um dos maiores exércitos da Europa em termos de efetivos) conta com Forças Armadas dignas de nome.

Poucos brasileiros não notaram que o FMI é um fundo de emergência(Ou seja, não é muito dificil ficar de dever ao fundo a longo prazo), de que há 187 países membros do FMI(Que em tese podem ser chamados de credores) e de que os europeus basicamente querem usar o FMI para salvar seus próprios bancos.  Quando os petistas falam em aumentar a participação do Brasil no fundo eles estão basicamente aceitando esse uso - o que foge completamente do desenho original dele. Não sei se os brasileiros aceitariam isso se compreendessem o que está em jogo.

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Wednesday, November 2nd, 2011...7:56 pm
Brasil
Os socialistas que defendem a vinda de Lula ao SUS

Eu juro que não entendo todos estes protestos para que Lula seja tratado pelo SUS. Uma posição conservadora/liberal de livre mercado com princípios é de que o Estado não deve se envolver no mercado de saúde, e que tanto médicos, pacientes e o livremercado devem decidir pela alocação de recursos. Outra posição conservadora/liberal de livre mercado com princípios é de que a cobertura de saúde oferecida pelo governo deve ser uma rede de segurança e que seja lá quem é atendido não está em posição de exigir grandes luxos. Afinal, é uma rede de segurança. Claro que a esquerda naturalmente irá exigir que Lula seja tratado da mesma forma que qualquer outro brasileiro já que a esquerda é defensora de igualitarismo e de um número elevado de gastos públicos. Mas não é uma posição compreensível para supostos defensores do livremercado.

Pode-se reclamar do SUS, mas o fato é que nenhum serviço de saúde pública do mundo conseguiria aprovação daqueles que reclamam do SUS. O NHS britânico sempre aparece como alvo de críticas de atendimento na imprensa daquele país, e mesmo nos países da Europa Nórdica há coisas como filas de espera e similares. Não é a toa: o Medicare americano, a cobertura de saúde para quem tem mais de 65 anos, é uma das principais despesas do governo federal americano e uma das principais causas dos déficits públicos trilionários recentes(É um sistema bastante subsidiado, sem esses problemas como filas de espera). Aumentar a qualidade do SUS significaria cortar recursos de outras áreas ou aumentar impostos.

É natural que gente à esquerda do espectro político defenda uma cobertura de saúde pública cada vez mais ampla e generosa. Mas é uma posição absurdamente hipócrita para gente supostamente à direita do espectro político(Dica: o Hospital Sírio-Libanês também é a acessível a quem tem um bom número de planos de saúde de gente de classe média).

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Tuesday, November 1st, 2011...10:54 pm
Educação
As Universidades de Phoenix no Brasil

Cristopher Beha, da revista Harper´s , decidiu fazer um pequeno experimento. Mesmo já sendo formado Beha se matriculou na Universidade de Phoenix, a maior rede de universidades particulares não-filantrópicas dos EUA. O sistema universitário americano é bastante diferente do brasileiro em vários aspectos. Financeiramente os americanos nunca apostaram na gratuidade dentro das universidades estaduais, mas sim num amplo sistema de subsídios diretos ou indiretos para estudantes, como os Pell Grants( Subsídios para alunos de baixa renda) ou mensalidades mais baixas para alunos que possam comprovar residência dentro do estado, além dos empréstimos estudantis garantidos pelo governo federal(Também existem os community colleges, voltados para alunos de baixa renda, mantidos pelos estados). No Brasil basicamente a premissa sempre foi de se subsidiar generosamente os estudos dos alunos na rede pública e ao mesmo tempo ignorar os alunos da rede particular de ensino(Mentalidade que foi alterada por coisas como o FIES e o PROUNI).

As críticas que as universidades americanas nãofilantrópicas provém em grande parte de que elas são máquinas de dinheiro, e que isso só é possível por causa dos subsídios federais, e dos empréstimos, já que quando o aluno não consegue pagar(O que ocorre em um bom número dos casos) o governo federal arca com a conta. No Brasil esse processo público de subsídios ainda está em gestação. Por outro lado universidades particulares como a Universidade de Phoenix, Instituto Kaplan, que atendem a uma fatia menor dos estudantes do ensino superior nos EUA, lembram bastante as grandes redes de universidades particulares no Brasil. Esse tipo de universidade atende a uma fatia cada vez maior do mercado universitário no Brasil e no atual ritmo de crescimento é seguro apontar que em poucos anos a maioria dos universitários brasileiros estejam estudando numa dessas megaredes de universidades(Como a Estácio, Unip ou Anhanguera Educacional), aonde há economia de escala, com aulas centralmente planejadas apartir de uma unidade central. A Anhanguera Educacional segue o modelo parecido do Apollo Group, o dono da Universidade de Phoenix, com ações negociadas na Bolsa, e obviamente isso significa que investidores demandam uma busca agressiva de lucros.

Beha levanta um questionamento no seu artigo: que parte do problema é a busca de se aumentar a proporção de alunos na universidade, como se isso fosse uma panacéia por si só(Como se fosse possível compensar a baixa educação de muitos alunos que se formam no Ensino Médio) e que para alcançar as metas que Obama se propõe é preciso de lugares como a Universidade de Phoenix. Ele aponta para o modelo de vários países do Norte da Europa, aonde os alunos contam com vários programas de aprendizado e de formação técnica para atividades no ramo de serviço e industriais aonde você precisa de mais qualificação que um diploma da faculdade, mas não de um diploma superior (Outros autores
fazem o mesmo).

O sistema universitário brasileiro é bem mais problemático que o americano, mas há a mesma obsessão entre os políticos pelo ensino superior. Os petistas venderam o ProUni basicamente com a idéia de que pobre também poderia freqüentar a universidade, por exemplo(O slogan do ProUni, “Universidade para Todos” é medonho neste aspecto). Tanto o FIES quanto o ProUni abrem o prospecto de subsídios diretos para essas megaredes de universidades, que seguem um cronograma agressivo de expansão. O pior é que o grande mérito dessas megaredes de universidades é formar formandos de baixa qualificação em áreas em que o Brasil não precisa de profissionais, como psicologia e jornalismo. Este é um assunto que mereceria um debate maior. Se a questão é qualificação de profissionais há usos melhores de recursos que se formar de baciada gente formadas em Psicologia ou Administração e claro, aumentar a proporção de formandos em curso superior, por si só, como política pública é algo pavoroso. O próprio crescimento súbito e meteórico de redes como a Estácio e a Anhanguera é algo que deveria ser motivo para pânico.

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Sunday, October 30th, 2011...11:57 am
-São Paulo-
A universidade como clube

Paulo Henrique Amorim publicou em seu site um email que recebeu de Rodrigo Frateschi,do PT de São Paulo, que teria ido visitar a FFLCH da USP depois do episódio em que alunos e policiais entraram em confronto no campus da universidade por causa de três alunos presos com maconha:

“A imprensa tem feito uma cobertura extremamente reacionária e moralista, tratando os estudantes como delinquentes e bandidos, chegando a citar que ‘vários estudantes foram vistos portando latas de cerveja’ como se isso fosse proibido ou mesmo condenável”

Olha, há diversos lugares aonde o consumo de cerveja é socialmente aceito, como o boteco da esquina ou a praia. Caso houvesse a descriminalização da maconha haveria diversos locais aonde o consumo da maconha seria aceito socialmente. Não é preciso ser a Carrie Nation, ou mesmo minimamente puritano para perceber que uma universidade não está entre esses locais para consumo de maconha ou mesmo de álcool. Ainda mais que a USP não segue o modelo das universidades americanas, aonde o estudante basicamente mora dentro da universidade. Na USP, pressupõe que o aluno que esteja dentro da universidade na prática de atividades acadêmicas.

Pode-se restringir a questão a descriminalização ou não do consumo de maconha. Mas há outro ponto aqui: a USP, assim como as outras universidades estaduais, fornece um privilégio bastante forte aos seus alunos, que é a possibilidade de se fazer o ensino superior sem pagar mensalidades e tendo vários subsídios (Como alimentação subsidiada nos bandejões). É natural que quem esteja fora da brincadeira, e apenas pague as contas, se indigne com quem acha que a universidade, que custa um bom naco do ICMS do estado, seja vista como um clube para se beber cerveja ou mesmo fumar maconha.

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Friday, October 28th, 2011...12:53 am
Oriente Médio & Norte da África
Guerra sem fim e sem limites geográficos

Em 1998, quando Bill Clinton enfrentava o caso Monica Lewinsky e depois que terroristas haviam explodido a embaixada americana em Nairóbi e em Dar Es Salaam os americanos lançariam uma ação rápida e fulminante, lançando mísseis Tomahawk contra uma fábrica de aspirinas no Sudão(Que na época foi anunciada como uma fábrica de armas químicas) e bases no Afeganistão. Os americanos, assim como em certa parte os franceses (Numa escala bem menor), mantém bases por todo planeta e uma grande frota naval em grande parte porque isso permite justamente este tipo de ação. Seja apartir de uma base em Aviano, na Itália ou em Diego Garcia ou de um porta-aviões no Oceano Índico os americanos podem atingir qualquer ponto do planeta com mísseis ou ataques aéreos fulminantes. E isso sem precisar de votos no Congresso, no Comitê de Segurança da ONU ou mesmo colocar soldados em risco.

Esta escala de guerra sem limites está sendo alçada a um novo nível. Tanto durante a morte de Muamar Kadafi quanto durante a morte de Anwar El-Awlaki, o pregador americano de origem yemenita que era considerado uma das cabeças da Al-Qaeda no Yemen os americanos tiveram uma grande estrela, os drones, pequenos planadores de uso militar não-tripulados. Numa guerra tradicional há sempre o risco de baixas. Não com os drones: eles costumam ser pilotados à distância, no caso, apartir de bases em Nevada e na Califórnia. Também são mais discretos que os mísseis Tomahawk, que no ataque em 1998 provocaram protestos em embaixadas americanas e fortes críticas. É uma forma bastante confortável e fácil de se fazer guerra, sem necessidade de soldados ou mesmo de autorização legal. Os críticos reclamam que isso torna a possibilidade de uma guerra muito maior(O pior, é uma forma de guerra com alto número de baixas civis).

Isto é verdade. Os americanos passaram a usar os drones para ataques em larga escala em países que oficialmente não estavam em guerra e nem poderiam pensar em entrar, como Paquistão e o Yemen, mas isso logo passou a assumir como uma política de guerra sem fronteiras. Hoje, o Washington Post apontou de que os americanos estariam operando drones apartir da base de Arma Minch, no sul da Etiópia, país que faz fronteira com a Somália, Sudão e Quênia. Meses atrás, a advogada e comentarista Lisa Bloom reclamou na CNN que mais meninas sabiam o nome das irmãs Kardashians que da quantidade de guerras em que os Estados Unidos estavam envolvidos. A primeira coisa que me veio a cabeça é que, sim, isso é mais fácil porque há um número fixo de irmãs Kardashians, que não se reproduzem a todo mês.

Os drones são símbolo da guerra sem fim e sem limites geográficos. Isto basicamente significa que os americanos podem manter combates diretos com militantes dentro de um número ilimitado de países ou fronteiras geográficas. Isso é assustador, muito mais que qualquer coisa que os americanos tenham feito com a família do detestável Muamar Kadafi.

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Wednesday, October 26th, 2011...12:42 am
México
México: o referendo sobre a militarização do comabte ao tráfico

O PAN, ou Partido da Ação Nacional, um partido de centrodireita, conseguiu um dos grandes trunfos da política mexicana. Com Vincente Fox, o partido conseguiu destronar o PRI, que tinha cadeira cativa na Presidência do país. Os panistas conseguiriam eleger Felipe Calderón, que foi eleito num pleito bastante concorrido(e nervoso) em 2006. A decisão de Calderón de declarar guerra ao tráfico transformaria todo o norte do país em zona de guerra. O norte do país, até então uma das regiões mais prosperas do continente, também era uma das bases de sustentação do PAN. O partido logo perderia a maioria no Congresso e muitos governadores(Em especial na região fronteiriça com os EUA). Todos os três postulantes à candidatura do partido para as eleições presidenciais do ano que vêm – Santiago Creel Miranda, Ernesto Cordero Arroyo e Josefina Vázquez Mota – são tecnocratas que estudaram nos Estados Unidos, todos nascidos ou com base eleitoral na capital.

Josefina Vázquez Mota tem sido bastante audaz ao jurar de pés juntos que manteria a postura dura contra o tráfico. Mas isso pouco importa. Todo mundo já dá como certa a vitória do ex-governador do Estado do México, Enrique Peña Neto, do PRI. As eleições mexicanas do ano que vêm serão o teste político final da decisão de Calderón de militarizar o combate ao tráfico de drogas. Tudo indica que o resultado já é conhecido.

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Monday, October 24th, 2011...12:32 am
Estados Unidos
O trunfo de Obama

Domesticamente Obama vive um inferno astral. O desemprego está constantemente na casa dos nove porcento, as pesquisas dão números baixos de aprovação para Obama na economia e o país passa por um período longo de estagnação econômica. Por outro lado, tudo parece mais brilhante quando o assunto é política externa. Na campanha eleitoral um passatempo preferido dos republicanos era o de pintar Obama como um político ingênuo e inexperiente que seria triturado por oponentes estrangeiros no exterior. Quando Obama disse em 2008 estar disposto a negociar com ditadores sem preestabelecer nenhuma precondição John McCain foi rápido em acusar seu oponente de ser ingênuo.

Quase todos os presidentes americanos recentes se envolveram em problemas na área de política externa. Kennedy foi marcado pela Invasão da Baia dos Porcos e a Crise dos Mísseis, além do início da Guerra do Vietnã. A guerra do Vietnã afundaria seus dois sucessores, Lyndon Johnson e Richard Nixon. Carter seria destroçado pelo seqüestro da embaixada americana em Teerã e pela Invasão Soviética do Afeganistão em 1979(O que culminaria com o boicote das Olimpiadas de Moscou no ano seguinte). Reagan enfrentaria um dos piores atentados contra americanos, o uso de dois carrobombas contra um quartel americano no Líbano em 1983 que mataria 241 marines(Walter Mondale, o candidato democrata contra Reagan na reeleição de 1984, usaria basicamente pontos de política externa contra o então presidente), além de todo o cenário na América Central. Clinton teve que enfrentar um tremendo susto logo no início do seu mandato, quando um helicóptero numa intervenção humanitária foi derrubado na Somália(Foi também com Clinton que duas embaixadas americanas foram destruídas por carros-bomba em 1998). George Walker Bush, obviamente, nem é preciso falar nada.

Com Obama as coisas caminham de forma bastante harmônica. Não foi registrado nenhum atentado terrorista de fato contra alvos americanos. Houve uma expansão de operações militares, com ataques em locais como Paquistão e Yemen. Mas mesmo assim, sem baixas americanas(Em grande parte pelo uso de planadores guiados à distância). Há uma retirada de soldados sem grandes percalços do Iraque. Duas das principais lideranças da Al-Qaeda – o próprio Bin Laden e Anwar Al-Awlaki foram mortas. Obama inclusive ajudou a derrubar e matar um dos principais desafetos de Ronald Reagan, Muamar Kadafi. O Afeganistão ainda enfrenta graves problemas, inclusive na capital, Kabul, considerada segura até poucos meses atrás. Mas nada excessivamente desolador.

(Pode-se alegar que esta é a área de cuidados da sua rival, Hillary Clinton. Mas, mesmo assim).

Claro que pode-se sempre lembrar-se da frase “It´s the economy, stupid!”. Afinal de contas, essa frase foi cunhada durante a campanha eleitoral que destronou o outro expresidente americano com um histórico em política externa tão estelar quanto, George Herbert Bush.

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Friday, October 21st, 2011...12:40 am
Oriente Médio & Norte da África
A morte de Kadafi

Rod Dreher, no site da revista The American Conservative, compara a execução de Muamar Kadafi com a de Nicolae Ceau?escu, o brutal ditador romeno que foi fuzilado depois de um rápido julgamento em 1989. De fato, há alguma coisa de poética em se ver tiranos ensangüentados recebendo justiça nas mãos do próprio povo – pense-se em Mussolini linchado e tendo o corpo espancado por toda a noite.

Mas é difícil de comparar a morte de Kadafi com estes casos. Foi a intervenção da OTAN que de fato foi decisiva para a queda de Kadafi – na verdade, teria sido um ataque francês que teria provocado a queda do comboio de Kadafi. De qualquer forma, seja pela sua participação em atentados terroristas, seja pelo seu brutal acordo de imigração com Berlusconi Kadafi não deixa saudades.

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Friday, October 21st, 2011...12:23 am
Brasil
Repetindo os erros da Zona Franca de Manaus

Manaus é dificilmente uma cidade que seria escolhida para ser pólo industrial. A cidade nunca teve mão de obra, especializada ou não, em maior número ou qualidade que a maior parte das cidades de médio ou grande porte do país. É uma cidade cercada por florestas tropicais por centenas de quilômetros, com tráfego por terra bastante dependente da BR 174(Não asfaltada até não muito tempo atrás) e sem uma infraestrutura de transportes de destaque. Manaus sempre produziu grande parte dos eletrônicos vendidos no Brasil não porque as empresas tenham considerado isso vantajoso, mas porque os militares queriam povoar a região da Amazônia de alguma forma. Na prática, isso obriga as empresas a arcar com custos extras de transporte apenas porque estão recebendo subsídios via incentivos fiscais – isso quando a tal fabricação não é importação de fachada.

Os petistas e tucanos estão retomando este conceito de dirigismo industrial, só que com tablets. Os tablets se tornaram bastante populares quando a Apple lançou o seu Ipad, mas são um conceito relativamente antigo(Os Tablets PCs antigos eram máquinas maiores, mais pesadas e aqueciam, como todo laptop). O problema é que praticamente mais ninguém conseguiu lançar um produto que chegasse próximo à popularidade. A Samsung conseguiu criar uma máquina que movimentou a Apple a se valer dos seus advogados para bloquear a venda por vários cantos do planeta, mas empresas como a RIM e a HP tiveram fracassos fenomenais no ramo. Há dúvidas se há demanda pelo Ipad ou se há demanda por computadores portáteis sem teclado e com tela de toque: muita gente acha que é a primeira opção. Há outros pontos também, como a dúvida se os usos educacionais deste tipo de equipamento justificam subsídios via incentivos fiscais.

Agora, tanto Dilma Rousseff quanto Geraldo Alckmin inventaram um programa de incentivos fiscais para a produção de tablets, numa versão parecida com o que o que foi feito com a Zona Franca de Manaus. Claro, Jundiaí não é exatamente Manaus. Por outro lado há o mesmo risco de dirigismo industrial, com o governo se valendo de incentivos pesados para fazer uma empresa estrangeira montar nacionalmente um produto para o mercado interno. É um caminho perigoso. Pode-se alegar que países que subsidiaram a sua indústria de exportação, como China e Coréia do Sul, fugindo dos dogmas neoliberais. Por outro lado, subsidiar produção exclusivamente para o mercado interno é outro assunto, bem menos justificável.

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Friday, October 14th, 2011...1:22 pm
Brasil
Dilma Rousseff e a síndrome de Estocolmo

Durante a maior parte da sua existência o FMI foi utilizado como um fundo de emergência para crises financeiras em países periféricos da Ásia ou América Latina. Isso sempre levou a uma bizarra dinâmica: ativistas ligados à esquerda sempre ligaram o FMI como causa da pobreza no Terceiro Mundo enquanto que conservadores atacavam o FMI como um resgate a governos irresponsáveis. Tudo mudaria quando o FMI passaria a atender gente bem mais clara na Europa. Simon Johnson, um ex-economista chefe do próprio FMI, sempre apontou que o fundo foi criado para auxiliar países com fluxo de caixa - e o euro é uma moeda forte e de que Sarkozy e Merkel queriam Cristine Lagarde na presidência do fundo para poder solidarizar a conta com todos os países membros do FMI.

A crise na Europa não é uma crise de meia dúzia de países periféricos. Nem é uma crise envolvendo países maiores, como Espanha ou Itália. É uma crise do sistema bancário, bastante subcapitalizado - nenhum dos líderes europeus quer assumir o tamanho da bagunça. O Brasil votou alegremente por Cristine Lagarde para o FMI, mesmo com essas pontos sendo levantados na imprensa internacional. Agora, Dilma Rousseff acena com a assustadora idéia de aumentar a participação do país no fundo. E não só isso: há o discurso de se impedir de se impor aos países auxiliados o mesmos critérios que o FMI teria imposto ao Brasil.

Pode-se alegar que a União Européia tem um PIB maior que da China e India combinados, ou maior que os EUA,  e que a crise européia poderia jogar a economia mundial no buraco. Por outro lado, todos os países dos ditos PIIGS tem renda per capita mais alta que a brasileira. E no fundo, isso é mais um problema com os grandes bancos europeus que com países como Grécia e Portugal. Somente soberba poderia justificar esse discurso de caridade com os europeus. Ou pior, com os bancos europeus. Considerando os problemas que o Brasil ainda enfrenta isso é uma inversão perigosa de prioridades.

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Thursday, October 13th, 2011...2:11 am
Colômbia
Senado dos EUA ratifica tratado de livrecomércio com a Colômbia

Há alguns meses atrás Jim Cramer, do canal CNBC, disse que a Colômbia era o novo Brasil. Era um elogio: Cramer, que orienta investidores, adora o Brasil e defendia que a Colômbia tinha as mesmas qualidades do país vizinho. Não é um ponto trivial: a Colômbia economicamente é relativamente próxima do Brasil, com forte exportação de commodities, muitas delas em áreas concorrentes ao Brasil, como cana de açúcar e café. No caso do café os colombianos sempre contaram com alíquotas mais favoráveis que os brasileiros por causa de incentivos para combater lavouras usadas pelo tráfico de drogas. Hoje, os colombianos ganham mais uma vantagem, com a ratificação no Senado Americano de um tratado de livrecomércio com o país.

A Colômbia é talvez o maior aliado dos Estados Unidos na América Latina, com forças militares trabalhando em conjunto e forte ajuda financeira. É um exemplo banal de como o Brasil perde influência regionalmente enquanto persegue moinhos de vento em outras áreas do planeta. Aliás, é curioso como a ALCA, que era uma obsessão entre parte considerável dos brasileiros quando Bush era presidente é ignorada quando implementada em fascículos por Obama.

(Numa fuçada rápida por portalões e jornais não achei nenhuma menção ao tratado na madrugada de quarta para quinta).

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Wednesday, October 12th, 2011...2:39 am
Midia
No Brasil pode. Nos EUA não.

Num artigo sobre a venda de achocolatados com detergentes no Rio Grande do Sul, Cláudia Facchini do iG aponta o seguinte:

“O caso do Toddynho é, certamente, o pior por envolver um alimento cujo público alvo são as crianças. “Todas as empresas são falíveis, mas é preciso agir rapidamente e com transparência”, afirma Marcos Hiller, Coordenador de MBA em “branding” (marcas) da Trevisan Escola de Negócios.

Mas a diferença, na sua avaliação, é que os consumidores ‘esquecem rápido’ no Brasil. Os problemas de contaminação do Toddynho também ficaram circunscritos a Porto Alegre. Uma rede de supermercados da região do ABC, em São Paulo, informou que as vendas do Toddynho caíram cerca de 5% desde que apareceram os problemas no Sul.”

Não é que os consumidores esquecem rápido. Em parte por medo de perder anunciantes, em parte porque os jornalistas brasileiros são uns bundões a imprensa brasileira é bastante caridosa com empresas que fornecem produtos ou serviços que ofereçam riscos a seus consumidores. A Nestlé recebeu bastante atenção nos telejornais americanos em 2009 quando descobriram que havia a bactéria e-coli numa massa pronta para biscoitos, uma violação bastante inferior a de vender achocolatado com detergente. Brian Ross da rede de TV ABC deu a cara para bater nos casos dos carros com aceleração repentina da Toyota. Assista qualquer jornalístico da TV americana e você vê grandes empresas sendo criticadas por tarifas abusivas, como bancos ou empresas aéreas, ou mesmo carros com riscos de acidentes. Isso é impensável no Jornal Nacional.

A PepsiCo pode vender achocolatado com detergente no Brasil, mas não nos EUA porque na matriz há uma imprensa preocupada com os seus consumidores. A PepsiCo nunca seria premiada com artigos tão bondosos quanto este do iG se tivesse feito a mesma infração nos EUA, por exemplo.

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Saturday, October 8th, 2011...3:50 pm
Cultura de massas
A comédia não merece Rafinha Bastos

Para o brasileiro comédia nunca foi uma coisa muito sofisticada. Sempre foi aquela coisa do sujeito ficar emitindo bordões repetitivos ou pior, as famosas piadas de português ou “bichinhas” do Ary Toledo e do Costinha(Que foram elevados ao cargo de gênios da comédia pelos brasileiros) que ninguém agüenta mais. Não é a toa que tantos humoristas reclamem do tal politicamente correto, como se fosse impossível fazer humor sem tirar sarro de algum grupo social ou étnico. É esse tipo de coisa que gente simplória e sem a devida formação intelectual acha que é humor.

Mas o humor faz parte de uma grande tradição. Alguns dos grandes autores do Iluminismo, como Jonathan Swift e Voltaire, eram grandes satiristas. Viagens de Gulliver nunca teria tido o impacto que teve se não fosse pelo seu humor ácido, Voltaire nunca teria sido um crítico social tão eficiente sem este mesmo elemento. Algumas das melhores peças de Shakespeare eram comédias. Will Rogers, o mais celebrado comediante da primeira metade do Século XX nos EUA, era também um celebrado crítico político e social(Mencken, o outro crítico social importante do mesmo período também se valia de uma forte dose de humor). O Spitting Image da ITV, um programa com bonecos, forneceu algumas das mais ácidas críticas a Thatcher e a Reagan nos anos 80(Hoje, os Les Guignols de l’info faz o mesmo com os políticos franceses). Dois comediantes – Jon Stewart e Stephen Colbert – lideram boa parte do debate político nos EUA.

Pode-se debater se é apropriado fazer em cadeia nacional piadas sexualmente sugestivas com uma jovem mãe e um bebê ou ainda se o jogador Ronaldo e o empresário Marcus Buaiz teriam direito de tirar anunciantes da Rede Bandeirantes por causa disso(Rafinha Bastos tem uma certa sorte: a maioria dos homens fariam com que ele perdesse dentes, não anunciantes, ao fazer esse tipo de piada com alguma amiga ou com a esposa). Por outro lado é um tanto quanto bobo dizer que isso deve ser aceitado por se tratar de piada ou comédia.

Comédia não significa que qualquer coisa que seja dita no ar ou palco deva ser abertamente aceita. Comédia não é qualquer coisa. Quanto tanto os membros do CQC quanto membros do público defendem-se de críticas alegando que fazem piadas estão diminuindo esta forma de arte que tem uma longa tradição. Isto não é somente uma forma preguiçosa de se defender de críticas, mas um insulto a uma arte. A comédia não merece ter pessoas tão pequenas dizendo que estão a defendê-la.

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Wednesday, October 5th, 2011...12:52 am
Itália
Não diga

O New York Times relata que para os italianos, o desfecho do caso Amanda Knox(Que foi acusada de ser a “mulher-demônio” e “bruxa” no julgamento do recurso à sua condenação) foi uma humilhação, “com um circo americano de mídia que chegou à bucólica cidade na Umbria e retratou a Itália como uma república de bananas com policiais amadores e juízes corruptos“.

Não diga. Só creio que há uma retratação: as repúblicas de bananas tinham melhor gosto ao escolher as pessoas que representariam seus países no exterior que escolher gente claramente senil e com problemas de afirmação sexual. Aliás, é justamente essa piada que é o sistema judicial italiano que queriam que servisse de moral para o Brasil no Caso Battisti.

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Monday, October 3rd, 2011...9:51 pm
Brasil
As prioridades – perigosas – da política externa brasileira

Uma coisa que a gente aprende no ensino fundamental é que o Brasil faz fronteira com todos os países da América do Sul, menos três: Chile, Ecuador e Trinidad e Tobago. Claro que no fundo tudo é mais complicado. Há uma fronteira caótica na região da Triplice Fronteira, o único trecho realmente populoso de toda a região fronteiriça do Brasil. Na prática, entre a região realmente povoada de Peru, Colômbia, Suriname, das duas Guyanas e da Venezuela e entre qualquer cidade grande brasileira há milhares de quilômetros de floresta tropical e mais nada. Pode-se alegar que a Amazônia ofereceria desafios e tantos para qualquer país, mas nenhuma das outras fronteiras, com exceção da fronteira do Paraguai há população significativa (Corrientes e Misiones, as duas províncias da Argentina que fazem fronteira com o Brasil, tem população combinada de menos de dois milhões de habitantes).

Com vizinhos muitas vezes instáveis politicamente, vários interesses comerciais e estratégicos(Gás natural da Bolívia e Itaipu, por exemplo) o Brasil ignora sua vizinhança por sua própria conta e risco. Na verdade, esses interesses estratégicos vão além dessas fronteiras, quando, se considera, por exemplo a atuação em nível continental dos cartéis mexicanos. Os petistas têm dedicado boa parte da sua atenção em política internacional a assuntos como a Palestina e dado bastante atenção a um bloco de mentirinha, o BRICS. Por exemplo, tanto a letra “C” quanto a letra “I” do bloco não se entenderam ainda no tocante a questões fronteiriças e no tocante a oceanos(Em junho, um navio da marinha indiana se encarou com um navio da marinha chinesa na região do Vietnã, que disse que este estaria adentrando em águas territoriais chinesas). Isso com uma Colômbia cada vez mais alinhada com os EUA, e em linhas de aprovar um tratado de livre comércio com os vizinhos do norte.

Pode-se alegar que a infraestrutura brasileira de transportes é horrível, mas me parece uma vulnerabilidade e tanto a falta de ligações por terra com os países vizinhos. Pode-se alegar que em vários mercados estes países competem com o Brasil, mas o país seria mais cauteloso em se preocupar com estes países ao invés de querer formar um bloco de horríveis com a China e a Rússia no Conselho de Segurança da ONU.

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Sunday, October 2nd, 2011...11:49 pm
Brasil
Demagogia tributária de Afif Domingos

O Kassabinho, quando não está ocupado destruindo o que restou da cidade de São Paulo, anda com sua turma muito doida(Só gente boa tipo Kátia Abreu e Guilherme Afif Domingos) do seu novo partido, o PSD. O novo partido, mais uma sigla na sopinha de letrinhas que ninguém entende na política brasileira (É o golpe de misericórdia no antigo PFL) anda com propostas do tipo reformar a Constituição (O que, confesso, não é uma idéia de todo ruim, embora o método para escolha dos constituintes – eleição exclusiva para este cargo numa eleição vindoura – me parece ruim).

Afif Domingos é uma das figuras mais bizarras. Ele apontou o seguinte: “Com uma carga tributária tão alta, porque os cidadãos não são atendidos nos seus direitos fundamentais? Precisamos dar mais recursos aos Estados e municípios num novo pacto federativo. Precisamos de uma União mais gestora.” Afif mistura na mesma frase um argumento tipicamente conservador(Carga tributária alta) com um argumento tipicamente de esquerda(Para não dizer socialista), que seria preciso dar mais recursos aos Estados e municípios. Ora bolas, alguma coisa não fecha aí.

O Brasil tem uma carga tributária alta porque quando se estabeleceu a Constituição Federal de 1988 estabeleceu também a idéia de um sistema de proteção social bastante generoso e isso se adaptou a uma estrutura generosa de gastos. Por exemplo, o Brasil tem um sistema bastante generoso de Previdência Social(Na verdade, confesso que não me lembro de nenhum sistema mais generoso), o SUS é bastante generoso perto à oferta de saúde em outros países emergentes. O governo não cobra impostos por sadismo – cortar impostos exigiria cortar áreas como educação ou saúde ou mexer em áreas como a Previdência Social. Sim, pode-se alegar que a estrutura burocrática nos três níveis é inchada – muitas prefeituras de cidades do interior são instaladas em prédios maiores que os capitólios de muitos estados americanos. Mas considerando a sanha por concursos públicos(Que grande parte da imprensa brasileira endossa) mesmo isso não poderia ser cortado sem sua fenomenal cota de brasileiros de classe média insatisfeitos.

Afif também tem a idéia bizarra de obrigar as notas fiscais a discriminar os impostos pagos em bens e serviços. Certo. Além disso partir da premissa que todo brasileiro seja um contador/tributarista em potencial para calcular a quantidade de impostos que paga Afif também parte da premissa que em países aonde as pessoas pagam impostos basicamente sobre propriedade e renda ao invés de renda(Portanto, declarando o valor) tem plena consciência de quanto pagam de impostos. O que não é verdade, claro(Nunca vi pesquisa do gênero do Brasil, mas é muito mais provável que as pesquisas indicassem um valor superestimado, não subestimado da carga tributária).

Além de claro, isso significar a reprogramação das máquinas registradoras(E isso sem contar as notas feitas em papel), o que significaria custos – e dependendo da situação, custos altos – para os lojistas. Mas isso de nada significa para um demagogo tributário do pior gênero, acredito eu.

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Monday, September 26th, 2011...2:07 am
França
A surra de Sarkozy

A esquerda francesa nunca conseguiu maioria no Senado francês, aonde os membros são escolhidos por meio de um voto indireto pelos chamados “grands électeurs“, geralmente prefeitos, conselheiros municipais e membros da maioria nacional. Como quase todo Senado é um Senado que tende a favorecer as regiões rurais(Por mais que haja números diferentes de senadores por departamento), o que explica a predominância dos conservadores.

Isso foi por água este domingo, quando os socialistas, os comunistas e os verdes conseguiram a maioria. Na prática, isso significa que a regle d´or, o plano de Sarkozy de inserir emendas constitucionais forçando equilíbrio fiscal foram para água abaixo. Também significa que Sarkozy, a poucos meses das eleições, estará extremamente frágil, sendo coagido por uma das casas do Parlamento, envolto com problemas não só na periferia da zona do Euro, mas dentro do seu próprio país, que conta com uma alta dívida pública.

Os socialistas estão com a faca e o queijo na mão para conseguir o Palácio dos Élysées.

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Sunday, September 25th, 2011...11:36 pm
Economia, Indústria e Comércio
Explicando impostos

Hoje, eu estava ouvindo uma gravação do programa de rádio de Peter Schiff, um financista que virou ídolo entre os libertários de livre mercado nos EUA. Num certo momento um ouvinte liga e no meio da conversa a vai para Sri Lanka, e o sujeito aponta que lá os carros seriam taxados em cem, duzentos porcento e que ele acha isso uma loucura. Schiff pergunta se eles tem imposto de renda, e ele explica que alguns países tem impostos sobre importação de produtos de luxo bastante altos para compensar a inexistência do imposto de renda, que o governo precisa arrecadar dinheiro de algum lugar e que ele preferia pagar altos impostos sobre produtos de luxo que pagar imposto sobre renda.

Touché. Poderiam explicar o mesmo para os brasileiros de classe média.

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Sunday, September 25th, 2011...11:13 pm
Brasil
Cadê o movimento pelo desarmamento?

Há um ponto curioso após o incidente em que um aluno de dez anos trouxe uma arma para a escola em São Caetano do Sul, atirou na escola e depois se suicidou. Tragédias como esta são prodigas em trazer à baila o assunto do desarmamento: desta vez, nada. Surgiram até alguns “especialistas” culpando, claro, a instituição escola. Mas ninguém culpou a campanha do “Não” no desarmamento nem nada do gênero. A arma era do pai, um Guarda Municipal.

Os defensores do desarmamento sempre se concentraram na naquela que sempre foi, disparado, a menor fatia do mercado legal de armas, que são as armas na mãos de particulares. No entanto, pouca atenção foi dada ao porte de armas por profissionais da segurança, que tiveram os direitos progressivamente extendidos: primeiro o porte, inclusive pessoal, aos guardas municipais e agora um projeto visa dar os mesmos direitos aos vigilantes de empresas particulares de segurança. Ora bolas, quando se discutia o referendo do desarmamento se discutia sobre a possibilidade de se adotar um controle de armas bastante rígido, que tornava quase impossível a posse de armas por particulares, e o banimento da venda dessas armas para os mesmos particulares. No caso do porte de armas pessoal por forças de segurança está se discutindo o trânsito de milhares de armas pelas ruas.

Seria mais fácil levar à sério o movimento pelo desarmamento se este fosse mais coerente. Não dá para manter ao mesmo tempo a idéia de que pessoas físicas não podem comprar armas, mas de que um guarda municipal pode manter uma arma num local acessível à crianças. Sim, é um fato, o que ocorre em São Caetano foi uma tragédia, e isso não deve servir de parâmetro para políticas públicas. Mas os dois pesos, duas medidas entre o Realengo e o São Caetano não ajuda em nada o movimento pelo desarmamento. E claro, um cínico pode dizer que o movimento pelo desarmamento é autoritário ao acreditar que cidadãos não podem portar armas, mas aos agentes do Estado o porte de armas pode ser livre.

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Sunday, September 25th, 2011...3:08 am
Brasil
Qual deve ser o papel dos partidos na política nacional?

Eu tenho certa dificuldade para entender o que se passa na cabeça de muitas pessoas que escrevem sobre política. Marcos Coimbra, num texto particularmente pavoroso sobre o voto distrital na CeCê, nos brinda com o seguinte trecho:

“No voto distrital, os candidatos não precisam de seu partido para se eleger. Só sua votação conta. Sentem-se, portanto, donos exclusivos de ’seus’ votos. Estar filiado a determinado partido chega a ser irrelevante.”

Claro que o trecho é factualmente errado: num sistema distrital é difícil para caramba se eleger sem apoio dos partidos e na prática as lideranças partidárias podem se valer de vários recursos(Verbas de campanha, cargos em comitês, etc) para impor disciplina partidária. Não que votações definidas por partido sejam algo particularmente defensável: uma das principais críticas a Obama é que a maioria das suas grandes realizações(Reforma na saúde, estimulo econômico) foram aprovadas justamente por votações em linhas partidárias(Apenas três republicanos votaram pelo pacote de estímulo, apenas um- Joseph Cao, um republicano que havia sido eleito para o Congresso no lugar de um congressista negro de um distrito de Nova Orleans que havia sido preso pelo FBI com centenas de milhares de dólares na geladeira do seu escritório - votou pela reforma da saúde). Na verdade, um dos atrativos do voto distrital para os seus partidários no Brasil é o de justamente poder alterar as coisas pavorosas que chamam de partidos no Brasil, que deveriam ser organizações menos centralizadas, aonde a base deveria exercer poder sobre a elite do partido, e não o contrário.

Por outro lado, tenho dificuldade em entender o fetiche existente por partidos no Brasil. Num sistema parlamentarista os partidos são importantes e costumam ter linha partidária definida porque o papel dos partidos é formar governos ou o de participar de coalizões para formar governos. Os liberais-democratas no Reino Unido aprenderam isto da pior forma possível: o partido se acostumou a se apresentar como uma espécie de voto cacareco contra eleitores insatisfeitos com os tories e trabalhistas e enfrentou uma queda brutal na popularidade quando precisou endossar medidas de austeridade mantidas pelos seus parceiros de coalizão. Os trunfos dos partidos de extrema direita na Europa é o de justamente poder forçar os partidos de centro-direita a endossar medidas contra imigrantes e ganhar cargos de gabinete.

No sistema presidencialista o papel dos partidos é muito menos definido. O chefe do Executivo é escolhido tendo em vista as diversas coalizões dentro do partido principal e na prática não é preciso ser filiado a um partido para ser eleito como tal(Por exemplo, Michael Bloomberg é independente, Jesse Ventura foi eleito governador de Minnesota como independente) e claro, na prática o grande papel do Legislativo é o de servir contrapeso ao Executivo(Note-se que no Brasil o Congresso não tem o chamado “Poder da bolsa”, ao contrário dos EUA). Não é preciso ter partidos rigorosamente e ideologicamente coesos para escolher um candidato presidencial ou para servir de oposição na Câmara.

Na verdade, o debate sobre o assunto no Brasil é meio esquizofrênico porque as mesmas pessoas que reclamam da falta de coesão partidária reclamam do “toma lá, da cá”. É justamente nos países com partidos fortes e mais coerentes ideologicamente que o “toma lá, dá cá” é institucionalizado mesmo, com partidos trocando a sustentação de governos por cargos de gabinete. Também há o ponto bizarro de que as mesmas pessoas que reclamam da participação das ditas minorias no processo reclamarem por partidos fortes. Ora bolas, se toda minoria precisar de um partido para ser representada você fecha as portas para a representação política para todas elas.

Eu, pessoalmente, gostaria de entender a fixação que as pessoas que escrevem sobre política no Brasil com partidos. Porque isso não faz o menor sentido.

****

Coimbra nos brinda com a seguinte pérola:

“E é certo que, para as minorias étnicas, religiosas, culturais, de gênero ou opinião, entre outras, seria quase impossível eleger deputados.”

Ah. Então Coimbra quer dizer que apenas mulheres seriam eleitas para o Congresso no voto distrital?

***

Por fim, um ponto importante: pode-se defender ou não o voto proporcional, mas quem o faz deveria se abster de falar em “questões paroquiais” ou do próprio uso da palavra. Isso soa insuportavelmente arrogante e elitista. Coimbra talvez soe mais elitista e arrogante ao falar em “despachante de luxo”. Leo Ryan, um deputado da Califórnia, MORREU em 1978 da Guyana Francesa tentando resgatar filhos de constituintes, para se citar um exemplo trivial.

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Wednesday, September 21st, 2011...1:27 pm
Brasil
O Brasil não está pronto para o Conselho de Segurança

Dilma Rousseff está dizendo que o Brasil estaria pronto para integrar o Conselho de Segurança da ONU. Não sei. Muitas das críticas - incluindo deste blog - da participação do Brasil no CS partem do princípio que a política externa do Brasil é pouco consistente e de que a diplomacia brasileira não tem respostas para algumas das questões mais cruciais envolvendo questões diplomáticas(Isso quando não passa a mão na cabeça de ditadores brutais tendo em vista apenas interesses comerciais). Claro que há outro ponto aí: o Exército brasileiro é mais uma rede de clubes oficiais que uma forças militares capazes de manter conflito em larga escala(Convenhamos, quando um paiseco como a Honduras sitia a sua embaixada suas forças armadas não metem medo em ninguém).

Para participar do CS o Brasil teria que colaborar com efetivos de segurança, o que exigiria bem mais que enviar soldados para jogar futebol no Haiti. O Brasil não só está pronto para isso quanto dificilmente há consenso se o Brasil planeja fazer o investimento necessário - e suportar as baixas caso seja preciso - para entrar para o CS.

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Tuesday, September 20th, 2011...1:22 am
Brasil
Mudando de mestres

Dilma Rousseff anunciou que vai fazer um discurso na Assembléia Geral da ONU em prol do reconhecimento pelo órgão da Palestina como estado independente. Na prática, isso é um tapa na cara dos americanos, que junto de Israel são os grandes opositores da idéia(Obama, Susan Rice e Hillary Clinton tem atacado fortemente a idéia). Não sou o maior fã da idéia – em parte porque mesmo considerando as fronteiras de 1967 você teria um estado formado da metade de uma cidade e por vários territórios desconexos, em parte porque mudaria pouca coisa para os palestinos(Embora seja preciso definir o que é exatamente a Palestina: ou se cria um estado para os palestinos ou Israel os aceita como cidadãos – a falta de nacionalidade definida para os palestinos é uma violação da própria Declaração Universal dos Direitos do Homem da própria ONU).

Por outro lado, o Brasil é fortemente criticado por diplomatas e organizações de direitos humanos por ignorar problemas de violações de direitos humanos em vários países africanos e árabes. Dilma Rousseff poderia ser muito mais útil falando das violações do regime sírio, por exemplo, país aonde o Brasil poderia exercer de fato influência. Como ocorreu com a Líbia, o Brasil acabaria se aliando a Rússia e a China contra os americanos, ingleses e franceses ao forçar a diluição de uma resolução condenando a Síria. Pode-se alegar que no caso sírio o Brasil estaria sendo movido por interesses comerciais, mas o período brasileiro no Conselho de Segurança da ONU está sendo marcado por uma alinhamento maior em prol de dois países – Rússia e China – com histórico horrível em direitos humanos.

Os petistas prometeram uma política externa independente. A impressão é de que eles simplesmente mudaram de mestres.

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Monday, September 19th, 2011...2:15 am
Brasil
Flávio D´Urso, um homem ocupado

Flávio D´Urso, o presidente da Seccional paulista da OAB, é um homem ocupado. Enquanto não prepara sua candidatura à prefeitura da capital paulista, D´Urso divide seu tempo entre discursar para o movimento e entre trabalhar suas habilidades de crítico de arte. D´Urso está tão ocupado com suas atividades que não está tendo tempo para dirigir a OAB – é a única explicação pela qual D´Urso não publicou uma forte crítica ao promotor Rogério Leão Zagallo. Acredito que D´ Urso tenha misturado a sua crítica ao promotor entre algumas obras que serão definidas como apologia ao crime na próxima bienal, ou que sua secretária tenha-se confundindo.

É a única explicação.

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Thursday, September 15th, 2011...1:35 am
Economia, Indústria e Comércio
Guido Mantega quer salvar os bancos europeus

Os bancos são a espinha dorsal do sistema capitalista. As pessoas e empresas depositam seu dinheiro nos bancos, os bancos usam esse dinheiro para empréstimos e financiamentos diversos, o que permite o funcionamento das empresas. Justamente por isso banco nenhum é capaz de devolver todo o dinheiro de seus correntistas de uma vez só – se isso ocorrer por algum motivo o banco quebra. E isso pode criar um efeito em cascata(Foi o que ocorreu na Grande Recessão de 1929) com as pessoas sucessivamente retirando dinheiro dos bancos – a chamada corrida aos bancos(Ou corrida aos depósitos).

Por isso que planos de resgate a bancos – ou ao menos algum sistema que permita aos correntistas resgatar seu dinheiro – são importantes. Permitir que um banco atrás de outro quebre não é nada atrativo. Por outro lado, politicamente, poucas coisas são mais venenosas que esses planos de resgate a banqueiros, notoriamente odiados no imaginário popular. FHC foi bastante criticado pelos vários planos de resgate a bancos em sua gestão, o TARP, um amplo plano de resgate a bancos criado por Bush foi o que empurrou as eleições presidenciais de 2008 para Barack Obama.

Os problemas financeiros da Europa são baseados nos bancos. Os bancos europeus, em especial da França e da Alemanha, emprestaram quantias violentas de dinheiro a países da periferia da continente. Logo, se esses países pedirem a moratória da dívida pública, o que em alguns casos é inevitável, isso significaria que grande parte dos bancos do continente estaria vulnerável. Claro, nenhum dos líderes europeus está disposto a explicar a seus cidadãos o tamanho da bagunça que é o sistema bancário do continente. E muito menos enfrentar a ira popular por causa de planos de resgate a bancos.

O que eu não entendi até agora é a sanha de tanta gente no Brasil de querer poder salvar os bancos na Europa. Porque é exatamente isso o que Guido Mantega anda propondo.

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  • "Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral. Ademais, a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente, já fala de per si, porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem, como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias."

    Ortega y Gasset

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